Quem foi Joaquim Nabuco?

Jornalista, político, diplomata, intelectual. Joaquim Nabuco continua uma das figuras mais impressionantes da história brasileira, principalmente por ter aliado suas características mais fortes a favor da luta liberal e abolicionista.

A biografia do pernambucano, nascido em 1849, fica ainda mais interessante quando o Nabuco playboy, conhecido pela vaidade, entra na equação. “Sempre de flor na lapela e pulseira de ouro”, segundo o biógrafa Ângela Alonso, o Nabuco recém-saído da faculdade era um perfeito dândi, apelidado de “Quincas, o Belo”.

A essa personalidade quase excêntrica, sempre esteve atrelada a preocupação social com o estado calamitoso das liberdades no Brasil, o que parece contraditório à primeira vista. Mas, liberal desde muito jovem, inspirado pela figura paterna, Nabuco foi um raro exemplo de “menino do berço de ouro” que teve real contato com quem frequentemente não tinha o que comer. Muito desse choque social veio através das campanhas para se eleger deputado. A escravidão, porém, foi o ponto-chave nessa história. Em Minha Formação, sua impressionante autobiografia, Nabuco conta já velho episódios que aconteceram quando ainda criança, mas que o marcaram profundamente pelo resto da vida pela evidente crueldade e desumanidade da escravidão, que patrocinou por muitas décadas o dinheiro de sua própria família.

Por que Joaquim Nabuco é importante?

Nabuco dedicou sua atuação política à abolição da escravidão no Brasil, sendo um dos grandes responsáveis por avançar a pauta num âmbito nacional. Também viajou pelos Estados Unidos, onde foi embaixador, e pela Europa denunciando a escravidão no país, buscando apoio internacional pela abolição. Ao longo da vida, cultivou uma obra intelectual muito rica, trocou correspondências com grandes filósofos de sua época e deixou escritos cujo valor inestimável são ainda hoje respostas às questões que o Brasil enfrenta.

Com teses à frente de seu tempo, Nabuco situava na escravidão a raiz de boa parte dos problemas da sociedade brasileira. Advogou por muitos anos contra a abolição abrupta, defendendo que era fosse introduzida na “consciência nacional”, para que as pessoas compreendessem e abraçassem os benefícios e a humanidade da causa, sem causar uma profunda ruptura social. Como seu liberalismo autodeclarado indica, foi um defensor do individualismo, da laicidade do Estado, da defesa da liberdade alheia como princípio basilar.

Além de tudo, está entre os grandes da literatura de língua portuguesa. Minha Formação tem passagens poderosas que rivalizam facilmente com os maiores romancistas brasileiros. Quando fala de seus primeiros anos de vida no engenho Massangana, em Pernambuco, Joaquim Nabuco dá vida a um conjunto de estéticas e ideais que poucos souberam concretizar na história intelectual brasileira. Nabuco entra para o rol dos grandes que conseguem expor com beleza o que há de mais feio na realidade:

“[…]a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida… Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava.

Assim eu combati a escravidão com todas as minhas forças, repeli-a com toda a minha consciência, como a deformação utilitária da criatura, e na hora em que a vi acabar, pensei poder pedir também minha alforria […]; e, no entanto, hoje que ela está extinta, experimento uma singular nostalgia, a saudade do escravo. É que tanto a parte do senhor era inscientemente egoísta, tanto a do escravo era inscientemente generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…”¹

Por onde começar a ler Nabuco?

A obra de Joaquim Nabuco está disponível de graça, em domínio público, em vários portais. Sugerimos a leitura de O Abolicionismo, seguida do excelente Minha Formação. Ambos oferecem um panorama histórico e social impressionante do Brasil, a partir do relato de uma das mentes mais brilhantes desse tempo. Não só isso, mas nos dão novas perspectivas sobre a realidade atual, a luta pela liberdade e os rumos que o liberalismo pode tomar no Brasil de hoje.

¹ Minha Formação, capítulo Maçangana.