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Arquiteta e empreendedora, é transexual, pai e associada do Livres.

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Hoje é o Dia Nacional da Visibilidade Trans e nunca se falou tanto sobre o tema. Muito já foi dito por conservadores e socialistas. Minha proposta é falar um pouquinho sobre o assunto através de um visão liberal, quase nunca usada para abordar a questão.

Morpheus diz:
Free your mind.

O dilema shakesperiano ser ou não ser se instala nas nossas vidas e nos acompanha profundamente até termos coragem de transgredir o gênero previsto, algo que infelizmente não acontece para todos. Fazer uma transição de gênero exige muita coragem e determinação para encarar todos os desafios e dificuldades de viver a liberdade de gênero.

Diferente das pessoas cisgêneras* – aquelas cuja performance social de gênero corresponde ao padrão atribuído ao sexo -, o transgênero já tem sua liberdade tolhida desde o nascimento. O sexo biológico determina o papel social que devemos desempenhar e qualquer desvio das normas é tido como algo errado e anormal. Seu gênero a ser vivido é literalmente imposto – o que, como a gente sabe, é um palavrão no nosso meio.

Nesse sentido, a transgeneridade está no topo da luta pela liberdade de gênero. Nós somos a ala “radical”, mas todas as pessoas – de uma forma ou outra – tem a sua liberdade tolhida pelo sexo biológico. A convivência em sociedade está definida a partir de um sistema binário e quem desafia o cistema é marginalizado e excluído. Quem nunca ouviu que você não poderia ser ou fazer algo por ter nascido homem ou mulher? Que todo gay tem que ser afeminado? Que toda mulher tem que ser sensível? Que homens não choram e mulheres não cospem?

Ouso dizer que a liberdade de gênero é o primeiro passo em busca de todas as outras. Trata-se de um divisor de águas entre começar a viver uma vida plena ou passar o resto da vida reféns dos controles sociais. Não precisamos de muita abstração das teorias liberais para entender o que significa ser livre.

Geralmente usada para se referir ao direito de falar o que quiser, a liberdade de expressão atinge um outro patamar para nós. Um verdadeiro pilar da democracia liberal, esse princípio literalmente significa o direito de se expressar, desde a forma mais elementar, através de nossos gestos, roupas, escolhas e preferências.

Ao nascer trans, você é proibida de querer, de questionar e de mudar… Até o seu próprio corpo não te pertence. Até 2018, precisávamos da autorização de médicos e juízes para alterar nosso nome e gênero, como se não tivéssemos condições físicas, mentais e psicológicas de fazer nossas próprias escolhas sobre como desejamos viver.

Por isso, quando eu entrei em contato com as teorias liberais tive uma identificação quase imediata. A vivência, afinal, eu já tinha desde sempre. Faltava dar verbo para ela. E esse verbo, como qualquer verbo, deveria conjugar no singular e no plural. Do individual para o universal. Sem exceções a regra. Como disse o maior expoente liberal da América Latina, Mário Vargas Llosa:

“A liberdade é inseparável do liberalismo. E a liberdade não pode ser só liberdade econômica: deve avançar ao mesmo tempo nos campos econômico, político, social e cultural”.

Esse entendimento normalmente gera uma empatia pelo outro. Como eu poderia criticar alguém por ser diferente, se desde sempre eu me sinto “fora da caixinha” e sou julgada diariamente por ser trans? Como não poderia respeitar a individualidade alheia? Seria muita loucura… Apesar de que alguns diriam que, em tempos sombrios, só sendo muito louca (eu diria lúcida) para lutar pela liberdade de gênero todos os dias. Sendo assim, de loucuras a gente entende bem.

Isso foi apenas uma dica, amadas Alices. Do outro lado, na Liberland, tem muito mais… Vem comigo, eu te conto no caminho.

Mas antes disso:
– Feliz dia da LIBERDADE de gênero!