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Jornalista, especialista em comunicação política, cofundador e diretor de comunicação do Livres. É colunista do Estado da Arte/Estadão, foi sócio do Café Colombo e cofundador do Students For Liberty no Brasil.

Esta semana, na esteira da participação de Mayra Pinheiro na CPI da Covid, surgiu uma narrativa nas redes sociais para tentar vincular o Livres ao péssimo trabalho da secretária do Ministério da Saúde e, por extensão, ao bolsonarismo. Não faz nenhum sentido. Enquanto o governo Bolsonaro protagonizou a gestão desastrosa da pandemia, o Livres atuou ativamente pela instalação da CPI da Covid, que busca justamente responsabilizar os envolvidos nesse desastre humanitário. Estes são os fatos relevantes em maio de 2021.

Com ares de denúncia, a narrativa pinça peças antigas da nossa comunicação para tentar vincular a imagem da secretária ao Livres. Também não faz sentido. É verdade, sim, que ela participou do núcleo do Livres no Ceará, ainda durante o nosso período incubado no PSL. Desde o final de 2018, no entanto, ela não possui qualquer relação ou vínculo com o Livres. Os rumos diferentes vieram muito antes da pandemia e, portanto, também muito antes de qualquer polêmica em torno da cloroquina.

De 2018 pra cá, bastante coisa aconteceu no Livres, inclusive a adoção de um processo de certificação de lideranças associadas. A bem da verdade, o Livres renasceu inteiramente em 2018, a partir da ruptura indignada com o PSL. Sem alterar nossos valores, mudamos o que nós somos: éramos um projeto de renovação partidária. Desde então viramos um movimento cívico, institucionalizado como associação civil sem fins lucrativos e com estrutura de governança amadurecida.

De lá pra cá, constituímos um Conselho Acadêmico com alguns dos melhores e mais produtivos quadros do liberalismo brasileiro e desenvolvemos cinco dezenas de núcleos de participação, entre pólos estaduais e setoriais, onde os associados contribuem diretamente na construção de uma atuação que ajuda a oxigenar a política brasileira com propostas realistas, formação de lideranças e articulação em torno de uma agenda de reformas. É dessa maneira que temos contribuído concretamente com avanços para a liberdade individual no Brasil. Fomos e somos vozes importantes em pautas como o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, a Lei de Liberdade Econômica, o fim da obrigatoriedade do alistamento militar e a instalação da CPI da Pandemia, além dos debates em torno da Lei de Responsabilidade Social e da regulação do uso medicinal da cannabis.

De 2018 pra cá, bastante coisa também aconteceu no Brasil. Muita gente reviu suas posições. Tentar cristalizar imagens e forçar associações inexistentes não é apenas um erro de leitura da realidade, mas também um desserviço à construção democrática. O futuro simplesmente não virá se a mudança for aprisionada ao passado. E construir alternativas democráticas é cada vez mais urgente no Brasil, especialmente em função da tragédia social que abate milhares de famílias que perderam parentes para a Covid e outras milhões que perderam seus empregos. Na contramão da necessidade, contudo, muita gente se radicalizou e se fechou em guetos, perdendo capacidade de dialogar com quem pensa diferente. E sem diálogo entre quem discorda simplesmente não existe democracia.

O debate compromissado com o avanço democrático não pode abrir mão da razão. Nesse sentido, é preciso avaliar a posição dos agentes políticos a partir de suas ações reais e dos seus argumentos, não de ilações fantasiosas. Infelizmente, no entanto, teorias conspiratórias não são novidade no debate público. A democracia liberal é uma aposta em favor da razão contra uma persistente pulsão irracionalista que invade a esfera política. É assim desde o seu surgimento, sob inspiração do iluminismo, contra a teoria do poder divino dos reis. A rigor, a própria noção de esfera pública sujeita à deliberação coletiva, em oposição à esfera privada de autonomia pluralista, é justamente um produto social dessa preocupação intelectual refletida em construção política. Com a consolidação da sociedade de massas e a disrupção tecnológica das redes sociais, os desafios de contenção do irracionalismo mudaram de contorno, mas não deixaram de existir. Da mamadeira de piroca ao fantasma da elite neoliberal globalista, as tonalidades de conspiracionismo se multiplicam.

