João Goulart, o presidente deposto pelo Golpe de 1964, era um péssimo governante. De biografia política curta, era despreparado e fraco. Rico, proprietário de milhares de hectares e cabeças de gado, foi galgando postos em esquemas obscuros no bom estilo dos velhos fazendeiros envolvidos com política. Só se mantinha no poder por causa de dois pilares salvadores: o “dispositivo sindical” e o “dispositivo militar”.

Um esquema detalhado desse contexto histórico, com fontes documentais amplas que incluem até depoimentos do ex-ditador Ernesto Geisel, pode ser encontrado no livro A Ditadura Envergonhada, do jornalista Elio Gaspari, referência fundamental no assunto.

O primeiro dispositivo consistia numa vasta rede de alianças com a esquerda à frente dos sindicatos, consolidado como todas as outras alianças de Jango: trocas de favores e recompensas frequentemente ilegais.

O foco aqui é o dispositivo militar, desenhado e posto em prática pelo chefe do Gabinete Militar, general Assis Brasil. O dispositivo funcionava recompensando os militares aliados com cargos na alta cúpula das Forças Armadas e pondo os dissidentes “na geladeira”.

Assis Brasil emplacou aliados nos principais postos militares do país: o Ministério da Guerra e as lideranças de núcleos fortes do Exército, no Sul e Sudeste. Já os conspiradores e futuros líderes do golpe de 64, foram para o banco de reservas. Ernesto Geisel, na 2ª Subchefia do Departamento de Provisão Geral. Costa e Silva, no Departamento de Produção e Obra. Golbery, na reserva.

O dispositivo militar de Jango tinha uma capa de infalibilidade, mas provou-se tão fraco quanto o presidente. Entre a tarde de 31 de março e as primeiras horas de 1º de abril, derreteu completamente diante dos conspiradores.

Nos primeiros meses de 1964, havia dois processos autoritários sendo organizados para derrubar a democracia. O de Jango, um presidente inepto e desesperado diante da inflação crescente e da recessão econômica, apoiado nos seus dispositivos que haviam sido planejados para sufocar o Congresso. E o de militares desprestigiados e desorganizados, dispersos pelo dispositivo de Jango, mas unidos pela indignação contra o presidente e gradualmente empoderados pela inépcia dele.

O foco na fraqueza de Jango não é à toa. É ela que evidencia o vazio da narrativa “se não houvesse golpe, o Brasil viraria Cuba”. Na hora H, os dois processos autoritários demandaram assertividade dos seus líderes. A biografia rala de Jango deu as caras e o presidente recuou de um passo final em direção à exceção democrática. Os militares deram o passo que faltou a Jango. E começou um processo ditatorial cruel, desumano e profundamente marcado pela bagunça hierárquica, organizacional e ética que governou o país.

Tentar prever o que aconteceria se não houvesse o golpe de 64 é inútil. Mas algumas certezas existem. Uma delas é que o corpo militar era um amontoado de grupos dispersos, sem motivações claras nem união contra uma “ameaça comunista”. Até porque muitos dos mais poderosos membros desse corpo eram também parte do Partido Comunista Brasileiro.

Em resumo: os militares não eram um grupo unificado trabalhando em prol da democracia, como os revisionistas tentam vender atualmente. Eram um amontoado de insubordinados disputando entre si em busca de poder.