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Traduzido do The New York Times, você pode ler a matéria na íntegra clicando aqui.

*Importante ressaltar que esse artigo foi escrito antes das eleições parlamentares no Reino Unido.

Existem dois blocos de poder liderando a política hoje. Primeiro, há o proletariado. São os eleitores da classe trabalhadora que vão aos comícios de Trump nos EUA, e empoderaram o Brexit e a campanha de Boris Johnson no Reino Unido. Eles estão se deparando com seu melhor mundo se desfazendo, e querem um cara durão para trazê-lo de volta.

Segundo, há o precariado. São eleitores jovens e com formação, lançados em uma economia gigantesca, e que não possuem quaisquer perspectivas de carreira à frente. Eles querem líderes como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn, que prometem políticas de envolvimento – universidades de graça, internet de graça, creches de graça – para lhes dar um sentimento de segurança.

Esses dois grupos são diferentes em alguns aspectos. Quando os proletários atacam seus inimigos, eles o fazem de uma posição de inferioridade social, portanto, seus ataques são brutais e repletos de ressentimentos. Quando o precariado ataca, o faz de uma posição de superioridade moral, então seus ataques são lastreados na ridicularização, na humilhação e no escárnio.

Mas os movimentos possuem, sim, paralelos. Ambos são movidos por um medo do futuro, e de si próprios. Ambos têm a tendência de abraçar visões catastróficas e apocalípticas das ruínas ao nosso redor. A distopia se tornou o ópio da classe ativista.

Assombrados pela insegurança econômica, eles irão tolerar quaisquer pecados de seus líderes – racismo, antissemitismo, desonestidade -, desde que eles estejam lutando dos seus lados. Ambos apoiam propostas massivas e surreais, porque eles rejeitaram a ideia de que a política é tão simplesmente uma maneira confusa de nós resolvermos as diferenças com aqueles que discordamos.

Esses dois blocos estão direcionando o debate. Mas há um outro grupo de pessoas, que se tornou a parte mais interessante do eleitorado. São os exaustos 75%, pessoas que não são definidas por uma ideologia comum, mas sim, por um estado de afetividade – eles estão apenas cansados dessa guerra interminável entre dois exércitos. A exaustão se tornou uma força independente na política moderna. Muitas pessoas estão votando no candidato que os cansar menos.

A eleição britânica foi definida pelo fato de que a maioria dos eleitores simplesmente não aguenta mais – nem Corbyn, nem Johnson. A The Economist disse que essa eleição será o “pesadelo britânico antes do Natal” (trocadilho com o nome do filme The Nightmare Before Christmas, traduzido para o português como O Estranho Mundo de Jack).

Para o The Guardian, Rafael Behr fez a seguinte observação: “Vivemos na ressaca entre tristeza e pavor. Estamos preparados para esse sentimento, como ver uma mão invisível mexendo em uma gaveta particular, onde dentro dela está uma delicada e emaranhada identidade, e ir puxando-a fio a fio. É como um exílio.”

As pessoas no campo dos exaustos estão cansadas de ter a política sendo arremessada em suas caras a todo momento. Como Ryan Streeter, do American Enterprise Institute, descobriu, jovens que ficam “sozinhos pelo menos uma vez a cada curto período de tempo” são sete vezes mais suscetíveis a participar da política do que aqueles que são mais socialmente ativos. Os que estão exaustos têm coisa melhor pra fazer. Eles querem restaurar a política ao seu lugar de direito, e encontrar significado, apego, entretenimento e moral em lugares diferentes das guerras do Twitter e campanhas eleitorais.

Anos e anos de exaustão também fez as pessoas mais cansadas, cínicas e enojadas. Exaustão, como é de costume, induz uma espécie de pessimismo, um sentimento de que estamos vivendo tempos terríveis, um tipo de cansaço da alma. Como Peter Stockland, do think-tank Cardus, diz: “O efeito combinado de medo e exaustão” está “produzindo um cinismo tão profundo, obscuro e tóxico que beira o pecado de dar falso testemunho diante da realidade”.

Porém, o elemento chave do campo dos exaustos é timidez. Eles não se energizam com o conflito da mesma maneira que, digamos, o Trump. Seu instinto primeiro é de abaixar a cabeça e só atravessar a maluquice.

Em campi universitários, 10% dos alunos são capazes de desbancar 90%, que temem dizer a “coisa errada” e serem cancelados. No Congresso, os governistas são capazes de intimidar membros que entendem o tamanho do problema que Trump é. As pessoas nos dois blocos não são nada bons em vencer a guerra entre si, mas são excelentes em intimidar os moderados de seus próprios lados, às suas próprias maneiras.

Na Inglaterra, em sua maioria, os moderados não colocaram dinheiro em política, mas mesmo assim, tiveram uma eleição ainda pior e mais polarizada que a nossa. Se no fim, Johnson, como é esperado, vencer com facilidade, será em parte porque eleitores exaustos irão pender à demagogia nacionalista de Trump/Johnson, considerando que a outra alternativa é o conflito de classes de Corbyn/Sanders.

Nos Estados Unidos, os eleitores terão a oportunidade de virar a página emocional, a fim de eleger uma pessoa que mostre que você pode ser progressista, e pode ser conservador, sem transformar política em uma guerra interminável. As intenções de voto a Pete Buttgieg estão aumentando e o apoio a Joe Biden é resiliente, justamente porque eles não são exaustivos.

A pergunta que fica é se, no ápice da batalha, o eleitorado exausto poderá superar sua fadiga, cinismo e timidez e fincar sua bandeira nessa luta.