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Artigo escrito por Jim Powell para o FEE.org e traduzido pelo OrdemLivre.

Durante a primeira metade do século XX, H. L. Mencken foi o mais franco defensor da liberdade nos Estados Unidos. Ele gastou milhares de dólares desafiando as restrições à liberdade de imprensa. Denunciou audaciosamente o presidente Woodrow Wilson por estimular o fervor patriótico para entrar na Primeira Guerra Mundial, o que custou o seu emprego como colunista de jornal. Mencken também denunciou a perigosa concentração de poder de Franklin Delano Roosevelt e suas manobras para entrar na Segunda Guerra Mundial. Dessa vez, além de perder o emprego no jornal, seu nome ainda foi citado pelo presidente em tom de escárnio.

“O governo sob o qual vivo foi meu inimigo durante toda a minha vida,” declarou Mencken. “Quando não estava me silenciando, estava me roubando. Até onde consigo me lembrar, nunca tive um contato com o governo que não tenha sido um ultraje à minha dignidade e um ataque à minha segurança.”

Embora fosse intensamente controverso, Mencken chegou a ser respeitado como o maior jornalista e crítico literário dos Estados Unidos. Produziu estimadamente dez milhões de palavras: cerca de 30 livros, contribuições a mais de 20 livros e milhares de colunas para jornais. Escreveu cerca de 100 mil cartas, algo entre 60 e 125 por dia de trabalho. Catava milho com os dois indicadores para formar cada palavra – por anos, usou uma pequena máquina de escrever Corona, que era mais ou menos do tamanho de uma caixa de charutos.

Mencken tinha coisas interessantes a dizer sobre política, literatura, culinária, saúde, religião, esportes e muito mais. Ninguém sabia mais da nossa língua americana. Especialistas influentes do passado, como Walter Lippmann, já foram esquecidos há tempos, mas Mencken ainda é lido. Na última década, foi publicada quase uma dúzia de livros dele ou sobre ele. O biógrafo William Nolte diz que Mencken está entre os autores americanos mais citados.

Certamente, Mencken está entre os mais brilhantes. Por exemplo: “Puritanismo – o medo constante de que alguém, em algum lugar, possa estar se divertindo”; “a democracia é a teoria do que o povo sabe o que quer, e deve recebê-lo integralmente” “o New Deal começou como o Exército da Salvação, prometendo salvar a humanidade, e acabou como o Exército da Salvação, administrando pensões e perturbando a paz”. Mencken tinha um metro e setenta e um de altura, e pesava em torno de 80 quilos. Usava o seu cabelo liso e castanho partido ao meio. Sempre tinha um charuto apagado na boca. Vestia um par de suspensórios e um paletó amassado. De acordo com um cronista, Mencken em seus melhores momentos parecia “um encanador acordando para ir à igreja.”

Dizia o editor Alfred Knopfsobre Mencken, seu grande amigo por mais de 40 anos: “Seu lado público era visível para qualquer pessoa: duro, cínico, divertido e às vezes, irritante. O homem privado já era outra coisa: sentimental, generoso e determinado – às vezes, quase cego – em sua devoção às pessoas as quais apreciava… Com um estilo mais charmoso que se possa imaginar, estilo que descobri que Mencken sempre exibia quando conversava com as mulheres… Ele passou uma quantidade fantástica de seu tempo levando e trazendo amigos a salas de espera de médicos e hospitais, confortando-os e fazendo-lhes companhia.”

Mencken inspirou os amigos da liberdade. Ajudou a alegrar Albert Jay Nock – autor de estilo individualista, que contribuía freqüentemente com a revista American Mercury, de Mencken – durante seus anos de declínio. O vigoroso individualismo de Mencken valeu-lhe o respeito da jovem Ayn Rand que, em 1934, referiu-se a ele como “alguém que admiro e que vejo como o maior representante da filosofia à qual desejo dedicar toda a minha vida.”

Henry Louis Mencken nasceu em Baltimore em 12 de setembro de 1880. Seu pai, August Mencken, era proprietário de uma fábrica de charutos. Sua mãe, Anna Abhau Mencken, assim como seu marido, era descendente direta de imigrantes alemães. Em 1883, a família se mudou para a casa de tijolos vermelhos, de três andares, no número 1524 da Hollins Street. Excetuando os cinco anos de seu casamento, Mencken viveu ali durante toda a sua vida.

