Líder das manifestações pelo impeachment, Junior Macagnam cobra participação popular

Aos 52 anos e sem nenhuma experiência prévia no campo das disputas eleitorais, o empresário Junior Macagnam diz que decidiu se apresentar como pré-candidato a deputado federal pelo seu partido, o PPS, por acreditar na necessidade de renovação na política.

Segundo ele, o momento de crise vivido no país exige mais do que o simples ato de votar. “Ou nós vamos nos envolver com a política e ir pra dentro pra disputar estes espaços, ou essas pessoas que hoje estão no poder vão continuar mandando, e não vamos poder esperar nada diferente do que está aí”, afirma.

Um dos principais organizadores, em Cuiabá, das mobilizações de rua que pediram o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015 e 2016, Junior Vitamina (apelido de infância pelo qual é mais conhecido) diz que a “velha política” não oferece mais “respostas para a sociedade”.

Casado e pai de dois filhos, ele já ocupou a presidência da União dos Lojistas de Shopping de Mato Grosso (2014) e, atualmente, é presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Calçados e Couros do Estado de Mato Grosso (Sincalco) e diretor Institucional da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá/MT.

Recentemente, dentre mais de 4 mil inscritos, foi um dos 100 selecionados para os cursos de capacitação oferecidos pelo movimento RenovaBR (Fundo Cívico para a Renovação Política), que se propõe a formar novas lideranças políticas no país.

MidiaNewsTemos visto no noticiário a radicalização do discurso político. Como o RenovaBR se posta diante desse cenário?

Júnior Macagnam – É muito ruim a gente perceber estes extremos. Essa extrema direita radical, raivosa, e assim como é ruim a extrema esquerda radical e raivosa. Mas penso que a direita radical é minoria, a maior parte é mais liberal e busca o debate. Para justamente evitar essa radicalização que a gente tá vendo hoje no Brasil, o que o RenovaBR prega é justamente está convergência e lá nos já sentimos o seguinte: há um tempo atrás, algumas pessoas defendiam que ter um pouquinho de inflação não faria mal pro Brasil, para as pessoas. E hoje já é consenso que a inflação é o maior imposto que existe. Que ela prejudica os mais pobres, que eles não têm essa capacidade de investimento e de compra. Isso já virou consenso: a inflação hoje prejudica os mais pobres. Então nós estamos trabalhando muito lá pra tirar um consenso de que hoje o ajuste fiscal é muito necessário, porque o Estado não pode gastar mais do que arrecada. E que contrariar essa regra prejudica os mais pobres. Quem tem renda hoje de até dois salários mínimos, paga 54% de imposto. Não vem no boleto, a pessoa pensa que não paga imposto. Com essa greve dos caminhoneiros, as pessoas sentiram: 50% da gasolina é imposto, 40% do automóvel é de imposto, tudo o que a gente compra tem muito imposto.

MidiaNews – Mas, no caso da direita radical, por que acha que tem feito surgir um discurso tão extremo e retrogrado ao mesmo tempo?

Júnior Macagnam – Eu acho que, na realidade, os nossos políticos não estão dando a resposta para a sociedade e está todo mundo tão cansado de corrupção, de roubalheira, que essas pessoas começam a se apegar a um passado em que elas foram jovens e começam a lembrar de uma época em que não aparecia essa roubalheira. Mas não aparecia porque a imprensa não podia divulgar. Quem sabe se a gente estivesse numa intervenção militar hoje, eu não poderia estar aqui falando, porque estaríamos censurados. Não havia tanto assalto, mas tínhamos 80 milhões de habitantes, a sociedade evoluiu e cresceu. Hoje nós temos 210 milhões de habitantes. Ou seja, os problemas também se avolumam, né? E, na realidade, nós tivemos 13 anos em que infelizmente nós tivemos duas empresas brasileiras que tinham agentes públicos na sua folha de pagamento. E essa turma arrasou o Brasil. Isso só me faz pensar que esse radicalismo, esse saudosismo, é porque as pessoas só se lembram do que é bom. Eu só posso acreditar que é isso. Se as pessoas começassem a ler mais sobre aquele período, elas vão entender que a melhor forma que a gente tem até hoje é a democracia.

