Dias após vencer as eleições de 2018, Jair Bolsonaro começou a alegar que havia fraude nas urnas eletrônicas. Não era um episódio isolado. Segundo levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP, Bolsonaro insinuou ou afirmou fraude nas urnas ao menos 183 vezes ao longo do seu mandato, criando um clima de desconfiança sistemática no sistema eleitoral brasileiro, sem nunca apresentar evidências.
O Livres decidiu não deixar passar. Em janeiro de 2021, ingressou com ação civil pública exigindo que o então presidente apresentasse em juízo as provas que alegava ter.
A batalha judicial
O processo não foi simples. A Advocacia-Geral da União entrou no caso pedindo o arquivamento, com o argumento de que as declarações de Bolsonaro eram "informais" e não deveriam ser tratadas como manifestações oficiais. A tese era desconcertante: o presidente da República poderia atacar repetidamente a credibilidade das eleições e isso não teria consequências porque seria apenas conversa.
O Livres recorreu. O Ministério Público analisou o caso e se posicionou a favor da ação, reconhecendo que as alegações reiteradas de fraude, feitas por quem detinha o cargo mais alto do Executivo, tinham peso e consequências que exigiam resposta judicial.
Jair Bolsonaro seguiu se esquivando de apresentar evidências de suas alegações que desacreditavam o sistema eleitoral brasileiro. Mas precisou enfrentar o banco dos réus.
A condenação inédita
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado por participação em tentativa de golpe de Estado. A primeira vez na história do Brasil que um ex-presidente eleito foi punido por crimes contra o Estado Democrático de Direito.
A condenação se apoiou na Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito, a mesma lei que o Livres ajudou a construir, com a participação de líderes Livres como Daniel Coelho e Alex Manente. O círculo se fechou de forma que poucos poderiam antecipar: a lei criada para substituir a Lei de Segurança Nacional da ditadura, que o governo Bolsonaro havia usado para perseguir críticos, tornou-se o instrumento legal para punir a tentativa de ruptura democrática encabeçada por ele próprio.
Posição histórica do Livres
O Livres não esperou 2021 para se posicionar. Em setembro de 2016, já havia publicado o quadrinho Desconstruindo o Bolsomito, afirmando explicitamente as diferenças entre o liberalismo e o projeto político de Bolsonaro. Em janeiro de 2018, quando o PSL abriu mão do acordo de refundação programática para abrigar a candidatura de Bolsonaro à presidência, o Livres saiu do partido no mesmo dia para se tornar uma associação civil independente. Decisão que ganhou a capa do Estadão.
Em junho de 2021, o Livres publicou parecer técnico pelo impeachment de Bolsonaro, apontando oito crimes de responsabilidade cometidos durante sua gestão. Integrou coalizões da sociedade civil pelo impeachment e pela instalação da CPI da Pandemia.
A defesa da democracia nunca foi, para o Livres, uma posição de ocasião. É uma consequência direta dos valores de liberdade que defendemos desde a nossa fundação. Valores que só se sustentam sob o Estado Democrático de Direito, com instituições que mereçam confiança e processos eleitorais que reflitam livremente a vontade dos cidadãos.