Professor de Direito Constitucional, Advogado, Head of Institutional Relations & Public Policy na Jusbrasil e Vereador em Belo Horizonte.

“A única coisa que mete medo em político é o povo na rua.” Quem disse isso? Ulysses Guimarães, uma inspiração para mim. Se há político que não teme povo na rua, deveria. No segundo governo de Dilma Rousseff, quando as pessoas começaram a bater panelas nas janelas, a presidente disse que eram apenas barulhos vindos de “varandas gourmet”. Interpretou mal. As ruas logo se encheram… Havia gente defendendo a ditadura? Sim. Uma minoria. Havia militância partidária? Sim. Uma minoria. A grande parcela era a sociedade comum que, num efeito de swarming, se conectou e ocupou o espaço público. Esse foi o componente principal do impeachment. Sem rua, não se afasta um presidente.

Desde 2016, Belo Horizonte não via tanta gente na rua. Dizer que só havia militantes é querer não enxergar a foto. Oras, se membros dos partidos políticos de oposição não estivessem no evento realizado pela manhã, eu ia me perguntar por qual motivo. Obviamente, há instrumentalização do ato. Nada mais comum. Agora, vale notar a quantidade de cartazes feitos à mão, a participação espontânea de cidadãos, a defesa maciça pela educação, a diversificação do público, a variedade de cidades… Excluam os participantes com coletes sindicais e símbolos partidários, que tem todo direito de estar lá, e sobrará praticamente todo o resto.

Será que quem pretende defender o governo não possui um pingo de autocrítica para admitir que o presidente errou? Não apenas errou na questão pontual da educação, mas tem errado profundamente em várias outras questões que estão se refletindo fortemente em efeitos nocivos para o Brasil. A ex-presidente petista desdenhou os paneleiros. O presidente atual xingou toda essa multidão de “idiotas úteis”. O cargo dele exige uma postura que não condiz com esse tipo de adjetivação.

Na rua, havia gente criticando a reforma da previdência que eu defendo. Na rua havia gente defendendo o ex-presidente solto, que acho que deve permanecer preso. Todavia, na rua havia gente defendendo uma gestão decente para educação. Eu também. E não adianta ser simplista respondendo que com a mudança previdenciária tudo se resolve. Essa não é a mensagem que o governo passa. Cuidado, presidente.