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Professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.

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Texto publicado originalmente na VEJA. Leia na íntegra aqui.

Para quem acompanha política brasileira há algum tempo, não é difícil perceber que alguma coisa estranha vem acontecendo. Basta uma passada pelos jornais da semana. Em uma matéria, leio que instituições “estão em colapso” e que o Exército virou uma “milícia”, ao não punir o general Pazuello. Em outra, a Karol Conká reclama que a raiva contra ela “deveria ter ido contra o Bolsonaro”. Nos debates da Copa América, leio conclamações para que os jogadores “entrem para a história”, desobedecendo a convocação, no melhor estilo Mel Gibson discursando naquela batalha contra os ingleses, em Coração Valente.

O país vive uma espécie de transe bolsonariano. Contra e a favor. Alguns diriam que não há novidade. Que nossa relação obsessiva com presidentes vem de longe. Além do lulismo onipresente, tivemos o Fora Collor, Fora FHC, Fora Dilma e mais recentemente o impagável “Primeiramente, fora Temer”. Verdade. Mas nada que se compare ao que vivemos nestes últimos tempos.

O antibolsonarismo obsessivo fez da linguagem hiperbólica um estilo nacional. Estamos sempre a um passo do “abismo”, como li, dias atrás, na mesma página em que se noticiava a retomada econômica e a chance de o PIB crescer acima dos 5% no ano. Na lógica do transe político, um dado da realidade que “desencaixe” da retórica soa como um (imperdoável) ato de traição.

O mesmo raciocínio funciona para o outro lado. A retórica do líder providencial contra o “sistema” e que só não faz mais porque “não deixam o capitão trabalhar”. O ódio e a paixão política são primos em primeiro grau. Seu traço comum é a suspensão do juízo crítico. De um lado, a denúncia permanente de tudo o que sai do governo; de outro, seu elogio incondicional. O detalhe é que o juízo crítico é exatamente o que se espera dos cidadãos em uma democracia. Ou não?

Dias atrás testei essas coisas com um apoiador fervoroso do atual presidente. Fiz algumas perguntas. Alguém impediu o governo de ter alguma política educacional? Ou uma política consistente, na área internacional, podendo ter cumprido, desde o início, a promessa de uma diplomacia “não ideológica”? A lista vai longe. A questão relevante é sobre o tipo de debate político que se criou no país. Bolsonaro inaugurou no campo da direita uma lógica de passionalidade que só se via do outro lado do espectro político, desde a transição. A retórica salvacionista e “antissistema”, a política pautada pelos temas comportamentais. A lógica “identitária”, como diz o professor Carlos Pereira, dependente da retórica bélica para reforçar continuamente laços de lealdade e a “sensação de aconchego e pertencimento”.

Em polos opostos, a mesma atitude. Qual seria a grande diferença entre o sujeito que fica meses em uma barraca iglu em frente à Polícia Federal de Curitiba, acordando cedo para gritar “bom dia, presidente!”, e o cara que vai gritar “mito, mito” a cada vez que Bolsonaro desce em um aeroporto? A turma dirá que um está certo e outro errado. Mas desconfio que há também alguma passionalidade nessa resposta.

Comportamento passional, no mundo político, é tanto comum como sem sentido. Basta comparar com o modo como agimos, em geral, no mercado. Ninguém adere “incondicionalmente” a um posto de gasolina, por exemplo. Se surgir a informação de que o combustível lá não é essas coisas, você vai pesquisar para saber, e não sai gritando “Ipiranga, Ipiranga!”. Por que agimos assim na política? A maioria, de fato, não age. Quem o faz é a minoria que tem o gosto muito particular da política. Estudos mostram que esse contingente pode somar de 15% a 20% dos eleitores. São os ativistas. Eles andam hoje nas vias digitais. E dão o tom da democracia polarizada.

A moderação é uma ideia que perdeu espaço na cena pública, e mesmo parte da imprensa entrou nisso. Por uma questão de mercado, em primeiro lugar. Na transição para o meio digital, o jornalismo foi mimetizando o modus operandidas redes sociais. Seu estilo, estridência e tribalismo. Ainda me lembro quando perguntei a um blogueiro, coisa de dez anos atrás, por que ele não escrevia coisas mais ponderadas. “Não dá engajamento”, respondeu na lata. À época o fenômeno estava se desenhando. Hoje é quase regra. Ele mesmo virou um tipo pop, mistura de jornalista/ativista que ganhou um enorme espaço. Um sintoma e um fator a mais para a exasperação da democracia.

Há uma penca de problemas nisso tudo. O primeiro é a inutilidade. A enorme perda de energia e chances de consensos mínimos em um país cheio de coisas importantes a resolver. Outro é o “vale qualquer coisa contra esse demônio”, tema bem pontuado pelo diplomata Gustavo Maultasch. Na presença do grande mal, afrouxamos nossos critérios, éticos ou programáticos. Na urgência de defender o grande redentor, toleramos os seus pecados. O desempenho pífio na pandemia, o familismo, a volta do Centrão e seus velhos hábitos. No outro lado, tolera-se esquecer a corrupção do passado recente e cultiva-se o autoengano sobre as reformas. A oposição, que votou contra o teto de gastos, as reformas da Previdência e trabalhista, e agora combate a reforma administrativa, é em quem se confia para salvar o Brasil.

Outro problema é a preguiça. Perdemos o sentido de complexidade do mundo político. Reduzidos ao pró ou contra Bolsonaro, está tudo de antemão explicado, correto? Dias atrás ouvi um debate sobre o drama da educação na pandemia, e a conclusão debitava a culpa, como previsível, ao governo federal. O detalhe é que são os estados e municípios que gerenciam as redes de ensino básico. Não teriam lá sua dose de responsabilidade? A revista The Economisttocou nisso em uma matéria recente. “Bolsonaro não é a única razão pela qual seu país está em um buraco”, dizia o texto. Os exemplos são velhos conhecidos. Na lógica da guerra política, eles desaparecem. O mundo se torna simples e confortável. Combina com nossos instintos, nos permite vociferar à vontade, até as próximas eleições.

Max Weber se preocupava com essas coisas na Alemanha conflagrada do final da I Guerra. Sua angústia era como “fundir na mesma alma a paixão e o senso de proporção”. Weber trata do político. Sua virtude é preservar uma saudável “distância em relação às coisas e aos homens”. Nisso ele se distingue do “diletante esterilmente excitado”. O ponto é que a revolução tecnológica nos transformou a todos em pequenos políticos. E a angústia de Weber passou a nos dizer respeito também.