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Professor no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul e membro da setorial de Educação do Livres

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As grandes epidemias das duas últimas décadas levaram a um aumento da desigualdade de renda persistente no longo prazo e, também, a uma redução do emprego entre pessoas com nível de escolaridade básico no médio prazo. 

Essa evidência foi apresentada pelos autores Davide Furceri, Prakash Loungani, Jonathan D. Ostry e Pietro Pizzuto em artigo denominado Will COVID-19 Have Long-Lasting Effects on Inequality? Evidence from Past Pandemics e publicado no Centre for Economic Policy Research.

A partir disso, é razoável projetarmos que os efeitos da desigualdade da atual pandemia sejam mais severos do que de epidemias passadas. Aliás, conforme popularizado por Peter Atwater (economista e professor da Universidade William & Mary), a “recuperação em formato de k” é uma realidade pois, para alguns, a pandemia gerou oportunidades de crescimento enquanto que, para outros, apenas desesperança devido aos impactos nocivos em seus setores de atuação.

Com este panorama em mente, a pergunta que fica é: como está o nível de aprendizagem dos estudantes na atual pandemia? Ou melhor, como está o contexto de desigualdades de aprendizagem entre estudantes na atual pandemia?

Enquanto o Saeb 2021 não se materializa, alguns pesquisadores vêm realizando estimativas sobre esse impacto.

Ricardo Paes de Barros e Laura Muller Machado, em parceria do INSPER com o Instituto Unibanco, compararam quanto que um jovem teria aprendido sem a pandemia com o que ele aprendeu, dada a pandemia. Para 2020, alguns dos resultados obtidos foram os seguintes:

  • Perda de 9 pontos em língua portuguesa na escala Saeb, para cada jovem no ensino médio com engajamento limitado no Ensino Remoto.
  • Perda de 3 pontos em língua portuguesa na escala Saeb, para cada jovem no ensino médio com engajamento adequado no Ensino Remoto.
  • Perda de 12 pontos em língua portuguesa na escala Saeb, para cada jovem no ensino médio sem Ensino Remoto.
  • O engajamento adequado se refere a uma jornada de 25 horas semanais efetivamente cumpridas pelo estudante.

Para conseguirmos ter uma percepção de magnitudes, um aluno aprende 20 pontos na escala Saeb, em língua portuguesa, ao longo do Ensino Médio.

Sobre a desigualdade de aprendizagem, o relatório do PISA 2018 apresentou que o desempenho em Leitura de estudantes brancos foi, em média, 62 pontos superior ao de estudantes pretos. Aliás, o desempenho dos estudantes mais pobres foi significativamente menor, independentemente da raça/cor, quando comparado ao desempenho médio dos estudantes mais ricos. 

Porém, a desigualdade racial também existe entre os mais pobres e entre os mais ricos. 

Os estudantes brancos possuem um desempenho maior (e estatisticamente significativo) quando comparados aos estudantes pretos, tanto entre os 25% mais pobres quanto entre os 25% mais ricos da distribuição. Isso demonstra que apenas o nível socioeconômico não é capaz de explicar as desigualdades raciais no campo educacional. Ou seja, existem outros fatores estruturais que podem estar associados à discriminação racial.

Com o avanço do processo de vacinação, o retorno presencial das aulas vem ocorrendo gradativamente e, com isso, surge uma nova pergunta: quais estratégias de gestão da aprendizagem devem ser adotadas para que os efeitos da pandemia na desigualdade de aprendizagem não sejam acentuados?

Um dos caminhos para isso pode ser a partir de um novo paradigma que visa a inclusão de todos os estudantes a partir de suas respectivas individualidades e necessidades de autorrealização. Trata-se do Universal Design for Learning (Design Universal para a Aprendizagem).

Para Seán Bracken e Katie Novak, o DUA é um processo de organização metodológico que utiliza soluções educacionais diversificadas empregadas com a finalidade de estimular um aprendizado e acessibilidade de conhecimento a todos, partindo-se do princípio de que todas as pessoas são diferentes e possuem processos variados de aprendizagem. Logo, o foco é a eliminação das barreiras curriculares, em paralelo com o acompanhamento das experiências educacionais de todos os alunos, em especial, os que tradicionalmente estiveram à margem dos processos educativos.

Entendendo-se a atual conjuntura também como uma janela de oportunidades, existe uma travessia que nos impele a repensar os currículos educacionais de tal forma que cada estudante possa ter um acompanhamento individual do seu processo de aprendizagem para que, de forma contínua, construa seu projeto de vida com a mediação dos educadores visando-se sua autorrealização.

 

REFERÊNCIAS

BARROS, R. P.; MACHADO, L. M; FRANCO, S.; ZANON, D.; ROCHA, G. Perda de Aprendizagem na Pandemia. 2021. Disponível em: <https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/cedoc/detalhe/89499b7c-6c99-4333-937d-1d94870d3181?utm_source=site&utm_campaign=perda_aprendizagem_pandemia>. Acesso em: 11 agosto. 2021.

FURCERI, D.; LOUNGANI, P.; OSTRY, J. D.; PIZZUTO, P. Will COVID-19 Have Long-Lasting Effects on Inequality? Evidence from Past Pandemics. IMF Working Papers, maio. 2021. Disponível em: <https://www.imf.org/en/Publications/WP/Issues/2021/05/01/Will-COVID-19-Affect-Inequality-Evidence-from-Past-Pandemics-50286>. Acesso em: 11 agosto. 2021.