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Graduado em História, é associado do Livres e coordena nosso Clube do Livro. Nasceu em Belo Horizonte. Gosta de liberalismo, política, automobilismo, História e batata.

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Um espectro rondou a Europa ao longo do século XX. Era o espectro do comunismo. O combate intelectual ao marxismo e à sua influência nos meios intelectuais foi realizado por muitos autores liberais e conservadores, mas poucos conseguiram executar uma crítica às ideias de Marx como Raymond Aron fez em O Ópio dos Intelectuais.

Livro publicado originalmente em 1955, O Ópio dos Intelectuais analisa como as ideias marxistas influenciaram o pensamento das esquerdas francesas, afastando-as dos valores da democracia liberal e as aproximando dos espíritos revolucionários. Uma das grandes defesas da moderação política no século XX, a obra atraiu críticos não por ser fraca, mas pelo bom modo como o seu argumento central foi apresentado: o marxismo tinha se tornado uma religião para os intelectuais, impedindo que eles vessem a realidade do ocidente por aquilo que ela realmente era: o lugar em que estavam presentes as melhores condições para gerar prosperidade e igualdade.

Confira a seguir os detalhes da obra analisada no decido nono encontro do Clube do Livro!

Quem foi Raymond Aron?

Raymond Aron (1905 – 1983) foi um cientista político, sociólogo, jornalista e intelectual público que atuou na França ao longo do século XX. Ele se tornou conhecido pelos seus estudos sobre totalitarismo, liberalismo e o comunismo. Sua defesa da liberdade era uma defesa marcada pelo reconhecimento de que, na “era dos extremos”, apoiar os fundamentos da democracia liberal era ter uma postura conservadora.

Filho de judeus seculares, Aron se tornou doutor na École Normale Suérieure com uma tese sobre a Filosofia da História. Abandonou as aulas de Filosofia na Universidade de Toulouse para lutar na Segunda Guerra e publicou o França Livre, em Londres, quando o seu país caiu nas mãos dos nazistas.

Após o fim da Guerra, voltou para a frança, onde foi processor nas École Nationale d’Administration, na Sorbonne e no Collège de France. Além de ser um professor e intelectual público, Aron também atuou como colunista no impresso conservador Le Figaro e na revista L’Express.

Os mitos políticos do marxismo

Raymond Aron entendia que a esquerda, influenciada pelas ideias marxistas, tinha se submetido a uma série de mitos políticos. Essas ideias impediam os intelectuais de abraçarem os valores da democracia e, ao mesmo tempo, contribuía para a formação de uma elite intelectual comprometida com os valores da revolução.

O mito da esquerda

O primeiro mito identificado por Aron era o mito da esquerda. Segundo o autor, as esquerdas se consideravam guiadas pelos ideais da liberdade contra a tirania, a busca por uma ordem social não tradicional e a defesa da igualdade contra os privilégios. Esse seria, portanto, o “tipo ideal do esquerdismo moderno”.

Ser de esquerda era, de certa maneira, buscar um futuro melhor do que o presente, que fosse marcado por mais liberdade, igualdade e fraternidade. Mas havia um limite para o apoio à luta dos povos que pereciam sob a tirania, e ele geralmente estava limitado pelas fronteiras da URSS, da Cuba de Castro e da China de Mao. Em outras palavras, o marxismo tornou as esquerdas europeias hipócritas: elas se colocavam a favor da liberdade dos povos, mas apenas se este espírito de libertação estivesse direcionado em prol do projeto marxista.

O mito da revolução

O segundo mito das esquerdas era o mito da revolução. Aron entendia que as esquerdas europeias, que viviam em um ambiente de relativa paz e prosperidade, viam as revoluções do passado com um espírito saudosista: havia nostalgia com as revoluções históricas, mas também nostalgia para o futuro em seus sonhos utópicos.

Havia sempre a esperança de que uma nova revolução, de caráter verdadeiramente libertador, estava no horizonte histórico dos proletários. O mito, neste caso, encontrava os seus limites em dois pontos: o proletariado, que se aburguesou em todo o ocidente, e a própria Revolução Russa, que foi conduzida por (e levou a um regime de) burocratas marxistas, substituindo uma elite aristocrática por uma elite partidária. Portanto, nos locais em que a revolução deveria ter proporcionado liberdade, ela trouxe novas formas de opressão contra os trabalhadores.

O mito do proletariado

O terceiro – e último mito – era o mito do proletariado. A classe operária era o corpo de pessoas que seria salvo pelo marxismo com o fim do capitalismo. Mas, ao mitificar os trabalhadores, as esquerdas esbarravam em dois problemas: quem é proletariado e o que é libertar os trabalhadores.

Definir quem é proletariado é algo fácil se (e somente se) nos limitarmos a todos aqueles que não eram donos dos meios de produção. Mas Aron aponta que, se optarmos por um estudo mais elaborado sobre quem era o trabalhador no pós-guerras, teríamos grandes dificuldades de encontrar unidade nesse corpo de pessoas a serem salvas: o engenheiro que ganhava salários elevados na indústria sofria o mesmo nível de opressão dos que estavam na linha de produção? Servidores públicos, que recebiam os seus salários do Estado, também eram proletariado? O processo de aburguesamento da classe operária não teria dissolvido as diferenças entre classes sociais ao longo do século XX?

Indo além, também era necessário definir os limites do que seria a salvação dos proletariados – e como ela seria feita. Aron aponta dois tipos de libertação. O primeiro (a libertação ideal), adotado em Cuba, se dava por meio da revolução. O segundo (a libertação real), adotado nos países nórdicos, utilizava as instituições democráticas para melhorar gradualmente a vida dos trabalhadores.

Segundo o cientista político francês, a libertação ideal era rápida, violenta, mas indiferente às reais condições de vida do trabalhador. Já a libertação real utilizou o pragmatismo e a democracia para promover melhorias reais nas condições dos trabalhadores – ainda que muitas vezes insuficientes. A força do argumento de Aron era vista na simples análise do impacto que o trabalhismo inglês fez, em comparação às reformas da Europa Oriental, nos padrões de vida dos trabalhadores europeus.

Um chamado pela moderação

O Ópio dos Intectuais tem como maior virtude ser um dos grandes chamados pela moderação política do século XX. Publicado em uma época em que grande parte das elites intelectuais estavam enamoradas pelo espírito revolucionário, a obra mirou na esquerda moderada e pregou, com inteligência única, pela boa convivência entre os que pensam diferente. Mais do que isso, argumentou que o dogmatismo político poderia cegar grandes mentes e impedi-las de criticar aqueles que estão ao seu lado.

Aron, aliás, teve uma vida marcada pela adesão às suas ideias e a luta contra toda forma de dogmatismo político. Sua crítica ao marxismo é muito popular, mas ele também não deixou de criticar a Escola Austríaca, que considerada uma outra forma de religião ideológica. Foi graças a este compromisso com a democracia liberal e os valores políticos da liberdade que, apesar de todas as críticas, ele sempre se manteve respeitado pelos seus pares e entrou para a história como um dos grandes pensadores franceses do século XX.

O Ópio dos Intelectuais será analisado pelo Clube do Livro no domingo, dia 31 de outubro, às 20:00. Participe do webinar ao vivo em nosso canal do YouTube!