Estudante de letras e associado do Livres em Jaraguá do Sul/SC.

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Ontem, manhã de terça-feira, 16, a organização da 13ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul cancelou o convite à jornalista Miriam Leitão e ao sociólogo Sérgio Abranches. Um pequeno grupo de radicais organizou um abaixo-assinado contra a presença da jornalista “por seu viés ideológico e posicionamento” e que “a população jaraguaense repudia sua presença, requerendo, assim que a mesma não se faça presente em evento tão importante em nossa cidade” (não sabíamos como colocar os “sics” sem torná-los repetitivos demais).

A petição conta atualmente com 3.400 assinaturas, e foi noticiada no jornal local “que desde a manhã desta segunda (15), foi possível observar que a grande maioria da população, pelo menos a que está presente nas redes sociais e comentou a postagem, não tem medo de demonstrar sua opinião e se mostra contra a jornalista tida como ‘de esquerda’.” Nada mais distante da realidade do que achar que três mil assinaturas on-line se traduzem como a grande maioria da população – de 160 mil habitantes. Tanto é que, analisando os comentários das notícias deste jornal local na sua página do Facebook, a opinião é bastante dividida, com radicais pregando até a perseguição da jornalista e defensores da sua participação criticando a intolerância do primeiro grupo. E aliás, postagens on-line não são métricas estatísticas em nenhum lugar do mundo, ainda mais em comentários de notícias – bastante conhecidos como poços de ignorância e truculência.

Além disso, um dos organizadores da feira, o escritor Carlos Henrique Schroeder ficou assustado com a onda de mensagens ameaçadoras que receberam e se sentiu envergonhado ao comunicar o cancelamento por “não poder garantir condições de segurança aos participantes”. Coordenador Geral do evento, João Chiodini disse que as ameaças iam de ovadas até ameaças de morte.

“Nesses 12 anos, a feira já enfrentou inúmeras dificuldades, da escassez de recursos financeiros até enchentes. Mas nunca, em toda sua história, a festa da literatura foi atacada pela escolha de seus convidados.” Declarou em nota a comissão organizadora do evento, que já contou com a presença do músico Lobão e da filósofa Márcia Tiburi.

Essas ameaças são inaceitáveis em qualquer sociedade que queira se considerar democrática, visto que a segurança em manifestar opiniões contrárias é condição necessária da democracia liberal. Afinal, que democracia é essa na qual os opositores não podem se manifestar? O próximo passo é montar “coletivos armados” para garantir o governo na base da bala contra opositores? Ao ameaçar a vida daqueles que contestam o governo, mata-se a democracia. Não existe desenvolvimento e liberdade sem democracia!

Muitos associam a jornalista à uma possível militância comunista (ou até mesmo petista) na atualidade por conta do seu passado. De fato, a jornalista na sua juventude fez parte de Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, que na época era proibido, e por isso fora presa em 1972 em Vitória (ES), onde residia, estudava e trabalhava na época. Mas logo foi absolvida, e contra ela nunca ocorreu acusação de roubo, homicídio ou outros crimes. Ela certamente mudou suas opiniões, sendo hoje uma das principais comentaristas econômicas e críticas às medidas dos governos petistas, que nos levaram a maior crise econômica da história moderna brasileira, e fora inúmeras vezes atacada – veja a ironia da polarização radical da política – por petistas e o próprio Lula.

Oras, se um passado juvenil comunista é motivo de pena perpétua contra uma pessoa, rasguem seus livros de Hayek, aquele que expôs o grande erro do socialismo com o problema do cálculo econômico numa economia centralizada, ou de Mário Vargas Llosa, escritor peruano que quase venceu as eleições presidenciais contra o fascista Fujimori. Desnecessário lembrar que ambos são laureados por prêmios Nobel em cada uma das suas áreas. E, aliás, se o passado ingênuo em defesa de ideologias atrasadas é motivo de perseguição, me prendam também.

Mas talvez nem seja por conta do seu passado que Miriam é perseguida – afinal, quem ainda pensa como pensava na sua juventude? É possível que boa parte deste ódio venha de dois motivos: seus ataques às pataquadas autoritárias e bizarras do governo, e sua denúncia dos horrores dos porões da ditadura, onde ela ficou três meses presa e torturada – mesmo estando grávida. Num episódio emblemático, jogaram na sua cela uma cobra e a jornalista, lembrando que o animal se localiza através dos movimentos, ficou horas imóvel dentro da cela.

Enfim, o cancelamento da palestra é tão aterrador que foi noticiado na maioria dos grandes portais de notícias do Brasil. Companheiro de Miriam no Bom Dia Brasil, Chico Pinheiro declarou que “o livro é arma perigosa”, além de que isso é mais um sinal de que estamos entrando na Idade Média. O jornalista Marco Antônio Villa, historiador e claramente uma figura mais ligada à direita e às críticas ao PT, fez um vídeo no seu canal do YouTube apoiando a jornalista e disse que isso é uma clara manifestação neofascista. Disse ainda que não acredita que a maioria dos jaraguaenses apoiem este tipo de censura. Pois trata-se, de fato, disso mesmo: censura. E o historiador está certo: os jaraguaenses não são, em sua maioria, neofascistas e, no que depender de nós, nunca permitiremos que seja.

Um abaixo-assinado foi aberto em apoio a presença da jornalista e nós, associados e apoiadores do Livres na cidade, junto com toda as forças democráticas da sociedade jaraguaense, nos colocamos a favor deste abaixo-assinado, da presença da jornalista Miriam Leitão e do sociólogo Sérgio Abranches no evento e nos colocamos dispostos a ajudar com o que for necessário para garantir a segurança dos participantes. Se a polícia não quer fazer o seu trabalho, a sociedade civil organizada e democrática o fará. A comissão organizadora pode contar com a nossa ajuda para vencermos essa onda de ódio e intolerância.

Jaraguá contra a censura!