Mencken era um leitor voraz desde o começo. Aos nove anos, ele descobriu As aventuras de Huckeberry Finn, de Mark Twain, que abriu seus olhos para o individualismo e para os prazeres literários. Segundo ele próprio, esse foi “provavelmente o acontecimento mais estupendo da minha vida.” Ele estava maravilhado: “que homem foi Mark Twain! Como ele permanecia acima e distante do mundo, como um Rabelais redivivo, observando a comédia humana, gargalhando das eternas fraudes do homem! Que olhar agudo tinha para o que era falso, na religião, na política, na arte, na literatura, no patriotismo, na virtude… e vendo isso tudo, ele ria, mas quase nunca com malícia.”

Mencken terminou seus estudos quando tinha 15 anos e foi direto trabalhar na fábrica de charutos de seu pai, mas odiou o trabalho. Alguns dias depois da morte de seu pai por insuficiência renal, em janeiro de 1899, Mencken tentou ser jornalista. A primeira história que vendeu, ao Baltimore Herald, era sobre um cavalo roubado. Em junho daquele ano já seria repórter trabalhando em tempo integral e ganhando 7 dólares por semana. Mencken mostrou ser excepcionalmente talentoso e diligente. Foi promovido a crítico de teatro, editor do jornal dominical e editor da cidade do jornal matutino.

Anteriormente, Mencken demonstrara uma tremenda paixão pela vida. Em 1904, por exemplo, iniciou um pequeno grupo musical que ficou conhecido como o “Saturday Night Club.” Quase toda semana, por 46 anos, uma dúzia de amigos se reunia por volta das 8 da noite. Mencken tocava piano com grande entusiasmo. Os outros participantes tocavam violino, violoncelo, flauta, oboé, bateria, trompa francesa e piano. Quase sempre, tocavam por algumas horas na loja de um fabricante de violinos e depois iam para o Hotel Rennert beber cerveja. Durante os 13 anos de lei seca, eles se revezavam realizando as festas em suas casas. Gostavam de música de câmara, marchas, valsas e melodias líricas. Mencken adorava os românticos alemães, acima de todos Beethoven.

O Baltimore Sun

O Baltimore Herald fechou em 1906, e Mencken foi para o jornal onde escreveria por mais de 40 anos. Um observador destacou: “O velho e sério Baltimore Sun arrumou um Whangdoodle de verdade.” O Baltimore Evening Sun foi lançado em 1910, e Mencken foi seu editor. De 1911 a 1915, escreveu diariamente a coluna “Free Lance”, que cobria política, educação, música e tudo o que lhe interessava. Ele editava a coluna adjacente das cartas ao editor, e quando uma carta desagradável surgia, criticando uma de suas colunas, fazia com que fosse publicada – Mencken reconhecia que as pessoas gostam de ler insultos.

Havia uma abundância de insultos, tal era a reação das pessoas ao seu estilo bombástico de escrever. Ele ridicularizava políticos hipócritas, sacerdotes e reformadores sociais. Por exemplo, Mencken chamou o samaritano fundamentalista William Jennings Bryan de “o mais esforçado papa-moscas da história americana… um charlatão, um impostor, um idiota sem vergonha ou dignidade.” Ele foi acusado de anti-semitismo por ter se referido a várias pessoas, gratuitamente, como “judeus.” Ainda assim, ele não criticou os judeus tanto quanto os outros. Ele descreveu os anglo-saxões como sendo “miseravelmente sujos, preguiçosos, burros e perversos… antropóides.”

Mencken atacou o presidente Woodrow Wilson por levar os Estados Unidos à Primeira Guerra Mundial. Ele insistia que o governo britânico dividia a responsabilidade pelo terrível conflito e atacava as pretensões morais dos oficiais britânicos que insistiam em um bloqueio naval, punindo pessoas inocentes, além dos combatentes na Alemanha. Mencken interrompeu suas colunas em razão da histeria dos tempos de guerra.

Enquanto isso, ele se estabeleceu como crítico literário. Desde 1908, analisava livros para a Smart Set, uma revista literária mensal. Ele e o crítico de teatro George Jean Nathan, foram nomeados editores em 1914. Mencken atacava incessantemente os padrões puritanos e saudou autores como Theodore Dreiser, Sherwood Anderson e F. Scott Fitzgerald.

Mencken passou a se dedicar cada vez mais a escrever livros – em 1919, ele já tinha escrito oito sobre música, literatura e filosofia. Aquele ano marcou o lançamento de sua obra mais duradoura. Ela surgiu de sua paixão pela língua americana, que evoluía espontaneamente para algo mais dinâmico do que o inglês da Inglaterra. Nenhum governo planejou isso: a língua americana foi se tornando mais expressiva à medida que as pessoas comuns cuidavam de seu dia a dia, às vezes contribuindo com novas palavras. A primeira edição de The American Language se esgotou rapidamente, e Mencken começou a trabalhar na segunda de suas quatro edições. “Tudo que eu peço,” escreveu para seu editor Alfred Knopf, “é que você faça o The American Language bom e espesso. É a minha ambição secreta ser o autor de um livro que pese pelo menos dois quilos.”

