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Professora, historiadora, empreendedora e fiscal de contas públicas. Co-fundadora do Livres, líder RenovaBR e líder RAPS. Coordenou o Raio-X das Escolas e Creches do Recife e coordena o Embaixadores Livres, projeto que ensina empreendedorismo a jovens da periferia do Recife. Professora, historiadora, empreendedora e fiscal de contas públicas. Co-fundadora do Livres, líder RenovaBR e líder RAPS. Coordenou o Raio-X das Escolas e Creches do Recife e coordena o Embaixadores Livres, projeto que ensina empreendedorismo a jovens da periferia do Recife.

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A História de Pernambuco e de Recife, para mim, está costurada na história da luta pela Liberdade no Brasil. Como, exatamente? A resposta é curta, uma metonímia, tem duas letras: Joaquim Nabuco.

O homem em preto e branco, de bigode e biografia extensa, dos livros de História, todos conhecem. Eu mesma vi muito essa figura, do Ensino Fundamental até a graduação em História. Mas o que a maioria dos brasileiros não costuma aprender é a vastidão da importância dele para a luta pela liberdade no Brasil.

Político, jurista, diplomata, historiador, jornalista. Todos esses adjetivos se aplicam a ele. Liberal também. Eu gostaria de adicionar um que nunca vi nos livros de História em relação a Nabuco, nem mesmo os da minha graduação. Sensível.

Nabuco teve a sensibilidade de usar a influência de sua família poderosa e rica para mudar uma das maiores crueldades que o Brasil viveu: a escravidão. Foi com sensibilidade que ele previu e escreveu sobre os longos anos de desgaste que essa crueldade ainda representaria, mesmo após a assinatura da Lei Áurea em 1888. Sendo branco, teve a consciência de sua própria liberdade num país escravagista. Usou essa vantagem em amor à liberdade alheia.

Foi como escreveu em O Abolicionismo:

“A escravidão não é uma opressão ou constrangimento que se limite aos pontos em que ela é visível; ela espraia-se por toda parte; ela está onde vós estais; em nossas ruas, em nossas casas, no ar que respiramos, na criança que nasce, na planta que brota do chão.”

E como tudo isso se liga à História pernambucana e recifense sendo costurada à luta pela liberdade?

O dia do historiador, dia 19 de agosto, é comemorado no aniversário de Joaquim Nabuco. Não preciso me estender aqui na razão para isso. Poucas figuras intelectuais brasileiras tiveram o impacto nacional, até mundial, que esse recifense teve para o clima de ideias da época. De cabeça, você consegue citar mais algum liberal brasileiro que conseguiu uma audiência até com o Papa, no Vaticano, em prol da luta abolicionista? Eu também não. E olhe que eu sou historiadora.

Nabuco nasceu em Recife, em 1849, filho do senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo. Fez várias graduações, uma delas no reduto abolicionista brasileiro: a Faculdade de Direito de São Paulo. No fim da graduação, defendeu no tribunal um escravo, Tomás. Já adulto, tornou-se um cidadão do mundo, foi diplomata em Washington e Londres, ficou amigo de Machado de Assis, virou figura central da política brasileira. Foi eleito deputado, senador. Criou grupos de resistência à escravatura.

Em Recife, pincelou sua influência pelas várias sociedades abolicionistas locais. O Teatro de Santa Isabel, na época da luta antiescravagista, foi palco de longos eventos com palestras, debates, distribuição de panfletos e organização de pagamento de alforrias. Dele, Nabuco afirmou “sem o Santa Isabel, o abolicionismo em Recife não existiria”.

O teatro nomeado em homenagem à princesa que assinou a Lei Áurea fica do lado do Parque 13 de Maio, data da assinatura da Lei. Do lado, prédio histórico da Faculdade de Direito do Recife lembra os nomes de intelectuais abolicionistas que passaram por ela, como o poeta Castro Alves, autor de Navio Negreiro. Do outro lado da cidade, a Fundação Joaquim Nabuco faz um dos trabalhos mais completos em matéria de pesquisa historiográfica sobre Pernambuco e, consequentemente, sobre vários episódios cruciais da história brasileira.

Mas qual o legado, real, de Nabuco? Para mim, são os escritos dele, que mostram uma visão incomum sobre o Recife, Pernambuco, sobre o Brasil. Acima de tudo, sobre a herança cruel da escravidão, que ajuda a gente a entender o Brasil em que a gente vive, hoje.

 “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…”

Escrevo isso a algumas ruas de distância da praça Joaquim Nabuco, onde uma estátua, esquecida pela maioria das pessoas que passam por ali diariamente, lembra da luta abolicionista. Nabuco faleceu nos Estados Unidos, com toda a cerimônia de um intelectual internacional. Mas a História que escreveu e marcou sempre vai estar aqui, esquecida ou não, nas ruas de Recife. Na minha formação como liberal e historiadora, como professora que luta para fazer da minha cidade um lugar melhor. E não vejo inspiração melhor que o homem retratado na estátua da praça aqui ao lado, bem no coração do Recife.