Liberais vieram puseram novas ideias no mercado. Por cerca de 30 anos, elas comandaram o mundo. Desde o começo dos anos 80, as noções de livre mercado, globalização e liberdades individuais floresceram. No resto do mundo ocidental, o Liberalismo assistiu à queda do comunismo e do conservadorismo social de uma distância confortável. Isto é, até a crise de 2008, quando tudo desmoronou.

A crise financeira levou à austeridade em algumas das maiores economias do mundo e ao crescimento do populismo. Liberais, em alguns cargos de comando em governos poderosos como o americano e nos grandes bancos, levaram a culpa. E andam paralisados desde então.

Uma grande fonte de novas ideias é o debate. Outra é o passado. As ideias dos antigos pensadores liberais não podem ser esquecidas – elas ainda guardam as lições mais importantes.

O andar da carruagem

O que aprendemos com elas? Que o Liberalismo é pragmático. Graças a esse pragmatismo, o liberalismo abarca as mais vastas e muitas vezes divergentes ideias. John Rawls foi um acadêmico americano progressista, enquanto seu rival Robert Nozick foi um libertário. Keynes pregava a intervenção; Friedrich Hayek e seu companheiro austríaco de meados do século XX, Joseph Schumpeter, acreditavam no mais livre dos livre mercados. Todos eles entram no espectro da filosofia liberal.

Se ainda produzissem hoje, as grandes mentes do Liberalismo clássico estariam particularmente perturbadas por três coisas. A primeira seria a constante erosão da verdade pelas “fake news”, tempestades e ataques nas redes sociais e posts virais. Sim, o Liberalismo se engrandece através do conflito e do debate. Mas para que uma discussão seja frutífera, ela deve ser baseada na racionalidade e boa fé de quem participa. Hoje, os envolvidos tendem a atropelarem a fala do outro. A ideia tornou-se comum, na direita e na esquerda, de que, quando alguém apresenta um argumento, você não pode separar o que ela fala de quem ela é.

A segunda preocupação seria a erosão da liberdade individual. Mill popularizou o termo “ditadura da maioria”. Apesar de grande defensor da democracia – inclusive do voto feminino numa época que ainda era impensável a racionalidade da mulher -, Mill alertava sobre a possibilidade desse sistema tornar-se um regime das massas. Paralelamente, Isaiah Berlin, desenvolvedor dos conceitos de liberdade positiva e negativa, teria entendido como falha a ideia de que podemos sacrificar a liberdade de expressão pela proteção de grupos determinados.

A terceira e última preocupação desses grandes pensadores seria a falta de fé que os liberais atuais têm no progresso. Novas tecnologias e mercados livres foram vislumbrados no passado como caminhos para a propagação de ideias e prosperidade, mas muitos hoje desistiram da ideia de viver melhor que seus próprios pais. Enquanto as democracias vagam em direção ao nacionalismo xenófobo, valores universais dissolvem-se. Pela primeira vez desde o apogeu da União Soviética, o liberalismo enfrenta o desafio de uma alternativa poderosa e amplamente aceita, na forma do capitalismo de Estado chinês.

É comum liberais pensarem que estão lidando com questões extremamente difíceis, mas também inéditas para as ideias que professam. Essas pessoas deveriam considerar seus antecessores. Mill e Tocquevill tiveram de racionalizar revoluções e guerras. Keynes, Berlin, Karl Popper e os austríacos confrontaram os males atraentes do totalitarismo. Os desafios de hoje são igualmente reais. Mas, em vez de fugir da missão, os grandes liberais do passado teriam arregaçado as mangas e se empenhando em fazer do mundo um lugar melhor.

Texto adaptado de artigo “The ideas of liberalism’s greatest thinkers“, da revista The Economist.