Entre as fotos que guarda da infância, Dionne Freitas escolheu uma para deixar no porta-retratos sobre a mesa de sua casa em Curitiba. Nela, um menino de 2 anos, cabelos lisos e loiros, aparece sem roupa e escondendo o peito com a mão direita. “Eu tinha vergonha de ficar pelada”, relembra ela.

“Meu pai dizia que homem ficava sem camisa no calor. Quando ele foi bater a foto, me cobri.” Aos 4 anos, numa ida ao shopping, ao pedir ao pai um chinelo cor-de-rosa do Pica-Pau, ele insistiu para que levasse o azul ou o preto, cores de menino. “Falei: ‘mas sou menina e quero usar o rosa’.” Diante da repreensão, chorou copiosamente. “Essa cena foi chocante para mim. Me marcou ouvi-lo dizer que eu era um menino.”

Dionne – ela manteve o nome da certidão – nasceu com uma variação da Síndrome de Klinefelter, condição genética em que a pessoa do sexo masculino carrega o cromossomo X a mais. No caso dela, apenas em algumas das células. Outra consequência é o hipogonadismo, mau funcionamento das glândulas que afeta a produção de hormônios. Mesmo com tais características, foi criada pela família para ser do gênero masculino. “Precisava ser uma pessoa que não era internamente.”

Para minimizar o sofrimento, buscava brinquedos tidos como “de menina” na época. “A criança que vive um gênero que não lhe pertence vai buscar o máximo de informação do que a representa. Como era obrigada a brincar de carrinho, escolhia o rosa”, conta. Nascida em Faxinal, no interior do Paraná, morou em Ivaiporã até os 8 anos, quando se mudou para Ribeirão Preto, em São Paulo, onde vivia a parte mais conservadora da família, ligada à Igreja Pentecostal. Aos 10, parou de cortar o cabelo, e aos 13, arriscou calças mais justas, iniciando seu processo de transição de gênero. Nessa idade, teve o primeiro namorado, um menino do bairro. Aos 14, já se vestia dos pés à cabeça como uma garota.

Nessa fase, descobriu ser intersexual, ou seja, alguém com características biológicas dos dois sexos. Em vez de barba, por exemplo, lhe cresciam os seios. “A intersexualidade facilitou a minha transição de gênero, pois eu queria ver meu corpo transformado.”

Quando procurou acompanhamento atrás de reposição hormonal, o médico sugeriu que tomasse testosterona. “Minha identidade de gênero não era masculina. Ninguém pergunta com qual gênero você se identifica.”

Por conta própria, começou a tomar estrogênio, o hormônio feminino, por meio de pílulas anticoncepcionais. “É errado, mas a maioria das transexuais faz isso por causa da burocracia do tratamento no país. Em um ano, meu corpo mudou. Ganhei curvas, meus seios aumentaram.” A aceitação da família levou dois anos. Com a irmã, Tatiane, foi ainda mais difícil. “Minha mãe sempre soube que eu era diferente; meu pai só aceitou quando teve outro filho do segundo casamento.”

A discriminação crescia à medida que assumia sua identidade. “Fui muito perseguida no meu bairro, levava pedradas no meio da rua. As pessoas associavam a questão da intersexualidade à promiscuidade. No Brasil, 90% das transexuais acabam na prostituição. Diziam que esse seria meu fim”, conta ela, que buscava refúgio nos estudos e no esporte – é faixa roxa no karatê.

Aos 18, foi a primeira da família a ingressar em uma universidade pública, no curso de terapia ocupacional, na USP de Ribeirão. “Achavam que eu ia para a faculdade me prostituir.” O primeiro ano foi um dos mais difíceis, sofreu três tentativas de violência sexual perto da faculdade – em uma delas, quase morreu de tanto apanhar. “Cheguei a ouvir de um policial que não podia denunciar o crime como tentativa de estupro porque ‘homem não é estuprado’. Ele disse: são menores de idade, não vai dar em nada. Você pediu para ser assim, tem coisas que vai ter de relevar”, conta. “Quando estavam em grupo, me xingavam de traveco, bichinha, viadão. Mas, sozinhos, me faziam propostas para sair.”

Pós-graduada em saúde do adulto e do idoso, ela trabalha no Centro de Atenção Psiquiátrica (Caps) da prefeitura de Curitiba e é mestranda pela UFPR na área de políticas públicas para pessoas transgêneras – uma de suas brigas é por conseguir que o Brasil tenha leis específicas para a população trans e trans-intersexo.

Em setembro, lança a Associação Brasileira de Intersexos (Abrai) em busca de direitos dos intersexuais no Conselho Federal de Medicina. Uma das pautas é o reconhecimento da existência do gênero neutro. “Ninguém fala sobre nós. Quero conscientizar que existem pessoas fora do padrão, a natureza não é binária. Se não mostrarmos a pluralidade, inclusive biológica, em vez de entendimento teremos discriminação, levando as pessoas ao autoextermínio. Passei por isso. Desenvolvi uma fobia social e transtorno de ansiedade no momento da minha transição. Pensei em me matar, mas só estou aqui hoje porque, apesar de tudo, tive o amor da minha família.”

Texto original publicado na Revista Marie Claire.