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Pesquisador-chefe do Instituto Mercado Popular, trabalhou no FMI e foi assessor econômico especial na Presidência da República. Doutorando em Economia pela Universidade da Califórnia e mestre em Economia Internacional pela Johns Hopkins, com especializações em finanças e métodos quantitativos.

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Persio Arida é meu herói da resistência pós-1964. Você provavelmente conhece ele como uma das mentes por trás do Plano Real (o paper Larida, com André Lara Resende). Ele foi torturado nos calabouços do regime militar. Mesmo assim, voltou ao palco e fez do Brasil um lugar melhor.

Persio nunca foi terrorista. Nunca matou um soldado. Nunca explodiu uma bomba. Mas era membro da sessão estudantil da VAR-Palmares. Seu crime foi ter pendurado uma faixa com os dizeres “Luta armada contra a Ditadura dos Patrões!” numa avenida em São Paulo.

Depois de se esconder numa kitnet durante semanas, foi capturado ao se encontrar com amigos de colégio (considerados “terroristas” pelo regime). Persio foi torturado em São Paulo e no Rio. Persio é asmático. Ter sobrevivido aos choques, aos porões e ao pau-de-arara é fortuito.

O maior problema do autoritarismo é que ele não tem limites. Como dizia Lord Acton: “o poder tende a corromper; e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Imagine usar toda a força da violência estatal para torturar um estudante inocente. Quem pode isso, pode qualquer coisa.

Mas essa história tem um final feliz. Após ser torturado, Persio contribuiu para acabar com o método de tortura mais silencioso dos militares: a bomba de hiperinflação sedimentada por políticas do regime militar.

Entre 1964 e 1984, a inflação média no Brasil foi de 64,5% ao ano. E os militares adotaram um sistema que ajustava automaticamente os preços com base na inflação passada: a indexação econômica. A indexação foi uma condição necessária para a hiperinflação da década de 1984-1994.

Em 1964, os militares criaram o Banco Central (BACEN). Até então, era o Banco do Brasil (BB) – que atuava comercialmente – quem agia como emprestador de última instância. Para acomodar interesses políticos, os bancos estaduais, controlados pelos governos de estado, continuaram sob a tutela do Banco do Brasil.

Para solucionar o impasse, os militares criaram a “conta movimento”, que balanceava os desequilíbrios entre o BB e o Bacen ao fim de cada dia. Na prática, a conta movimento significava que os políticos estaduais e federais poderiam imprimir quantidades ilimitadas de moeda.

Havia múltiplas autoridades monetárias. Ministérios poderiam ordenar operações de crédito no Banco do Brasil e os governadores poderiam fazer o mesmo com os bancos estaduais, que ao fim da cadeia pediriam empréstimos ao BB. No fim do dia, o Bacen era obrigado a compensar.

O resultado disso é óbvio: inflação. O regime militar tentou controlar a inflação por um método arbitrário: o “arrocho salarial”. Em bom português, a política significava que uma parcela menor da renda nacional ficava com os trabalhadores e uma parcela maior ficava com o governo.

O arrocho salarial era um método que só era possível sob autoritarismo. Só a perspectiva de um governo que torturava os seus opositores podia desincentivar as pessoas de protestarem contra uma política que roubava delas a capacidade de comprar o que elas queriam e de ter uma vida melhor.

Ao fim do regime, com as pessoas acostumadas com uma inflação alta e reajustes anuais, a economia plenamente indexada e uma revolta acumulada pelo arrocho salarial, a bomba-relógio estava prestes a explodir. E explodiu. É aqui que nosso herói, Persio Arida, volta à cena.

Trinta anos após o Golpe, Persio ajudou a construir uma Revolução. A estabilização macroeconômica brasileira foi, de fato, uma Revolução. Ela modificou completamente as possibilidades das pessoas.

A Revolução de 1994 tornou possível que empresários e consumidores fizessem planos e investimentos e que governantes pudessem engendrar políticas públicas de uma forma mais ordinária e transparente. Para entender o tamanho dessa Revolução, dê uma olhada no gráfico abaixo.

Em dois anos, o Plano Real tirou cerca de 9 milhões de pessoas da miséria. Na década seguinte, uma combinação de crescimento econômico, mudanças demográficas favoráveis e políticas sociais direcionadas aos mais pobres retiraria mais 20 milhões de pessoas da miséria.

Inflação e desequilíbrios macroeconômicos são armas de destruição em massa. São armas que condenam milhões de pessoas à miséria, à fome e, consequentemente, à própria morte. E o desastre hiperinflacionário brasileiro foi gestado pelos militares.

As repercussões humanitárias do golpe alcançaram muito além dos calabouços e dos alicates dos torturadores (hoje confessos). Elas alcançaram cada pessoa que teve seu salário comprimido, seu poder de compra destruído, suas importações encarecidas, suas oportunidades tolhidas.

Hoje, 55 anos após o Golpe, celebro o herói Persio Arida, que, apesar de torturado, iniciou, anos mais tarde, a Revolução da Estabilidade Macroeconômica e contribuiu para superação do legado de autoritarismo, nacionalismo, exclusionismo comercial e estatismo da ditadura.

Uma das coisas mais incríveis que você pode ler é o ensaio autobiográfico que Persio escreveu para a Piaui. Prometo.