MidiaNews – É falta de conhecimento então?

Júnior Macagnam – Eu acho que sim, o que falta é conhecimento, ler mais, se aprofundar no assunto e ver que naquela época não tivemos a liberdade que temos hoje. E vai dizer que não teve escândalo de corrupção? Teve a Transamazônica, teve a Ponte Rio Niterói, a usina de Itaipu, Usinas de Angra 1,2 e 3. Será que nessas obras não houve corrupção? As empreiteiras, se você buscar, eram as mesmas que estão fazendo obras atualmente, inclusive uma delas com funcionários graduados na sua folha de pagamento. Então será que não havia corrupção naquela época?

MidiaNews – Naquele período, também foram criadas estatais do dia pra noite, sem planejamento, como se fosse algo extremamente necessário e se gastou talvez bilhões de dinheiro.

Júnior Macagnam – Nós temos uma dívida externa oriunda em grande parte daquele período, onde foram criadas inúmeras estatais. E aí veio o governo FHC, que fez algumas privatizações com a Elena Landau, mas depois o governo do PT criou mais estatais. Na realidade, circula pelo Estado brasileiro hoje 40% do PIB nacional. Enquanto que, em outros países, a gente percebe que a iniciativa privada é que é a alavanca do progresso. Nós temos que privatizar essas estatais, quebrar alguns monopólios pra dar segurança jurídica e política, para que a gente consiga atrair investidores estrangeiros e fazer as rodovias que o Brasil, os portos que o Brasil precisa, nos não podemos ficar só na dependência do investimento estatal porque ele é hoje só 2,5% do PIB. Tá no momento do Brasil se abrir para o mundo.

MidiaNews – Quais estatais precisam ser privatizadas com mais urgência?

Júnior Macagnam – Os Correios, por exemplo. É um monopólio numa época em que nunca se vendeu tanto pela internet, ou seja, as pessoas usam a encomenda. Tudo bem que diminuíram as cartas em função das tecnologias, mas a venda pela internet cresce dois dígitos todo ano. A gente precisa quebrar esse monopólio e deixar as empresas entrarem. Lógico que temos a preocupação com os colaboradores, mas tenho certeza de que muitos deles serão aproveitados, por que o mundo não vai parar de crescer. Ele para de crescer a partir do momento em que a gente tem esses escândalos de corrupção e as pessoas param de investir no país. O Brasil é um país propício para atrair investimentos. Temos aqui área agricultável, temos minerais, um clima favorável, riquezas que nenhum país do mundo tem. O que precisamos é nos abrir e trazer investimento estrangeiro, não especulativo, investimento para produção.

MidiaNews – E a Petrobras?

Júnior Macagnam – Temos que privatizar também. Não vejo porque a gente ter um monopólio na exploração de petróleo. O petróleo é nosso, a Petrobras é nossa, mas eu tô pagando quase R$ 5 o litro da gasolina. Então que petróleo que é meu? Que Petrobras que é minha? Que parceria que é essa, em que eu só entro com o recurso e a turma fica com o bem-bom? E que, quando acontece algum imprevisto, a conta é nossa? É o caso dos caminhoneiros. Baixou o preço do diesel, vai aumentar o preço da gasolina, vai onerar a folha de pagamento de 28 setores e o que vemos é que alguém sempre paga a conta. No caso da Petrobras essa dilapidação que fizeram nesses últimos anos, nós que estamos pagando a conta agora. Não vejo porque também ter dois bancos estatais, BB e CEF. A gente pode avançar na privatização de um dos dois e abrir o mercado de banco. Não podemos privatizar e ficar na mão de quatro ou cinco como está hoje. Temos que desregulamentar este setor, que é muito regulamentado, para que mais bancos possam entrar no Brasil. Muitos dizem: “Ah, o Brasil é o pais onde tem o maior juro do mundo”, porque os bancos internacionais não estão no Brasil se é o maior juro do mundo? Por causa justamente dessa regulamentação. Temos que quebrar isso pra que haja uma maior concorrência, os juros baixem e as pessoas consigam fazer planejamento de médio e longo prazos.

