A importação de leite vai continuar cara. Derrota do livre-mercado, vitória do lobby dos produtores subsidiados. Quem continua pagando a conta? Você. Todos nós.

Ontem, Bolsonaro chamou de canalhice uma nota da Veja que adiantava o recuo do presidente em relação à decisão da equipe econômica de cortar a taxa de importação que encarece em 42% o preço do leite comprado do exterior. Muitos seguidores do presidente seguiram a onda e, no lugar de questionarem a decisão lamentável do governo, atacaram a imprensa. Hoje, o governo confirmou o conteúdo exato da nota.

É preciso aprender com o episódio. A sociedade perdeu oportunidade de pressionar na direção correta. E essa estratégia está na moda. Se a imprensa ameaça os planos do poder constituído, nada mais previsível que os poderosos ataquem a imprensa. Justamente por isso a tradição liberal é tão incisiva em defender a liberdade de imprensa: ela limita o governo e cultiva a democracia. Precisamos nos manter atentos.

O comunicado oficial lançado hoje pela presidência foi revelador. Não a toa, a mensagem se dirigiu “aos produtores de leite” e não à sociedade brasileira. Limitar a importação de leite só beneficia aos produtores, em prejuízo do conjunto da sociedade. O resultado econômico é o encarecimento do produto, o que significa que menos gente vai poder beber leite. Especialmente entre as pessoas mais pobres, que mais sentem a diferença no preço. A situação é especialmente trágica para as famílias pobres cujas crianças, por motivos de saúde, precisam consumir leites especiais, como os do tipo Nan – que são bem caros e assim continuarão.

Trata-se de um caso clássico descrito pela teoria da escolha pública. Nesse tipo de situação, alguns poucos tem grandes benefícios e, por isso mesmo, muitos incentivos para pressionar o governo. Enquanto isso, os custos da medida são divididos por toda a sociedade, que acaba não tendo os mesmos incentivos para se engajar na questão. Nessa queda de braço política entre a voz alta da minoria beneficiada e o silêncio da maioria prejudicada, o privilégio barulhento acaba vencendo.

No âmbito da política interna do governo, a decisão de manter o leite mais caro prestigia o corporativismo da ministra da Agricultura em detrimento da agenda liberal da equipe econômica. Perdemos todos nós.