Para enfrentar esse fenômeno, além de entender seu funcionamento, é importante voltarmos às bases fundamentais que sustentam a democracia. Para se consolidar, teorias conspiratórias são alimentadas profissionalmente em prol de uma narrativa, geralmente com fins políticos partidários e interesses eleitorais. Nesse processo, elas se utilizam de pulsões irracionalistas para multiplicarem o seu alcance. Os usuários compartilham narrativas falsas sem verificação crítica quanto a validade do conteúdo, basicamente para reafirmarem o seu pertencimento a uma tribo. A lógica da tribalização é impulsionada com a criação de um inimigo comum, depositário do ódio, que aumenta o engajamento. Formadas as tribos, a divergência política deixa de ser baseada em argumentos e passa a apelar puramente à lógica binária do pertencimento: ou você pertence a minha tribo ou é meu inimigo e deve ser exterminado. O sistema é mal, mas minha turma é legal, como diz a música.

O embate entre tribos é próprio de um sistema de sociedade fechada, inconciliável com a lógica do diálogo democrático de sociedades abertas. Como decorrência dessa dinâmica, as tribos são hierarquizadas em castas da virtude. Minha tribo é pura, intocável e perfeita. O inferno são os outros. Não importa o mérito do argumento, mas a que tribo você pertence. Articula-se, então, uma estratégia de contaminação pela proximidade. Se sua tribo apresenta algum mínimo sinal de proximidade a uma outra, segundo os meus próprios olhos, você se torna automaticamente contaminado pelos pecados alheios.

Neste caso, a tentativa de vinculação da imagem do Livres é um exemplo desse fenômeno. Trata-se de uma busca por desqualificar a nossa presença no debate público, substituindo a análise dos nossos argumentos e ações por uma suposta associação ao bolsonarismo, tratado como a incarnação do mal maior. Aqui vale dizer: a demonização do adversário apela ao tribalismo divino, essencialmente antidemocrático. O alerta vale tanto para o antipetismo como para o antibolsonarismo. Quando a crítica a projetos antidemocráticos incorpora práticas antidemocráticas, o produto é uma contradição performativa que alimenta o adversário que desejava combater. Não é isso o que precisamos.

Esse enquadramento coletivista sabota o conceito de indivíduo, sem o qual simplesmente não há democracia liberal. Afinal, se você acha que um mínimo contato distante com algum personagem que você não gosta deve invalidar a presença de alguém no debate público, no fundo, o que você está defendendo é que nem todos podem ter voz, porque alguns tipos de pessoas são a encarnação do mal e não devem ter o direito de participar da esfera pública. Nesse caso, você não defende a igualdade radical de condição humana trazida à modernidade através do conceito liberal de indivíduo. Você acha que alguns são mais humanos que outros – e direitos humanos, sabe como é, “só valem para humanos direitos”. Quando você deixa de contrapor argumentos para reproduzir a lógica de ataques tribais contra grupos, você não apenas não defende a democracia, como está atacando os seus fundamentos básicos.

O Livres não reproduzirá esse erro alimentando tretas infrutíferas de rede social. Nós acreditamos na democracia liberal, na radical igualdade de dignidade humana do indivíduo, na convivência entre os diferentes e no debate baseado em argumentos.

Como é fato notório e de conhecimento amplo, discordamos profundamente da atuação do ministério da saúde na condução da pandemia. Não à toa, participamos ativamente das articulações pela instalação da CPI. Queremos que todos os envolvidos sejam devidamente responsabilizados, mas não nos uniremos ao coro de demonização de personagens. Também queremos um debate público sério e baseado em argumentos. Não vamos ceder à guerra de torcidas, estimulando bate-bocas com quem só quer rotular o interlocutor e avacalhar o debate. Seguiremos nosso trabalho, com seriedade, pelo avanço da liberdade individual, por inteiro e para todos.