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Graduando em Políticas Públicas, assessor parlamentar, membro do Students For Liberty Brasil e Coordenador Estadual do Livres no Rio Grande do Sul.

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Chegou a hora de conversarmos sobre o nome mais conhecido da luta racial do país: Zumbi dos Palmares. O mais conhecido e, possivelmente, desconhecido ao mesmo tempo. Nada mais brasileiro do que nomear uma figura folclórica como o símbolo de uma pauta tão
importante quanto à história da consciência negra brasileira. O herói inominável, cujas atitudes, condutas, valores são extremamente desconhecidas. Não se sabe sequer o nome: Zumbi ou Zambi? Nem o mais corajoso historiador brasileiro seria capaz de responder. Elegemos como representante da nossa árdua e destemida um mito do século XVII.

Recusarei-me a entrar no mérito indevido sobre o mito ter ou não ter escravos. Essa discursiva anacrônica que busca o cancelamento de figuras negras por suas possíveis (e prováveis) ações repugnantes, como o ato de sequestrar a liberdade de outro ser humano, coloca sobre os negros uma patrulha vigilante, muito mais punitiva sobre o julgamento ético e moral dos princípios que temos hoje. Como diria MV BILL: o martelo tem mais peso para nós. Você sabe disso. Decotelli também. Contudo, isso não inviabilizaria uma grande contradição. Zumbi um ícone nacional na luta contra um sistema que ele mesmo pode ter retroalimentado? Trágico. Escolhê-lo como herói é o mesmo que defender um herói cujo superpoder é usado para ajudar as atitudes do vilão. Após citar os motivos pelos quais acredito que Zumbi dos Palmares não deveria ser considerado um herói nacional, vamos aos motivos que levam o mesmo a ser considerado.

A influência do movimento negro nas condutas de políticas públicas de enfrentamento ao preconceito racial é inegável. Delegar ao Estado ou Governo qualquer política que você considere positiva, é o mesmo que atribuir o seu presente de natal ao bom velhinho da Lapônia. Porém, a narrativa majoritária existentes dos movimentos raciais coletivistas foram e tornam-se cada vez mais baseados em duas palavras: solidão e vingança.

A solidão oriundo de um abandono social, econômico e, principalmente, humanitário. As revoluções liberais que materializaram as ideias de inviolabilidade dos direitos fundamentais como vida, liberdade e propriedade demoraram para serem oferecidas à população negra. Ficamos à margem de políticas que realmente fossem efetivas e que permitissem uma construção digna a todo um sistema que já estava posto, no qual fomos integrados, mas nunca incluídos.

Com isso, gerou-se o desejo por vingança. Do conflito. Da guerra. A épica narrativa de um cenário cinematográfico em que o oprimido busca insurgir das cinzas para buscar sua redenção por meio da supressão de seu oponente. Ficcionismo pouco efetivo, ligado à famosas doutrinas do século XX que prezavam por uma luta de classes, mas só dariam certo sobre as mãos de grandes escritores do gêneros de fantasia. Não é à toa que na cabeceira da minha estante O Capital estaria entre Harry Potter e Jogos Vorazes.

Falamos de ficção, vingança e solidão. Falamos de Zumbi. O herói sem capa, sem valores e sem história. Comprometido com uma narrativa mitológica oriunda da carência de personalidades negras representativas que pudessem assumir o papel de protagonistas em nossa própria trajetória. Uma trajetória de derrotas, conquistas, de Luiz Gama, de Rebouças, de Patrocínio. De Antonieta, Tubman, e de muitas outras. Espero que você possa encontrar, individualmente, o seu herói e descubra que eleger um mito nunca foi e dificilmente será à melhor saída. Nenhum mito.