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Por Bruno Holanda

O Rio de Janeiro experimenta um iluminismo às avessas com grupos religiosos no poder, censura de livros, epidemias se alastrando devido à falta de saneamento e grupos paramilitares com seus feudos intocáveis e independentes do poder central. Só o que falta é a caça às bruxas.

Hoje, como se não bastassem as barbáries que os cariocas já estão se acostumando a acompanhar, como crianças baleadas na volta da escola e escândalos escabrosos de corrupção, outra coisa chama atenção. 

Uma mulher grávida e moradora da zona oeste do Rio, um daqueles feudos com dono, lei própria e grupo paramilitar, passa mal e chama a ambulância do projeto cegonha carioca da prefeitura para o atendimento. Três horas após o pedido, o marido percebe que a criança está nascendo e em meio ao caos urbano, numa versão moderna de parto medieval, o pai da criança chama os tios para ajudarem e o rebento nasce ali mesmo, no meio da calçada suja de uma rua qualquer de um lugar que mais parece a Londres medieval, com esgoto à céu aberto e fezes de animais por toda a volta. A menina nasceu com 2,540 quilos e 48 centímetros, mãe e filha passam bem, mas não devido ao serviço público prestado. 

Em entrevista ao portal de notícia G1, membros da equipe “cegonha carioca”, denunciam falta de gasolina nas ambulâncias e salário atrasados para as equipes. Além disso, um dos funcionários denunciou ao portal que o abastecimento, quando ocorre, é feito com dinheiro vivo sem procedência reconhecida e apenas em determinados postos.

Que fase vive o Rio de Janeiro, uma das cidades mais belas e importantes do mundo. Vivemos hoje numa distopia anacrônica que mistura o que há de mais moderno em tecnologia com problemas da idade das trevas da Europa. Isso tudo sem falar da necessidade da Câmara de Vereadores de tentar extinguir os aplicativos de mobilidade urbana para favorecer lobby de grupos que desejam manter o monopólio do transporte na cidade. A que ponto chegamos por aqui…

Quanto à nova carioca nascida na sarjeta por falta de atendimento, nos resta torcer para que tudo acabe bem e lembrarmos os versos memoráveis de Chico Buarque em sua música e poesia “Meu Guri”. 

“Quando seu moço nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de fome e eu não tinha nem nome pra lhe dar.”