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Possui graduação em Ciências Econômicas na UFRJ (1992), mestrado em Economia pela UFRGS (1995) e doutorado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR (2002). Foi professor visitante na University of London e pesquisador visitante no Departamento de Economia da University of California. É pesquisador de carreira do Ipea e, desde 2019, coordenador-geral de Ciência de Dados da ENAP. Atua também como professor do Mestrado em Economia do IDP, Brasília.

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Esse texto foi originalmente publicado na Folha de S. Paulo. Leia na íntegra aqui.

É tão brasileiro e previsível quanto os Refis: a cada crise, vozes alertam que é a hora de aproveitar o momento para ampliar a intervenção do Estado para o Brasil dar um salto adiante.

Nesta crise do coronavírus, o Professor Mangabeira Unger é —sem surpresa— uma dos mais loquazes. Em “Brasil tem que renovar agenda e ousar para ser grande” , ele defende o que chama de um “projeto forte” para o Brasil. A retórica de Unger é sedutora; o tom, messiânico; o desejo de contribuir para o Brasil, sincero; e os planos, ambiciosos. Contudo, ele persiste desconectado da realidade brasileira.

Adianto que, sabendo ou não, o professor se guia por uma interpretação da história econômica brasileira chamada “teoria dos choques adversos”. Essa visão —tão questionável quanto popular— sustenta que os momentos de crise internacional são oportunidades áureas para o desenvolvimento nacional. A I Guerra Mundial, a Grande Depressão e o Choque do Petróleo teriam sido saltos para outros patamares.

Mais recentemente, ouvimos essa ladainha no pós-crise de 2008. (E todos sentimos o dano causado pelo governo Dilma ao empurrar a economia brasileira, em marcha forçada, ladeira acima, depois da crise).

Volto ao texto do professor e tento reproduzir seus argumentos. Ele enaltece as décadas de 1940 a 1980 e lamenta as três últimas, que teriam como características a estagnação e a desigualdade. Segundo Unger, haveria três marcas do projeto nacional desde os anos 1990: realismo fiscal, “pobrismo” e uma marcha ré do conteúdo produtivo da economia brasileira.

Não desperdiçarei espaço criticando o suposto “realismo fiscal”. Qualquer um que acompanhe as finanças públicas nacionais sabe que isso não ocorreu.

O tal “pobrismo” se refere aos programas de transferência de renda que não abririam oportunidades e capacitações para os mais pobres. A escolha do termo “pobrismo” é infeliz e sugere desprezo pela única política social de larga escala bem sucedida no Brasil. Unger também ignora que acumulam-se evidências dos efeitos positivos que vão além do resultado imediato. Quem dera o “pobrismo” tivesse sido adotado mais cedo…

O problema principal do diagnóstico do professor está na crítica à suposta marcha ré do sistema produtivo brasileiro. De fato, o Brasil dos anos 80 tinha um parque industrial completo. Produzia da ureia ao toca-fitas CCE.

A montagem desse parque acompanhou a modernização do Brasil nas quatro décadas de ouro do professor Unger, mas teve altos custos. A sociedade teve que arcar com a ineficiência, generosos incentivos e investimentos estatais. O resultado foi a crise da dívida e a inflação alta que se seguiram ao esgotamento da substituição de importações.

Há um ponto ainda mais central. Justamente entre 1940 e 1980, os problemas por ele denunciados —desigualdade e formação de grandes grupos dependentes do Estado— se aprofundaram. Isso não foi uma criação das últimas três décadas. O professor finge não ver a face perversa dos projetos nacionais fortes daquelas décadas.

Sobre o setor agrícola, o professor guarda uma visão que ecoa a dos grande intelectuais brasileiros até os anos 1960. Ou seja, ele ainda associa a agricultura com atraso. Nada mais equivocado. Um dado simples: desde 1975, a agricultura brasileira utiliza a mesma área plantada, mas quadruplicou sua produção.

