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Nunca foi tão bom ser mulher. Essa afirmativa pode soar anedótica e até parecer mentira, mas fazendo uma reflexão acerca da existência feminina e seu papel ao longo da história da humanidade, é impossível chegar a outra conclusão.

Mesmo com as constantes tragédias noticiadas nos telejornais – feminicídio, abuso, ódio gratuito e exploração – e apesar do retrocesso em muitas nações do mundo árabe pós revolução islâmica, na maior parte do globo – e até mesmo nas áreas mais críticas – as mulheres estão alcançando cada vez mais direitos e liberdades. Neste artigo, exploraremos alguns aspectos nos quais, cada vez mais, os avanços estão ocorrendo.

Sufrágio

A luta pelo direito ao voto foi o carro chefe da causa feminista por séculos. Excluir mulheres do processo democrático significa ceifar sua cidadania e tratá-las como indivíduos inferiores, incapazes de decidir os melhores caminhos para si próprias e para a sociedade.

A inglesa Mary Wollstonecraft, quando publicou o seu revolucionário Uma Reivindicação dos Direitos das Mulheres (1792), alertou para esta questão. A autora – tida como uma das primeiras feministas da humanidade – alegava que as mulheres não eram menos aptas que homens para gerir suas vidas e atuar politicamente; elas apenas receberam uma educação diferente e enviesada, foram ensinadas a “adornar sua prisão” ao invés de quebrar suas grades.

As lições de Wollstonecraft foram, no entanto, ignoradas pela maior parte das pessoas. Escritora autodidata, divorciada e mãe solteira, ela morreu sem ver seu sonho de igualdade e liberdade materializado no mundo.

Mas a história não acaba assim. Em meados do século XIX e início do século XX, um ímpeto mais ativista toma conta da luta feminista. Enquanto as anarquistas, lideradas por Emmeline Pankhurst, atuavam através da desobediência civil, os liberais, como John Stuart Mill e Harriet Taylor, publicaram petições e tratados defendendo o sufrágio universal, através da Sociedade Kesington.

Em 1893, as mulheres adquirem o direito ao voto na Nova Zelândia. Nos anos 30 e 40, foi a vez do Brasil, França, Itália, e tantos outros legalizarem a prática. Em 2015, as mulheres só eram totalmente excluídas do processo eleitoral na Arábia Saudita e no Vaticano; naquele ano, puderam se candidatar as eleições municipais sauditas, apesar das inúmeras regras que restringem a interação entre eleitores homens e candidatas.

É possível dizer que em termos de direito ao voto, as mulheres nunca estiveram tão bem. Claro, nem tudo é perfeito: os séculos de opressão e afastamento das mulheres da vida política trariam sequelas que somente uma profunda mudança sociocultural pode resolver. Segundo o índice Global de Igualdade de Gênero, publicado em 2015 pelo Fórum Econômico Mundial, somente 23% da diferença de resultados políticos entre homens e mulheres foi abolida.

Felizmente, com a integração cada vez maior da mulher na sociedade e o aumento da participação feminina no debate de ideais – muito por conta de tópicos como direitos reprodutivos – é possível que haja melhora significativa desse quadro nos próximos anos.

Violência

Todos os dias mulheres sofrem abusos físicos, psicológicos e sexuais no mundo. Os números, sem dúvidas, são alarmantes. Segundo o Instituto Maria da Penha, a cada 7.2 segundos uma mulher é agredida no Brasil.

A barbárie, no entanto, já foi muito pior. O feminicídio, hoje largamente condenado e ilegal, já foi não apenas autorizado como encorajado. No período colonial, era permitido a um homem matar sua esposa caso descobrisse – ou simplesmente suspeitasse – que foi traído.

Outras formas de brutalidade contra as mulheres estão sendo criminalizadas e sua incidência caindo, como a mutilação genital de meninas em países africanos, asiáticos e do Oriente Médio. Atualmente, dois terços da população afetada considera a prática prejudicial e nações como Nigéria, Eritreia e Gâmbia já a tornaram ilegal. Apesar de ainda ser uma questão grave, os esforços mundiais em preservar a integridade das meninas têm sido promissores.

O mesmo ocorre com o estupro marital. Mesmo tendo sido proibido recentemente – 1995 na Alemanha, 1989 na Escócia, 1991 na Inglaterra e apenas em 2009 no Brasil – está lenta e gradualmente deixando de ser tabu. E o fato da prática ser expressamente ilegal dá respaldo e encoraja cada vez mais mulheres a denunciar.

