fbpx

Por Edson Lau Filho, coordenador da setorial Luís Gama, núcleo antirracismo do Livres.

Curitiba, 24 de Agosto de 2021.

Prezado Doutor Luís Gama,

Não sei de nada sobre a vida, menos ainda sobre a morte. Alguns creem que temos várias vidas, outros que há salvação (ou danação) eterna, de acordo com o resultado das nossas ações na terra. Existem pessoas mais céticas, como eu, que enxergam na morte o fim, sem chances extras ou prolongamento da existência em outros planos.

O certo é que ninguém tem certeza de nada. Eu sou mesmo curioso, acho que é uma forma de admitir que devo sempre buscar conhecimento. Nessa curiosidade (incrédula), resolvi escrever esta inusitada, e creio inédita, carta post mortemao Doutor no dia que completa 139 anos do seu falecimento.

Sim, escrevi “Doutor”, afinal, não sei se tenho a liberdade de falar com um irmão, com o seu tamanho na história, sem antes lhe conferir um epíteto que não recebeu em vida.  Só em 2015 deixaram de chama-lo de rábula para ser considerado o “advogado dos advogados”.

Aliás, há um filme bem recente em sua homenagem, cujo título lembra seu ofício… Ah, é bom explicar: no seu tempo não existia o cinematógrafo, é uma evolução da fotografia, esse aparelho fantástico capta movimentos, os reproduz numa tela e ficam gravados para a posteridade. Atores, como num teatro, performam em frente ao equipamento para contar histórias e estórias, resumidamente isso é um filme. Resolveram merecidamente, fazer um filme acerca de uma das inúmeras batalhas judiciais que enfrentou e venceu.

Estas são apenas duas entre as várias novidades desde o seu gigantesco funeral, que parou São Paulo, os jornais da época contam quem 10% da cidade esteve presente, nem foi necessário um carro fúnebre, seu caixão foi de mão em mão até a sepultura. Por anos, o dia 24 de agosto no Cemitério da Consolação em frente ao seu túmulo foi ponto de encontro dos seus amigos e irmãos que lutaram pelo fim da escravidão e pelo direito das pessoas pretas. Doutor Gama, depois que você partiu, a abolição veio após longos cinco anos e nove meses, que certamente foram mais difíceis ao povo, órfão da sua luta.

Curiosa e, você sabe bem porquê, erradamente, a Família Imperial levou um crédito quase que exclusivo pela abolição que, na verdade, foi uma lei bem fria assinada pela Princesa Isabel, que estava como regente, por causa de mais uma das muitas viagens que o Imperador fez. Sei que o Doutor sempre defendeu a educação, formas de tutoria e proteção dos alforriados, mas nada disso aconteceu.

O fato é que após a abolição veio a ressaca que, em muitos aspectos, dura até hoje: os descendentes de escravos somos a maioria da população brasileira, mas ainda não conseguimos acessar os melhores empregos, recebemos do que brancos com a mesma formação e, para completar, somos vítimas de mais de 75% dos assassinatos que acontecem no Brasil.

Não quero lhe incomodar muito, até porque uma carta só não irá resumir 139 anos de notícias, mas saiba que tem gente aqui na luta para manter o seu legado. Muito obrigado por tudo o que escreveu, fez e representa.

Caro Doutor Gama, como escrevi no começo, sou cético se esta carta realmente chegará ao destinatário. Que sirva, pelo menos, para que eu e quem eventualmente a ler, possamos rememorar a data do seu passamento como um marco da luta pela liberdade e a cidadania daqueles que hoje, assim como no seu tempo, são estigmatizados por conta da cor escura da pele, mas como você mesmo disse esta cor “tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade.”

Cordialmente,

Edson Lau.