Administrador de empresas, foi diretor da Icatu Holding e sócio-diretor da Conspiração Filmes. É colaborador do Jornal O Globo e autor dos livros “Passado e Futuro da Era da Informação” e “Uma Nação sem Noção”, Foi candidato a deputado federal pelo Partido Novo/RJ em 2018.

É preciso crescer, senão não vamos para frente. E é preciso preservar o meio ambiente, senão o crescimento não se sustenta — e morremos. É necessário, portanto, encontrar um meio termo, uma solução de compromisso, em que se possa produzir na Amazônia sem desmatar. É um desafio, mas, com boa vontade, bom senso e uso intensivo da ciência, é possível.

A polarização ideológica detesta meio termo, solução de compromisso, boa vontade e bom senso. Extremistas acham que existem soluções simples (e radicais) para problemas complexos.

O fundamentalismo ambiental acredita que é possível e desejável manter a floresta absolutamente intocada, longe da ganância humana, como uma espécie de paraíso rousseauniano. E o extrativismo radical — que está no poder — acredita que o meio ambiente é plenamente sacrificável em nome do crescimento econômico. O extrativismo direitista acredita que preocupação com meio ambiente é coisa da esquerda: em sua ignorância, esquece que os países socialistas realizaram uma exploração mais predatória do que a do Ocidente, que Lula degolou Marina, que Dilma atropelou as entidades ambientais para construir Belo Monte.

Bolsonaro demonstra o que pensa do meio ambiente afirmando que quem se interessa pelo assunto são os “veganos, que comem vegetais” e que quem quiser combater a poluição ambiental deve “fazer cocô dia sim, dia não”.

Bolsonaro tentou extinguir o ministério do Meio Ambiente, mas, como até o agronegócio foi contra, recuou, e nomeou para a pasta Ricardo Salles, que procedeu ao desmonte das estruturas de fiscalização, impediu punições, confraternizou com infratores. Já Flávio, o primeiro filho, apresentou projeto para extinguir o Código Florestal.

Quando as más notícias chegaram, o governo negou o problema. “O Brasil tem a maior área preservada do mundo” (ok, mas a área desmatada cresceu 20 vezes desde 1970, e continua crescendo). “O maior problema é a falta de esgoto nas cidades” (uma coisa é uma coisa, e a outra é outra, mas, por falar nisso, o governo realmente fez alguma coisa pelo saneamento?). Bolsonaro acusou os cientistas do Inpe de falsificar dados e de estar a serviço de alguma ONG, e demitiu seu presidente.

Depois, minimizou o problema. “O desmatamento ocorre desde 2012” (e aí, quer dizer que tudo bem desmatar?) e “os governos anteriores não fizeram nada” (ah, quer dizer que se Dilma não combateu o desmatamento, Bolsonaro não precisa combater?). “Ah, mas nesta época do ano sempre tem queimadas” (e aí, quer dizer que não precisa combater?).

O governo faz de conta de que não vê que o setor supostamente beneficiado, o agronegócio, não aprova sua (inexistente) política ambiental: contra ela estão a ministra da agricultura Tereza Cristina, os ex-ministros da agricultura Blairo Maggi e Kátia Abreu, o presidente da Associação do Agronegócio Marcelo Britto. E Bolsonaro mente ao dizer que quem faz queimadas são ONGs.

O governo desqualifica quem o critica. “A Noruega caça baleias e explora petróleo no Oceano Ártico; a Alemanha destruiu suas florestas; a França fez testes nucleares na Polinésia”. (Como eles destruíram lá, nós também podemos destruir aqui, e quando todos morrermos, tudo bem, porque a culpa é deles, que começaram. E se eles cancelarem o acordo comercial com a União Europeia, e criarem sanções econômicas, e perdermos dezenas de bilhões de dólares em exportações, tudo bem, porque nós estamos certos e eles estão errados).

E afirma que a preocupação do resto do mundo com a sobrevivência de uma floresta que é vital para o equilíbrio climático do planeta é um absurdo ataque à nossa soberania. Como se soberania fosse o direito de desmatar.

Quando se esgotam os falsos argumentos, diz que não combate o desmatamento por falta de dinheiro, isso depois de reduzir 40% das multas por infrações e esnobar R$ 130 milhões do Fundo Amazônia e imediatamente antes de rejeitar R$ 80 milhões de ajuda internacional.

Em vez de fazer o óbvio — parar de insultar seus rivais (a começar pelos líderes estrangeiros), firmar o compromisso de combater o desmatamento, buscar soluções sustentáveis e substituir Ricardo Salles por alguém respeitado —, Bolsonaro insiste no negacionismo e nas piadas idiotas, insultos, zombarias e mentiras. E segue alimentando a crise. Crise que tem potencial para derrubá-lo.