A mais importante mudança, entretanto, não foi numérica – mas social. A violência contra mulheres não é mais moralmente aceitável em boa parte do mundo. Cada vez mais, a figura feminina deixa de ser vista como propriedade de outrem – e, portanto, refém das vontades de seu dono – para tornar-se propriedade de si mesma; e apesar de atos violentos ainda ocorrerem em larga escala, eles não são mais normalizados pelos ocidentais.

Educação

Durante toda sua vida, Mary Wollstonecraft advogou por uma educação igualitária. Contrariando os pensadores em voga no seu tempo – como Rousseau, que defendia que mulheres deveriam apenas aprender a como servir seus maridos – a autora alegava que o gênero não determinava inferioridade intelectual, e por isso meninos e meninas deveriam receber o mesmo estudo. As diferenças até então existentes, alegava ela, vinham justamente da educação diferenciada.

Atualmente, apesar das 62 milhões de meninas impossibilitadas de ir à escola no mundo – seja para ajudar a família ou por conta da proibição em alguns países árabes – a diferença de resultados e acesso à educação entre meninos e meninas caiu incríveis 95% em 2015, segundo o índice Global de Desigualdade de Gênero.

Caso pudesse ver o resultado de suas ideias, Wollstonecraft ficaria orgulhosa, mas ainda insatisfeita. É preciso gerar oportunidades para que famílias pobres possam deixar suas filhas retornarem à escola, prevenir a gravidez na adolescência – outro motivo para a evasão escolar – e exigir, a nível internacional, mudanças na legislação de países que ainda atravancam o desenvolvimento educacional das meninas.

Costumes

Seria impossível vislumbrar qualquer avanço na causa das mulheres se os costumes não tivessem progredido. Se no passado era praticamente consenso que o papel feminino se restringia ao cuidado do lar e dos filhos, hoje a mentalidade tornou-se outra.

Segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) 70% das mulheres e 66% dos homens no mundo entendem que as mulheres devem trabalhar fora; no Brasil este índice é de 72% para mulheres e 66% para os homens.

Além disso, a visão quanto ao papel social da mulher está se tornando mais progressista a cada geração. O psicólogo Jean M. Twenge fez uma pesquisa perguntando a homens e mulheres norte-americanos suas opiniões sobre se é dever da mulher obedecer ao marido e se mulheres deveriam ter o mesmo direito de agir e se locomover que homens; ele descobriu que hoje a atitude dos homens é mais feminista do que das mulheres na década de 70. Melhor ainda: em 1987, somente metade dos norte-americanos considerava errado bater na esposa com cinto ou pedaço de pau; dez anos depois, 86% dos entrevistados condenavam a prática.

É totalmente plausível acreditar que estamos marchando culturalmente para uma era de respeito e libertação das minorias; a cada década as pessoas se tornam mais críticas à marginalização das mulheres e demais grupos, e abraçam cada vez mais posturas respeitosas, repudiando a violência e segregação.

Ainda Há Muito a Fazer

Sem dúvidas, o mundo ainda não é plenamente seguro para as mulheres. Dizer que estamos melhor do que há cem, cinquenta ou mesmo dez anos atrás não altera o fato de que ainda existe uma grave e profunda opressão de gênero que permeia a maior parte das sociedades.

Felizmente, as evidências apontam que é provável que estejamos ainda melhor daqui a dez, cinquenta, cem anos. É uma marcha gradual, que acompanha a mudança nos costumes e o desenvolvimento econômico. E sim, existe uma profunda influência da riqueza sobre igualdade de gênero.
O Índice de Desigualdade de Gêneros, calculado pela ONU, expressa bem essa correlação. Nele, quanto mais perto do zero maior a igualdade entre homens e mulheres no país. Nações com desenvolvimento humano muito alto possuem um índice de 0,197; ao passo que países com desenvolvimento humano médio e baixo apresentam, respectivamente, 0,513 e 0,587. Como a pobreza também está em constante declínio, é possível acreditar que a desigualdade de gênero acompanhará esta tendência.

Conclusão

O dia 8 de Março é uma data muito significativa na luta por igualdade de direitos. Neste momento, ao invés de relembrar todas as tragédias e mazelas que acometem tantas ao redor do globo, é preciso celebrar os avanços alcançados através da luta de mulheres – muitas delas liberais – que não raro viveram e morreram na esperança de construir uma sociedade mais justa para suas filhas e netas.

A luta de Mary Wollstonecraft, John Stuart Mill, Harriet Taylor e tantos outros trouxe resultados. Hoje milhões de mulheres podem votar, decidir autonomamente se terão filhos e casarão, obter propriedades, se divorciar, trabalhar fora, se defender contra violência, etc. Temos ainda um árduo caminho a desbravar, muitas ainda pedem socorro. Mas estamos no caminho certo. A sujeição das mulheres não está longe de acabar.