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Economista e advogada, é presidente do Conselho Acadêmico do Livres; foi diretora do setor de privatizações do BNDES (1994-1996, governo FHC) e presidente do Conselho de Administração da Eletrobrás.

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Esse texto foi publicado originalmente no Estado de S. Paulo. Leia na íntegra aqui.

Nas últimas semanas fiz uma desintoxicação das redes. Reduzi o acesso ao Twitter, meu vício. Fiquei longe do noticiário; foram 28 dias sem Jornal Nacional. Ao retomar a leitura de periódicos, tive a sensação de estar lendo o jornal do dia seguinte. Nada mudou. Retornei aos grupos de zap, e centenas de mensagens revelam uma conversa em looping infinito.

Há um mês, a discussão sobre terceira via parecia estar ganhando momentum. Sinto que essa energia se perdeu. Nem sei onde nem por quê. A polarização continua firme e forte, é xingamento de um lado e lacração do outro. A patrulha do voto se reorganizou, e parece não haver alternativa além de ser comunista ou fascista. Dúvidas são interditadas, é preciso ter certeza absoluta sobre tudo.

Com Bolsonaro seguindo no seu projeto de golpe – ainda que de forma homeopática –, o pânico agora domina a conversa nos grupos sobre política. A última “novidade” é ligar nosso presidente a Chávez. Ora, desde a campanha presidencial que essas comparações estão na mesa. Não há originalidade alguma nessa análise. O golpe já foi anunciado por ele várias vezes. Vem vindo como uma profecia autorrealizável.

Participo de vários grupos que começaram com o objetivo de construir um projeto para 2022, a ser vocalizado em uma candidatura de centro. E todos, sem exceção, caíram na armadilha de apenas buscar um nome capaz de derrotar Bolsonaro, abandonando, ainda que de forma inconsciente, o seu propósito.

Falta mais de ano para as eleições. Tempo suficiente para uma candidatura que, além do pressuposto básico – a defesa da democracia –, traga esperanças de um futuro longe do populismo. O Brasil não está destinado a escolher entre o peronismo e o chavismo. Tento manter viva a esperança de que um candidato aparecerá para evitar a escolha entre o inominável e o péssimo.

Já tivemos a experiência de um governo democrata, liberal e inclusivo. Um soluço na história política latino-americana. Ele próprio já se apelidou de “presidente acidental”. Estou falando de Fernando Henrique Cardoso.

Em pleno detox, recebi a foto de FHC cumprimentando Lula. Vinha com a mensagem: “Acho que você não vai gostar”. Não gostei mesmo. Foi muita generosidade de FHC com quem nunca lhe teve a mesma cortesia. Como esquecer a herança maldita, privataria tucana e o neoliberal fascista, termos cunhados por Lula e seus seguidores que a incompetência dos tucanos em defender seu legado deixou se consolidar?

O que mais me incomodou, e que talvez esteja na raiz do meu desânimo, foi a sensação de enfraquecimento da terceira via que a foto me causou. Como se o sociólogo Fernando Henrique, ao antecipar seu voto em cenário de polarização, no segundo turno, estivesse abdicando de uma candidatura de centro. Em boa hora, como presidente honorário do PSDB, ele reafirmou seu apoio a Tasso Jereissati, nome capaz de unir todas as tribos.

Se for para voltar ao passado, que seja para buscar um novo FHC, o melhor presidente que já tivemos. Semana que vem, ele completa 90 anos. Uma vida dedicada ao País, na academia e na política.

Tive o privilégio de participar de sua equipe. Sua liderança permitiu que as privatizações avançassem, apesar das enormes resistências políticas e corporativas. Logo no início do mandato, incluiu Vale, Eletrobrás e Telebrás no Programa de Desestatização. Criou as agências reguladoras e aprovou a Lei de Concessões. Sua firmeza na condução das reformas levou à universalização dos serviços de eletricidade e telecomunicações, permitindo a inclusão social de milhões de brasileiros.

Além do Plano Real, que coordenou como ministro e acabou com a hiperinflação, nos seus mandatos foram estabelecidas as bases para o Fundeb, o Bolsa Família e a consolidação do SUS, com atendimento à mulher nas redes públicas e os genéricos. Aprovou uma reforma administrativa via emenda constitucional. Deixou o legado da Lei de Responsabilidade Fiscal, perna fundamental do tripé macroeconômico. Até na reforma agrária, seu governo foi o que mais avançou. E ainda tivemos Ruth Cardoso, símbolo para as mulheres de muitas gerações.

É um exemplo. É o que espero para 2022: respeito à democracia, instituições fortes, reformas econômicas liberais e modernizantes e um amplo programa de proteção social.

Parabéns, sr. Presidente.