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Empresário, consultor, conselheiro da CONAJE e ex-diretor do Instituto Millenium, é presidente nacional do Livres. Empreendedor, diretor executivo do Livres e conselheiro do Instituto Millenium. Ex-vice presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro e ex-diretor da CONAJE. Especialista em liderança e competitividade global pela Universidade de Georgetown e relações internacionais pela Universidade Cândido Mendes.

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“Se o golpe de Jango se destinava a mantê-lo no poder, o outro destinava-se a pô-lo para fora. A árvore do regime estava caindo, tratava-se de empurrá-la para a direita ou para a esquerda” – Elio Gaspari

Muitas nações mostram sua grandeza não pela ausência de grandes traumas ou rupturas, mas pela maneira com a qual suas instituições lidam com essas violações. A Alemanha pós-guerra, os Estados Unidos que inspiraram o “Democracia na América” ou a Coréia do Sul do século XX são exemplos de países que foram capazes de curar as feridas do passado e olhar adiante com uma certa ideia de nação, em comum.

Esses países souberam criar novas sociedades abertas nas quais a política era capaz de se reinventar para melhor atender seus cidadãos, superando os moldes autoritários que se colocavam como as únicas opções possíveis. A democracia liberal é, afinal, a possibilidade da disputa e alternância de poder sem que a violência faça parte dessa equação.

O subdesenvolvimento institucional do Brasil, por outro lado, parece nos condenar a seguir afastados desses países, ocupando a retaguarda do retrocesso.

O golpe de 1964 é uma ferida que faz parte da formação identitária brasileira. Para superarmos este capítulo, precisamos conseguir tratá-lo a partir de uma visão comum do país que desejamos construir, não com divisionismo. Usar aquele período como uma ferramenta retórica de aquecimento das tensões é irresponsável, sobretudo em um cenário já tão polarizado como vivemos em 2019.

Para construir um país livre, democrático e que respeite os cidadãos, precisamos crescer enquanto povo, o que significa abandonar o dualismo simplista do “nós versus eles”, “bons versus maus”, “comunistas versus reacionários”. Em 1964 dois projetos autoritários disputavam quem sepultaria a democracia brasileira. Dois polos antagônicos que nos levariam ao mesmo resultado: violação de liberdades individuais e crises econômicas. Se quisermos superar o golpe, precisamos criar uma alternativa ao autoritarismo, seja ele de esquerda ou de direita.

Para que possamos escrever um novo capítulo, precisamos entender que, não importa de qual lado venha a ameaça, a democracia é um patrimônio de todos. Ditadores não merecem elogios. Torturadores, independentemente das suas cores ou ideologias, são sempre crocodilos de almas.

Reaquecer a disputa da guerra fria, tentando limitar o debate político a um tabuleiro onde só existem dois lados é, além de falso, um desserviço ao Brasil de 2019. Um Brasil que precisa aprender que o melhor antídoto para o “Fla x Flu político” é a maturidade de condenar o que nos ameaça como país: a leniência com o autoritarismo, o desprezo pela razão, o desrespeito às liberdades individuais e a penúria econômica.

O Brasil só conseguirá construir um caminho para ser uma grande nação quando o debate deixar de ser para que lado deve-se empurrar a árvore da democracia, e comece a ser sobre como mantê-la de pé, firme e dando frutos.