A bem da verdade, o professor Unger reconhece o papel da Embrapa, mas se incomoda com o fato de a inovação ser da porteira para dentro. E daí? O professor deveria se lembrar que Marx escreveu que a agricultura se transformaria em um ramo da indústria. Não há nada intrínseco à agricultura que a faça pior do que a indústria.

O professor não precisa se fiar na minha opinião ou na de filósofos alemães há muito falecidos; basta visitar as áreas de agricultura dinâmica do Brasil. A inteligência brasileira, que o professor tanto preza, lá gera seus melhores frutos.

Passo às recomendações do professor Unger. Ele oferece um amplo cardápio. Tal como nos restaurantes ruins, cada um achará algo que, ao menos no papel, é apetitoso. Há desde as recomendações para a reforma administrativa até para o currículo escolar. Foco minhas críticas nas suas sugestões para qualificar o aparato produtivo.

De fato, Unger não propõe a volta da indústria antiga. Ele quer um salto baseado na economia e no conhecimento. E como fazer isso? O Estado deve trabalhar “com as grandes empresas, sobretudo em setores em que já dispomos de vantagens comparativas … ou em setores em que há tudo ainda a fazer em matéria de produção avançada”. Ou seja, precisamos promover os setores em que temos e os que não temos vantagens comparativas. Tenho sincera dificuldade de entender esse ponto. Além disso, será que os fracassos recentes da política de campeões nacionais nada nos ensinou?

No comércio internacional, Unger considera que a globalização é inimiga do seu projeto nacional forte. Nenhuma surpresa. Ele diz que é preciso um novo ordenamento da globalização que deixe de proibir “sob o rótulo de subsídios, as parcerias estratégicas indispensáveis entre governos e empresas”. Tal como fazia Leonel Brizola, a primeira liderança política da qual Unger se aproximou, o professor desconsidera que o Brasil é um dos países mais fechados do mundo.

Em resumo, o novo projeto nacional forte proposto pelo professor é terrivelmente semelhante ao que nos trouxe até aqui. Trata-se de uma atualização ao século XXI, mas comete os mesmos erros de outrora. É verdade que existem bons argumentos teóricos que justificam o protecionismo e a política industrial. Contudo, entre a teoria e a realidade, existem os grupos de interesse e os políticos.

Eles são tão concretos quanto o prédio da Fiesp e os da Esplanada dos Ministérios. Seus interesses são bem diferentes dos do professor de Harvard. Ao idealizar a capacidade do Estado brasileiro de implementar o seu projeto nacional forte, Unger ignora essa condição essencial.

O parágrafo final do texto é ainda mais revelador:

“Para nós, que vislumbramos outro caminho para a nação e confiamos no engrandecimento dos brasileiros, a ser alcançado por meio da transformação das instituições e das consciências, a crise pode ser, além de trágica, fecunda.”

Despido do arroubo retórico, Unger repete aqui os coaches contemporâneos e seus clichês (“vocês sabiam que o ideograma chinês ‘crise’ é formado por ‘risco’ e ‘oportunidade’?” e “vamos mudar o mindset!”). Mas há também a promessa de “make Brazilians great” (again?) e o desejo de mudar as instituições e as consciências dos brasileiros. Se nos livros de auto-ajuda essas visões são inofensivas, elas se tornam perigosas para alguém que reconhecidamente propõe um “projeto nacional forte” e, ao mesmo tempo, é próximo de lideranças políticas com chances reais de chegarem ao poder.

Hoje parte da direita celebra os avanços dos presidentes da ditadura militar e parte da esquerda, os do ditador Getúlio Vargas. Esses líderes de outros projetos nacionais “fortes” foram hábeis em povoar o imaginário e as avenidas com os seus nomes. E, mesmo assim, o país é estagnado e desigual. Por que esperar que seria diferente da próxima vez?

Paradoxalmente, no longo prazo, uma agenda focada em resolver as questões mais básicas da população tende a ser mais bem-sucedida do que ousados projetos “fortes” que seduzem Unger. A vida dos brasileiros melhoraria com liberdade, educação, saneamento e saúde de qualidade para todos. Quem sabe, professor Unger, não devêssemos tentar essa estratégia?