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Economista (FEA-RP/USP), mestrando em Administração de Organizações (FEA-RP/USP) e Professor Monitor no INSPER.

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Uma leve olhada no noticiário televisivo e já cansamos a mente. Desde o início da pandemia, somos e estamos sendo (afinal a pandemia ainda não acabou) bombardeados por notícias tristes. Óbitos, sofrimento, suprimento insuficiente de oxigênio em Manaus, crise de saúde pública em Araraquara, lockdowns, discursos errantes do Presidente, medidas arbitrárias de governadores e prefeitos. Qual seria o balanço desse ano e meio de pandemia e como devemos olhar para o ano eleitoral que se aproxima? Convido o leitor para uma breve reflexão.

Não sou médico nem profissional da área da saúde, portanto não entrarei na seara de medicamentos e medidas sanitárias para combate à pandemia. A meu ver, foi gasto um tempo exacerbado e desnecessário na discussão sobre a eficácia de medicamentos A, B ou C, e pouco foi feito, por parte do governo federal, para o combate à pandemia. Pelo menos de cabeça não me recordo de ver propagandas midiáticas patrocinadas pelo Planalto endossando medidas de distanciamento social, uso de máscaras e demais cuidados protetivos. Muito pelo contrário. O que se observava era (e ainda é) um presidente completamente alheio aos verdadeiros problemas do país. Falas desconexas, piadas homofóbicas, “motociatas” completamente fora de contexto e lives beirando diversos crimes de responsabilidade marcam um governo que, quando assumiu, tinha uma oportunidade de ouro nas mãos.

Após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o fim dos 14 anos de governo petista, liberais, libertários e demais setores da sociedade civil tiveram a oportunidade de eleger um governo federal que implementaria as tão sonhadas reformas e deslanchar o crescimento econômico brasileiro, reprimido desde as décadas de 70 e início dos anos 80.  Um governo inicialmente montado com a proposta de ter ministros técnicos, e que teriam o compromisso de comandar suas pastas de maneira autônoma, expectativa que já foi frustrada. Quem não professava da cartilha do Presidente foi convidado a sair. O próprio Ministério da Saúde conta com o 4º ministro, e ainda mais um ano e três meses de governo restantes.

Foi jogada fora a oportunidade de se estabelecer um governo federal que nos fizesse esquecer os desvios bilionários da Petrobrás, o financiamento via BNDES de obras de infraestrutura superfaturadas em nações amigas do governo petista, nos fizesse esquecer a CPI da Petrobras em 2009 e o Mensalão. Ao contrário. Esses episódios são lembrados recentemente com paralelos ocorridos no governo Bolsonaro, como o esquema das rachadinhas (que parece longe do fim), a CPI da COVID mostrando escabrosos eventos ocorridos entre funcionários, a maioria militares, do Ministério da Saúde com empresas de fachada, bancos que não são bancos (caso do FIB Bank), empresas farmacêuticas que supostamente possuem envolvimento com o ex-ministro da saúde e atual líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros e o esquema de corrupção que se mostra cada dia mais evidente na compra de vacinas do Consórcio Covaxin, com propinas cobradas em dólar por cada dose de vacina. O Governo Federal faz questão de estar envolvido em tudo de errado que se pode imaginar. E isso não é bom.

Não podemos fechar o olho também para os problemas ocorridos nos níveis mais baixos das unidades federativas, ou seja, nos estados e municípios. Respiradores foram encomendados de maneira superfaturada de lojas de brinquedos (Distrito Federal), casas de massagens (Santa Catarina) e adegas de vinhos (Amazonas). Além disso, estados e municípios decidiram quem poderia trabalhar ou não, consequentemente decidiram quem poderia receber pelos seus serviços ou não. “Primeiro salvamos vida, e a economia vemos depois” foi uma frase, junto de suas variantes, que estampou os veículos de comunicação. Meu background de economista não me permite que eu concorde integralmente com essa frase, visto que as alternativas encontradas falharam, em minha opinião. O desemprego bate recorde, assim como bateu recorde o número de empresas que foram obrigadas a fechar suas portas. Informações confusas, desencontradas, nos traziam mais dúvidas que respostas, enquanto ficamos fechados dentro de casa esperando a vacina, que o Governo Federal fez questão de retardar.

E aqui estamos nós, no mês de setembro de 2021, pensando nas eleições de 2022. Bolsonaro a meu ver abdica de governar para se lançar candidato. Aliás, há algum tempo ele deixou de pensar no presente para se dedicar integralmente ao futuro. Lula, solto há pouco tempo, lidera algumas pesquisas de intenção de voto, e torce para que Bolsonaro não sofra impeachment até lá, pois sua chance de derrotá-lo em um eventual segundo turno me parece bastante grande. O que nos leva ao motivo de eu ter pensado nesse texto:  A terceira via.

A terceira via, sabe-se lá o que ela seja, carece de propostas, ideias e agenda, antes de pensar em nomes. Até porque me parece inconcebível colocar Ciro Gomes, João Amoedo e Dória no mesmo cesto. A mim me parece que o brasileiro gosta muito de pares, tanto complementares quanto rivais. Corinthians X Palmeiras, arroz e feijão, Brasil x Argentina. Desde 1994 convencionou-se polarizar PSDB com PT, sendo este um representante da esquerda e aquele um representante da direita. Não vou entrar no mérito sobre essas definições (spoiler: na minha opinião essa dicotomia me parece deveras ultrapassada e equivocada), mas é hora de mudar a mentalidade.  Várias são as alternativas possíveis para se acabar com o hiato Lula/Bolsonaro, Direita/Esquerda. Chamo a todos aqueles que, assim como eu, não pensam em votar em nenhum dos dois, a invocar o bom senso. Permitam-me pedir a quem se interessa em sair candidato ano que vem, seja para qual cargo for, que seja um praticante do bom senso. O extremismo não nos levou e não nos levará a lugar algum. Ideias nos movem e movem o mundo, e não a truculência. Para quem, assim como eu, acredita em algo similar ao Estado Liberal, com defesa dos direitos de propriedade, defesa da vida, da liberdade e da busca pela felicidade, deixo a recomendação de parar de pensar em dicotomias. Esqueça o “E o PT?” e “Não concordo com você, fascista”. Pare de polemizar com argumentação rasa e foque em ideias sólidas, críticas bem construídas e análises profundas. A superficialidade já se provou ser danosa à democracia.

Cada dia que passa, tento me manter distante dos extremos. Tento ser um adepto do bom senso. Como liberal, é meu dever criticar qualquer tipo de autoritarismo, seja do Executivo, Legislativo e Judiciário (esse aqui merece um texto exclusivo, dadas as medidas monocráticas corriqueiramente tomadas). Não sei se estou conseguindo, mas estou fazendo a minha parte. Gostaria que mais gente fizesse também.