Em 1920, quando a Primeira Guerra Mundial já era apenas uma memória ruim, o Baltimore Sun pediu que Mencken continuasse a escrever sua coluna por 50 dólares por semana. Assim começaram os memoráveis artigos de “Monday”, que seriam publicados semanalmente pelos 18 anos seguintes, sendo quase dois terços deles sobre política.

O American Mercury

Em 1923, Mencken decidiu que queria um fórum nacional para suas visões políticas. Pediu demissão da Smart Set e, com o apoio de Knopf, lançou com Nathan a revista mensal American Mercury. O primeiro número, de um verde-ervilha bem especial, foi lançado em janeiro de 1924. Nathan logo passou a discordar da direção que a revista deveria seguir e pediu demissão. Mencken apresentava comentários mal-humorados, além de escritos de vários dos mais destacados autores americanos. Havia artigos da anarquista filosófica Emma Goldman e de Margaret Sanger, defensora do controle de natalidade. Também havia artigos de autores negros como W.E.B. Dubois, Langston Hughes, James Weldon Johnson e George Schuyler. A circulação cresceu por quatro anos, tendo seu pico em torno de 84 mil exemplares em 1928.

Embora Mencken não fosse conhecido como um filósofo político, ele deixava claro o seu comprometimento com a liberdade individual. “Todo governo,” escreveu, “é canalha. Em suas relações com outros governos, ele utiliza-se de fraudes e barbaridades que são proibidas ao homem privado pela lei comum da civilização, tão antiga quanto o reinado de Hamurábi, e em seu trato com o próprio povo, o governo não apenas rouba e desperdiça suas propriedades, além de jogar um jogo brutal com seus direitos naturais, mas também freqüentemente aposta suas vidas. As guerras raramente são causadas pelo ódio espontâneo entre pessoas, já que as pessoas em geral são ignorantes demais acerca da existência dos outros para terem qualquer reclamação, e indiferentes demais a respeito do que acontece além de suas fronteiras para planejar conquistas. Elas precisam ser encorajadas ao massacre por políticos que sabem como alarmá-las.”

Mencken expressou seu ultraje em relação à violência contra os negros e, à medida que Hitler passava a ameaçar a Europa, Mencken atacava o presidente Roosevelt por se recusar a admitir refugiados judeus nos Estados Unidos: “Só existe uma forma para ajudarmos os fugitivos, e essa forma é encontrarmos lugar para eles em um país onde possam realmente viver. Por que os Estados Unidos não podem aceitar algumas centenas de milhares de fugitivos, ou até mesmo todos eles?”

Mencken era inflexível para que os Estados Unidos não voltasse a ficar emaranhado em outra guerra européia. Ele acreditava que isso significaria uma maior expansão do poder governamental, da opressão, das dívidas e das mortes, sem livrar o mundo da tirania. Era melhor manter os Estados Unidos como um santuário pacífico para a liberdade:

“Acredito que a liberdade é a única coisa genuinamente valiosa que os homens inventaram, pelo menos no campo governamental, em mil anos. Acredito que é melhor ser livre do que não ser livre, mesmo sendo a primeira opção perigosa e a segunda segura. Acredito que as melhores qualidades do homem apenas podem florescer ao ar livre – que o progresso obtido sob a sombra do bastão dos policiais é um progresso falso, e não tem nenhum valor permanente. Acredito que qualquer homem que coloque a liberdade de outro sob sua guarda irá, certamente, se tornar um tirano, e que qualquer homem que abra mão de sua liberdade, mesmo que seja apenas um pouco dela, se tornará, certamente, um escravo.” Mencken acrescentou: “Em qualquer disputa entre um cidadão e o governo, é meu instinto ficar ao lado do cidadão… Sou contrário a qualquer esforço para tornar os homens virtuosos através da lei.”

Quanto ao capitalismo, Mencken declarou que:

“nós devemos ao capitalismo quase todas as coisas que possuímos sob o nome de civilização atualmente. O progresso extraordinário do mundo desde a Idade Média não foi causado pelo mero gasto de energia humana, nem mesmo pelos vôos de nossa imaginação, já que os homens trabalharam desde os tempos mais remotos e alguns deles tinham um intelecto inigualável. Não, esse progresso foi causado pela acumulação de capital. Essa acumulação permitiu que o trabalho fosse organizado economicamente e em grande escala – aumentando, assim, enormemente a sua produtividade. Ela forneceu a maquinaria que diminuiu gradualmente a labuta humana e que libertou o espírito do trabalhador, que anteriormente era indistinguível de uma mula. E, principalmente, possibilitou uma preparação mais longa e melhor para o trabalho. Assim, toda arte e artesanato expandiram o seu escopo e alcance, e uma grande quantidade de artes novas e altamente complexas apareceram.”

