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Coordenador da setorial de Urbanismo e Mobilidade do LIVRES. Estudante de Direito com formação complementar em Ciências Sociais na FGV-Rio.

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Para transformar a realidade das cidades brasileiras é preciso muito dinheiro? Para Jaime Lerner, não.

Esse arquiteto e urbanista curitibano ajudou a planejar a sua cidade natal a partir de ideias inovadoras e com pouco recurso. Mais do que isso, ele colocou em prática um modelo de cidade desenvolvido de forma pragmática, mas com resultados robustos, que impressionou o mundo e se tornou referência de sustentabilidade e planejamento urbano.

Como isso foi possível? Com simplicidade, eficiência e criatividade. O primeiro exemplo disso foi o ocorrido nos anos 70, em que Jaime, como prefeito de Curitiba, aplicou esses três princípios a partir de uma ideia nunca antes vista no Brasil. Ele transformou, em menos de 72 horas, uma das principais ruas do centro da cidade, a XV de novembro, em um calçadão exclusivo para pedestres.

Um caso pioneiro, que gerou resistência na época, ainda mais por ir de encontro ao adotado pelo resto do mundo – que abraçava a ideia de cidades espaçadas e a proeminência do modal rodoviário. De todo modo, foi uma política pública que trouxe resultados positivos, como o pontapé inicial de um modelo de cidade o qual ele queria desenvolver.

Afinal, surge dessa ideia piloto o projeto de uma cidade integrada. Ou melhor, de uma cidade inspirada na vida de uma tartaruga, como dizia Lerner. Um planejamento urbano em que moradia, trabalho e a vida estivessem interligados por um único e indivisível “casco”. Essa ideia só seria possível com uma integração entre modais – em que o carro seria só um acessório – e com o desenvolvimento de uma cidade adensada, com oferta de empregos, moradias e diferentes transportes em um mesmo espaço conectado.

Por conta disso, esse projeto de cidade só foi efetivamente concretizado com a criação do BRT (Bus Rapid Transport), um sistema inovador de transporte público. Como não havia recursos financeiros para o desenvolvimento de projetos como um metrô ou VLT, Lerner, então, decidiu desenvolver esse sistema de ônibus rápido, a partir de uma rede integrada de transportes. Um modelo de ágil implementação, idealizado na década de 70 e implementado até os dias de hoje, que articulou o crescimento urbano de Curitiba, a partir dos princípios e direcionamentos urbanos desenhados por ele.

O BRT trouxe dinamismo e eficiência para a gestão urbana de Curitiba. Além do mais, tornou-se um sistema de transporte de referência para o mundo, influenciando mais de 200 cidades pelo mundo a adotar medidas semelhantes. Enfim, o BRT deu vida a cidade idealizada por Lerner e colocou o seu nome em evidência para o mundo.

Com essas e tantas outras contribuições, Jaime ajudou Curitiba a se tornar uma cidade inspiradora, que coubesse dentro dos seus sonhos. Não à toa, ainda hoje, a cidade é considerada a cidade mais sustentável e verde da América Latina, segundo o Green City Index, e um caso ímpar de estudo de planejamento urbano.

Ontem, Jaime nos deixou. Por isso, fiz esse texto, como agradecimento por todo o legado que construiu. Ele foi um gestor público e pensador à frente do seu tempo que, por isso, ainda nos propõe excelentes reflexões para pensar as cidades e a política no século XXI.

Como uma referência mundial no urbanismo, Lerner nos ensinou que, na política, é preciso sonhar longe, mas, sobretudo, é fundamental atuar de maneira dinâmica. Como ele dizia: “a falta de verbas não justifica a falta de ideias.” Que apliquemos, então, a simplicidade, a eficiência e a criatividade de Jaime para pensarmos e construirmos, aos poucos, as cidades brasileiras que tanto almejamos.