Quem foi Isaiah Berlin?

Isaiah Berlin chegou à Inglaterra ainda muito novo, com a rica família de origem judaica. Nascido em Riga, na pequena Letônia, em 1909, o filósofo mudou-se anos depois com os pais para São Petersburgo, na Rússia. Foi lá que presenciou as Revoluções de 1917 e a tomada do poder pelos comunistas bolcheviques.

Foi fugindo da instabilidade, da violência e do antisemitismo que chegou ao Reino Unido em 1921. Daí em diante, continuou sua história para tornar-se um dos mais brilhantes pensadores de seu tempo.

Um dos grandes nomes da Universidade de Oxford, no entanto, odiava escrever. Como Sócrates, foi muito citado e falou muito. Custava às secretárias transcrever suas palestras, artigos e até conversas – todas, segundo a opinião geral, brilhantes. O resultado é uma obra bastante dispersa, que levou décadas para ser organizada e até hoje é reestruturada em edições diversas.

Por que Isaiah Berlin é importante?

A obra que garantiu o nome de Berlin nos anais da história e na memória liberal chamasse “Dois conceitos de liberdade” e nunca foi escrita. O artigo do 1959 é na verdade uma palestra que Isaiah deu em Oxford. Nela, o filósofo destrincha os conceitos de “liberdade positiva” e “liberdade negativa”.

“Por que um pessoa deveria obedecer a outra?” Esssa era, para Berlin, a questão filósofica fundamental da reflexão política.

Respondendo em parte a ela, os conceitos do artigo são os seguintes:

– Na liberdade negativa, é livre quem segue seus próprios desejos sem ser coagido ou frustrado por forças externas, como o governo.
– Na liberdade positiva, é livre quem prescinde do irracional, do que age contra seu autointeresse, e busca a autorealização e o aperfeiçoamento pessoal.

Vamos examinar os conceitos na prática.

Imagine que você está andando na rua e chega a uma esquina. Você então escolhe continuar em frente, sem ser pressionado por um obstáculo ou algo do tipo. Parabéns! Você acaba de exercer sua liberdade negativa.

Agora, algumas nuances. Imagine que você fuma constantemente e seus cigarros acabaram. Se virar na esquina e andar alguns minutos, vai poder comprar um maço, mas irá se atrasar para uma reunião muito importante no trabalho. Você sabe que o vício faz mal à saúde, custa caro e pode lhe render problemas profissionais. Essa possibilidade de escolher racionalmente o que é melhor para seu desenvolvimento pessoal – não se atrasar e não alimentar o vício – é a sua liberdade positiva manifestada.

Berlin é estudado com afinco e sua teoria das liberdades gerou inúmeros desdobramentos. Ele também se debruçou sobre o uso do conceito das liberdades positivas como ferramenta do autoritarismo. Afinal, ninguém gosta de dizer que é contra a liberdade, então o conceito foi deturpado ao longo da história para servir a fins questionáveis. A liberdade positiva, por exemplo, pode ser usada para defender uma liberdade ideal, oculta, superior – a que o indivíduo pode não enxergar se não tiver certo nível de esclarecimento. E aí está o perigo. É a retórica do “você só será livre se ignorar os seus próprios desejos e se aperfeiçoar para não querer mais o que você quer”.

Por onde começar a ler Berlin?

Uma ótima leitura introdutória ao pensamento de Berlin é o pequeno livro Uma Mensagem Para o Século XXI, disponível AQUI. O livro é uma transcrição de dois de seus discursos-manifesto contra as ideologias autoritárias.

A entrevista de Henry Hardy, principal editor das obras de Berlin, ao Estado da Arte, é também uma leitura imperdível para começar a compreender a gigantesca obra do filósofo. Disponível AQUI.