Sara

Por um breve período, Mencken enfrentou as suas batalhas ideológicas com uma companheira amorosa. Em maio de 1923, ele deu uma palestra chamada “Como arrumar um marido”, no Goucher College, de Baltimore, e lá conheceu Sara Haardt, uma professora de inglês de 26 anos, nascida no Alabama. Ficou impressionado com sua beleza, sua inteligência radiante e sua paixão pela literatura. Ela via nele um homem decente, alegre e civilizado. Sendo um solteiro que tinha vivido com sua mãe até a morte dela, em 1925, quando já tinha 45 anos, Mencken era cauteloso a respeito do casamento. Aparentemente, o agravamento da tuberculose de Sara o levou ao altar. Após a morte de Sara, em 31 de maio de 1935, Mencken escreveu a um amigo: “Quando eu me casei com Sara, os médicos disseram que ela não conseguiria viver mais de três anos. Na verdade, ela viveu cinco, então eu vivi mais dois anos de alegria além daqueles que tinha o direito de esperar.”

A morte de Sara foi um golpe duro sobre um já abatido Mencken. Com a Grande Depressão, em todo lugar se culpava o capitalismo, e Mencken, um individualista, parecia uma relíquia. Como ele raramente analisava a política econômica, não estava preparado intelectualmente para explicar como o próprio governo federal desencadeou e prolongou a grande depressão – as evidências mais fortes que sustentavam esse argumento só estariam disponíveis nos anos 1960.

A circulação da American Mercury despencou. Mencken deixou de ser seu editor em dezembro de 1933. Ele foi sucedido pelo jornalista econômico Henry Hazlitt. Três anos após a morte de Sara, os ataques de Mencken à política externa do presidente Roosevelt lhe custaram sua coluna no Baltimore Sun. Sua devoção à cultura tradicional alemã aparentemente o tinha levado a desacreditar as notícias nefastas que chegavam da Alemanha de Hitler, o que não o ajudou em nada. Ele tinha virado um pária.

Mencken fez muito para se redimir, no que diz respeito ao público, ao afirmar os prazeres da vida privada. Acrescentou dois grandes suplementos ao The American Language, aclamado como uma obra magistral, culta e divertida, a respeito da comunicação popular. Escreveu suas encantadoras memórias que começaram como uma série de artigos para a The New Yorker, e foram expandidas em uma trilogia, Happy Days (1940), Newspaper Days (1941) e Heathen Days (1943). Elas mostram uma visão tolerante e empolgada da vida. Mais tarde, Mencken editou uma ampla coletânea de seus artigos em um livro, A Mencken Chrestomathy (1948) – que continua sendo editado.

Em 28 de novembro de 1948, Mencken foi buscar um manuscrito no apartamento de sua secretária e sofreu um derrame. Enquanto recuperava as suas habilidades físicas, perdia a capacidade de ler e tinha dificuldades em falar. A maior parte das pessoas o esqueceu.

Mencken morreu dormindo em um domingo, 29 de janeiro de 1956. Suas cinzas foram enterradas perto de seus pais e sua esposa no cemitério Loudon Park. Henry Hazlitt, antigo companheiro de Mencken na American Mercury, chamou-o “uma grande força libertadora… em suas opiniões políticas e econômicas, Mencken não era, desde o início, um ‘radical’ ou ‘conservador’, mas um libertário. Ele defendia a liberdade e a dignidade do indivíduo.”

Apesar de sua morte, novas controvérsias sobre Mencken não demoraram a aparecer. As novas coletâneas de seus trabalhos se tornaram populares. Manuscritos ainda inéditos apareceram. Ele foi acusado de anti-semitismo, e essas acusações ganharam mais publicidade com a publicação de seu sincero diário, em 1989. Seus antigos amigos judeus o defenderam. Diversas biografias, voltadas para aspectos diferentes de sua vida, foram publicadas.

Quase todos os que contaram a história de Mencken se opunham às suas visões políticas – em particular, à sua hostilidade ao New Deal – mas sentiam por ele uma atração irresistível. Eram atraídos por seus empreendimentos extraordinários, por seu vasto conhecimento, sua coragem constante, seu bom humor e seu espírito livre. Esperamos que algum dia mais pessoas possam apreciar o papel vital de Mencken ao nutrir um amor pela liberdade durante algumas das décadas mais sombrias dos Estados Unidos.