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Doutor em economia pela Universidade de São Paulo, é chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia da FGV e membro do Conselho Acadêmico do Livres.

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Esse artigo foi originalmente publicado na Folha de S. Paulo. Leia na íntegra aqui.

O IBGE divulgou na terça-feira (1º) o resultado da atividade econômica —o Produto Interno Bruto— do segundo trimestre. A economia caiu 11,4% em relação ao 2º trimestre de 2019 e 9,7% em relação ao 1º trimestre do ano. No 1º semestre do ano, rodou 5,9% abaixo do mesmo período de 2019.

Para pensarmos na retomada, é útil olhar a abertura por setores. A queda de 5,9% do 1º semestre divide-se em 1,2 ponto percentual (pp) de redução dos impostos indiretos e 4,7 pp da produção (líquida dos impostos indiretos).

Dos 4,7 pp, a indústria explica 1,2 pp, e os serviços, 3,7 pp. Nos serviços, três subsetores explicam a queda: comércio, outros serviços e serviços da administração pública, respondendo, respectivamente, por 0,8 pp, 2,1 pp e 0,7 pp da queda de 3,7 pp do setor como um todo.

A indústria tem tido recuperação em “V”. Em julho, segundo a pesquisa mensal da indústria divulgada na semana passada, o setor rodou 3,1% abaixo do mesmo mês de 2019. Em maio, essa estatística era de 22%. Provavelmente em agosto a indústria já tenha recuperado as perdas da crise. O nível de utilização da capacidade instalada e os estoques já se encontravam, no mês passado, no nível pré-crise, segundo a sondagem da indústria do Ibre.

Assim, uma recuperação mais intensa da economia dependerá da retomada dos serviços. Dos três subsetores que explicam quase a totalidade da queda dos serviços, comércio e administração pública voltarão naturalmente assim que a epidemia arrefecer. As pessoas trocaram compra presencial pela compra eletrônica e, lentamente, retornarão às lojas.

E basta as escolas reabrirem e a população voltar às suas consultas normais nos hospitais para que serviços públicos de educação e de saúde retornem.

A recuperação plena da economia dependerá da volta dos outros serviços, subsetor que explica aproximadamente 1/3 do recuo total do PIB. Outros serviços correspondem a: serviços pessoais, como manicure, corte de cabelo etc.; alimentação fora de domicílio, isto é, bares e restaurantes; e todo o setor de entretenimento, eventos esportivos e artísticos. É evidente que seja o setor mais afetado pela necessidade de distanciamento social.

Não faltam recursos no setor privado. Como lembrou meu colega do Ibre Armando Castelar, em sua coluna na sexta-feira (4) no jornal Valor Econômico, a poupança do setor privado subiu muito no primeiro semestre. A poupança doméstica, segundo o IBGE, foi, na primeira metade do ano, quase R$ 54 bilhões maior do que no 1º semestre do ano passado.

Enquanto a poupança pública —resultado do déficit público líquido do investimento— caiu em R$ 389 bilhões, a poupança do setor privado nacional subiu uns R$ 443 bilhões, ou algo como 6% do PIB de 2019.

Esses números batem com a acumulação de depósitos no setor bancário. Segundo o Banco Central, o acúmulo de depósitos pelo setor privado nos bancos em junho de 2020, em comparação ao mesmo mês de 2019, foi da ordem de R$ 450 bilhões a R$ 500 bilhões.

Houve forte acumulação de ativos pelo setor privado. Parte dessa poupança deve ter sido das famílias que receberam o auxílio emergencial e, sabedoras de que era transitório, pouparam parte do benefício.

Estão dadas as condições para uma recuperação mais forte da economia em 2021. É possível que parcela significativa da queda de 5% a 5,5% que ocorrerá em 2020 seja devolvida em 2021.

Há grande preocupação com a reconstrução dos negócios, das pequenas e médias empresas que fecharam as portas.

Minha avaliação é que a reconstrução do setor produtivo será mais rápida do que se imagina. O choque negativo não resultou de erros de gestão ou mesmo de ilícitos dos empresários. Há interesse de todos, bancos, locadores e rede de fornecedores, em refinanciar e garantir reconstrução dos negócios. O empecilho é o vírus.​