MidiaNews – Você acha que o Congresso, ou a classe política como um todo, consegue enxergar esses gargalos?

Júnior Macagnam – Com todos esses escândalos, como o Mensalão, Petrolão, o que a gente viu foi um acovardamento da classe política. A gente tá vendo aí a judicialização da política. Quem tem que tomar a iniciativa e fazer essa mudança é a população brasileira nas eleições de outubro, procurando uma renovação no Congresso e nas assembleias estaduais. A população tem que participar mais ativamente, tem que se inteirar de que vai ser a grande protagonista nessas eleições de 2018. Agora, não pode acontecer com a população o que aconteceu em Tocantins, onde quase 50% dos eleitores ou anularam, se abstiveram ou votaram em branco.

MidiaNews – Mas isso é um recado claro da sociedade.

Júnior Macagnam – Que ela não está satisfeita com seus políticos. Concordo. Mas então, por que não buscar o novo, renovar, arriscar novamente? Esse Congresso que está aí hoje não tem a mínima condição de fazer as mudanças e reformas que o Brasil precisa.

MidiaNews – Agora outro efeito dessa insatisfação com a política é que aquelas figuras do bem, que poderiam se colocar à disposição, de certa maneira se desestimulam. Como que você vê esta questão?

Júnior Macagnam – Eu acredito que só vai se romper este sistema por dentro. Por fora, não vamos conseguir fazer. Ou nós vamos nos envolver com a política e ir pra dentro pra disputar estes espaços, ou essas pessoas que estão hoje vão continuar mandando e não vamos poder esperar nada diferente do que está aí. Se você fizer a mesma coisa da mesma forma, o resultado não vai ser diferente. Essa é a grande verdade.

MidiaNews – Você acha que o eleitor está hoje um pouco mais esclarecido, um pouco mais consciente?

Júnior Macagnam – As pesquisas nacionais, as que temos acesso no Renova BR, indicam que 81% das pessoas não querem votar em quem tem mandato. Então não tem que participar só votando não, tem que participar escolhendo um candidato, apoiando um candidato e distribuindo adesivo. Como a gente fez nos movimentos de rua, participando, pedindo o fim da corrupção e o impeachment. A população estava realmente ativa e eu acho que ela tem que resgatar isso em 2018 e fazer a sua parte também. Não só votando, mas principalmente participando ativamente, porque ela que vai mudar o seu destino. Ou a gente participa ativamente ou nos vamos colher a mesma coisa no resultado final das eleições de 2018.

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MidiaNews – O seu nome tem sido colocado como opção para a Câmara Federal. Você já se definiu?

Júnior Macagnam – Na realidade, o que eu defendo é o fim da corrupção, menos Estado, menos imposto, mais liberdade, fim dos privilégios, fim do foro privilegiado, igualdade de oportunidades e, claro, mais emprego. Esse é o eixo que eu defendo, além da renovação na política. Estou fazendo um treinamento lá no RenovaBr, como se fosse um MBA para iniciantes na política. Estou gostando. Nunca tinha participado de política, comecei a me envolver em 2014 no movimento contra a corrupção na Praça 8 de Abril. Foi o primeiro ato contra a corrupção, em dezembro de 2014. Chegamos a reunir mais de 50 mil pessoas. E estou me encontrando nesse ambiente, apesar de todo mundo criticar. Nós podemos fazer grandes mudanças e grandes transformações e ajudar muito a população nesse envolvimento com a política. Então eu vou, sim, colocar o meu nome com pré-candidato a deputado federal dentro do PPS e, se for aceito pelos companheiros, vou levar isso adiante.

Você pode ler a entrevista completa no portal MidiaNews.