Figura controversa e, ao mesmo tempo, central da política francesa do pós-guerra, Valéry Giscard d’Estaing ocupa um lugar singular na história da Quinta República. Admirado por sua visão modernizadora e criticado por seu elitismo tecnocrático, Giscard representou uma tentativa ambiciosa de conciliar estabilidade institucional, liberalismo econômico e ampliação das liberdades individuais em um contexto de profundas transformações sociais e econômicas. Seu percurso político ajuda a compreender os limites e as possibilidades do liberalismo reformista em democracias consolidadas.
Na juventude, participou da resistência armada francesa à ocupação nazista. Formado pela École Polytechnique e pela École Nationale d’Administration (ENA), instituições de excelência da burocracia estatal francesa, ingressou ainda jovem no alto escalão do Estado como inspetor de Finanças. Essa formação tecnocrática o inseriu precocemente nas redes de poder da elite administrativa e econômica do país, moldando sua visão de governo baseada em racionalidade, eficiência e planejamento.
Giscard iniciou sua carreira política ao ser eleito deputado em 1956 pelo departamento de Puy-de-Dôme, alinhado à centro-direita liberal, então representada pelo Centre National des Indépendants et Paysans (CNIC). Nos primeiros anos da Quinta República, colaborou com o governo do general Charles de Gaulle, atuando como secretário de Estado das Finanças (1959–1962) e, posteriormente, como ministro das Finanças e Assuntos Econômicos (1962–1966). Em 1966, contudo, afastou-se do gaullismo, divergência que contribuiu para o enfraquecimento político do general. Nesse mesmo ano, fundou a Federação Nacional dos Republicanos Independentes (FNRI), buscando afirmar uma identidade liberal e reformista distinta do nacionalismo gaullista.
Após a morte de De Gaulle, o presidente Georges Pompidou reconduziu Giscard ao Ministério da Economia e Finanças (1969–1974). Nesse período, consolidou-se como figura-chave da coalizão governista. Com o falecimento de Pompidou, em 1974, lançou-se candidato à presidência da República à frente de um bloco reformista e centrista. No primeiro turno, obteve 32,6% dos votos, ficando atrás do socialista François Mitterrand e à frente do gaullista Jacques Chaban-Delmas. No segundo turno, contou com o apoio tácito de setores gaullistas e venceu Mitterrand por estreita margem. Aos 48 anos, tornou-se o mais jovem presidente francês desde o século XIX, simbolizando uma mudança geracional e prometendo conduzir o país rumo a uma “sociedade liberal avançada” após 16 anos de hegemonia gaullista.
Sua eleição ocorreu em um contexto de transição histórica. A França deixava para trás os “Trinta Gloriosos” anos de crescimento acelerado do pós-guerra e passava a enfrentar os efeitos da crise do petróleo de 1973, com inflação elevada e pressão por reformas estruturais. Giscard apresentou-se como um centrista reformador: defendia a preservação das instituições herdadas de De Gaulle, mas combinadas com modernização administrativa, abertura econômica e adaptação aos novos costumes sociais. Seu lema, “mudança na continuidade”, buscava atrair eleitores moderados interessados em mais liberdades e eficiência estatal, sem rupturas institucionais. Para governar, contou com maioria parlamentar de direita e precisou negociar constantemente com os gaullistas.
No início de seu mandato, nomeou Jacques Chirac como primeiro-ministro (1974–1976). As tensões pessoais e as divergências sobre o ritmo e a profundidade das reformas levaram à renúncia de Chirac em 1976. Em seu lugar, Giscard indicou o economista Raymond Barre (1976–1981), símbolo de uma orientação mais tecnocrática e rigorosa na condução da política econômica.
Em 1981, Giscard concorreu à reeleição enfrentando novamente François Mitterrand. Apesar de alcançar o segundo turno, foi derrotado, obtendo 48,2% dos votos. A derrota é geralmente atribuída à conjuntura econômica adversa — marcada por desemprego elevado e desgaste após sete anos de governo — e às divisões internas da direita, uma vez que parte do eleitorado gaullista se absteve. Com isso, deixou o Palácio do Eliseu após um único mandato.
Mesmo fora da presidência, permaneceu ativo na vida pública. Reelegeu-se deputado, presidiu o Conselho Regional de Auvergne (1986–2004) e liderou a União para a Democracia Francesa (UDF) entre 1988 e 1996. Europeísta convicto, presidiu a Convenção responsável pela redação do projeto de tratado constitucional da União Europeia (2002–2003). Em 2003, ingressou na Académie Française, consolidando sua imagem de estadista-intelectual. Faleceu em 2020, aos 94 anos, sendo o ex-presidente francês mais longevo.
Do ponto de vista ideológico, Giscard definia-se como um liberal reformista e modernizador, distinguindo-se tanto do conservadorismo nacionalista gaullista quanto do socialismo estatizante. Sua visão pode ser compreendida a partir de alguns eixos centrais.
Na economia, defendia o livre mercado com pragmatismo. Apostava na liberalização do comércio, na iniciativa privada e na disciplina fiscal como instrumentos para garantir eficiência econômica e controle da inflação, sem abdicar de um papel regulador do Estado. Em Démocratie Française (1976), propôs uma sociedade democrática moderna, liberal em sua estrutura pluralista, orientada para alto desempenho econômico, coesão social e desenvolvimento cultural.
No plano institucional, valorizava a democracia representativa e o pluralismo político. Durante seu governo, ampliou os mecanismos de freios e contrapesos, permitindo que minorias parlamentares submetessem leis ao Conselho Constitucional e reforçando a prestação de contas do Executivo ao Legislativo, com a presença regular de ministros no Parlamento e a transmissão pública dos debates.
Na política externa, destacou-se por seu europeísmo e internacionalismo. Via a integração europeia como um prolongamento natural dos valores liberais e democráticos da França e trabalhou intensamente para aprofundar a cooperação com a Alemanha Ocidental, lançando bases para a futura união econômica europeia.
Em síntese, Giscard d’Estaing encarnou uma forma de liberalismo centrista: favorável à economia de mercado, comprometida com a democracia pluralista e aberta a reformas graduais nos valores sociais. Sua trajetória evidencia tanto as ambições quanto as tensões inerentes ao liberalismo reformista quando confrontado com crises econômicas, disputas internas e expectativas sociais crescentes.
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Sobre o autor
Felipe Klen
felipe.klen@eusoulivres.org
Coordenador de Relações Institucionais do Livres, é bacharel e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP).