Estudante de economia da PUC-Rio, ativista liberal feminista, fundadora do LOLA-Brasil e associada Livres.

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Em uma democracia liberal, a linha que separa a ciência da propaganda é bem delimitada. Os governantes sabem que podem se valer dos dados publicados para se autopromover, mas nunca cercear a publicação de pesquisas que criticam suas ações ou desmentem sua ideologia. Infelizmente, falta este discernimento básico ao governo brasileiro.

Nos últimos dias, uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Justiça e realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) foi censurada pelo ministro da cidadania, Osmar Terra, porque os resultados contrariam suas convicções.

O Terceiro Levantamento Nacional Sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira foi empreendido dentro dos padrões estatísticos internacionais, ouviu mais de 16 mil pessoas entre 2014 e 2017 e concluiu que não há uma epidemia de uso de drogas no país – ao contrário, apenas 9,9% dos brasileiros entre 12 e 75 anos experimentaram alguma droga ilícita na vida.

Osmar sentiu-se no direito de impedir que a população acessasse a pesquisa – em uma clara violação à liberdade de expressão – porque deslegitima sua defesa da guerra às drogas, que ceifa numerosas vidas inocentes todos os anos.

A produção de dados bem embasados é essencial para a saúde de uma democracia. É através dela que o cidadão pode formar sua opinião de maneira independente e decidir o que é melhor para o país; é também a partir desses materiais que governantes eleitos elaboram políticas públicas. Sem eles, o debate acaba caindo no obscurantismo e o resultado das medidas estatais é adverso. Apenas populistas demagogos optam pela desinformação do povo e pela implementação cega de seus ideais, ainda que cause ineficiência – ou neste caso específico, mortes.

Diante de todo esse caos, é quase intuitivo concluir que o verdadeiro inimigo da estabilidade democrática brasileira não é o fascismo ou o comunismo, mas o anti-cientificismo. Temos congressistas que negam a existência do déficit no sistema previdenciário, um poder executivo que censura pesquisas e nega o aquecimento global, uma parcela da população que é contra as vacinas e crê que a terra é plana.

É impossível ser livre estando mal informado. Cercear o acesso à informação é um atentado aos direitos individuais. O ministro e seu governo deveriam se posicionar de forma humilde e aprender com quem muito estudou – não questionar a veracidade dos dados usando como exemplo as ruas de Copacabana, quando nas vielas das comunidades cariocas crianças são mortas por policiais a caminho da escola.