Doutorando em Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade de Sorbonne e mestre em Letras pela UFPE, é crítico literário e professor do Colégio de Aplicação/UFPE.

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O pensador Roland Barthes já exigia, num de seus livros mais consagrados: “O texto que você escreve deve me dar a prova de que me deseja”. Em outros termos, um texto que não prova desejar a sua recepção pode ser por ela abandonado. Deixar de lado um livro faz parte dos direitos do leitor, já nos observava Italo Calvino. Um professor pode ter inúmeros defeitos, mas um dos que ele precisa abominar veementemente – como ocorre aos amantes delicados – é o defeito de produzir o tédio.

Abandonar livros pode ser legítimo, mas há uma diferença trágica entre o leitor de livros e o receptor de textos orais numa sala de aula: neste último caso, o leitor não poderá abandonar o texto, quando elaborado sem tempero: ele, estudante, sofre a coação de escutar até o final; precisa deglutir o que seu paladar rejeita. Nem desconfiam docentes argutos que boa parte dos problemas que o ambiente escolar fabrica decorre do seu perfil autoritário, na concepção e, pior, na legislação.

Além disso, a escola, como sabemos, tem especial talento para aparar as arestas da individualidade (inclusive da luz singular que dela emana), em nome de uma ordem coletiva que, levada às últimas consequências, subtrai a voz dissonante para acomodá-la no coro social. Para abafar a força das individualidades, mecanismos coercitivos se fazem permanentes – e outrora mostraram-se com a máxima clareza, pelo milho e a palmatória. Hoje, as formas de tortura são mais sutis e muitas vezes involuntárias, porém nem por isso deixam de traumatizar a inteligência. Uma das maneiras de violentar o intelecto é justamente forçá-lo a conviver com os saberes insossos.

Todo conhecimento pode ser oferecido bem temperado ou sem gosto algum. Mas o saber insípido constitui uma contradição na alma da própria expressão, uma vez que “saber” e “sabor” significam, na raiz, exatamente o mesmo – e os lusitanos põem tal parentesco em prática no momento em que dizem, no seu cotidiano, coisas como “Isto sabe a framboesa” (tem gosto dessa fruta).

O professor deveria ser um cozinheiro que se mantém atento ao que suas iguarias provocarão no paladar dos indivíduos. E no entanto o que mais observamos é, após uma aula que não caminhou tão bem, o docente acusar seus alunos de desinteressados, preguiçosos e pouco afeitos ao conhecimento. É o cozinheiro a dizer, ininterruptamente, que as pessoas não sabem mais se alimentar. Claro que os indivíduos podem efetivamente ter um mau hábito de nutrição, assim como estudantes podem não apresentar disposição alguma para os estudos. Aliás, ambas as coisas frequentemente acontecem. De todo modo, é bem mais provável que alimentos nutritivos sejam escolhidos se trouxerem no cheiro e nos condimentos o núcleo da sedução.

O que vale para a culinária se aplica – e o leitor já compreendeu a aproximação – à prática docente. Alunos pouco afeitos ao estudo das disciplinas específicas apenas poderão se interessar verdadeiramente por elas se algum sal for posto no discurso daqueles que as professam. Mas eis que surge a desmedida que, entretanto, entra na moldura do cotidiano escolar: quando nem o cozinheiro crê no sabor de seu preparo ou na importância de seu cardápio, como poderá convencer quem o irá experimentar a ficar sentado e desfrutar da fatura final? O escritor francês André Malraux dizia que certo ramo da crítica literária, mais do que pelo poder lógico, procurava arrebatar pela contaminação, tornando presentes e vivazes os escritores sobre os quais se discorria .

O que se adequa à experiência literária parece condizer, de modo similar, com a prática de sala de aula. E então fica a indagação angustiante e que desnorteia: se é verdade que o saber convence pelo contágio, como se pode contaminar alguém com uma febre que não se possui? O primeiro compromisso amoroso de um professor, portanto, é com a fidelidade à sua própria paixão intelectual. Eis, enfim, o aparente paradoxo do apaixonado pelo conhecimento: o ciúme que ele nutre pela inteligência o leva a querer dividi-la com todos os que circunstancialmente o rodeiam.

Unindo machadianamente as duas pontas do texto, finalizo com o introito: que o meu desejo contamine o outro com textos de prazer; mas não entenda rápido demais o leitor sequioso em ter razão: prazer nada tem com a facilidade ou a indolência, porque, não raro, um jogo amoroso promete tanto mais fruição quanto maiores sejam os seus empecilhos. Os prazeres difíceis costumam ser os mais sublimes, e a inteligência se compraz naquilo que a desafia. Mas o aluno precisa se sentir despertado para os desafios propostos por aqueles que, trazendo brilho em seus olhos, iluminam com vigor o sentido dos enigmas.