Economista e advogada, é presidente do Conselho Acadêmico do Livres; foi diretora do setor de privatizações do BNDES (1994-1996, governo FHC) e presidente do Conselho de Administração da Eletrobrás.

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Só com oportunidades iguais, podemos ter um País mais justo e mais livre

Em 2013, a convite da Fundação Cecília Vidigal, tive a oportunidade de frequentar o curso Liderança Executiva em Desenvolvimento da Infância. Outras instituições parceiras são a Universidade de Harvard e o Insper, responsáveis pelos módulos de ensino, e o Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), que este ano recebe o 7.º Simpósio Internacional sobre o tema.

É uma área muito distante da minha atuação profissional, tanto como economista quanto como advogada. Mas a intenção dos organizadores era exatamente conscientizar diferentes setores da sociedade para a relevância da questão. O grupo era eclético: parlamentares, profissionais da área da saúde, educadores e uns tantos avulsos, como eu. Tínhamos ideia da importância desse período de vida para a formação da pessoa. O curso nos apresentou pesquisas, experimentos e palestras que ampliaram nossos conhecimentos de forma mais científica.

A primeira infância é um período de vida crucial para a construção de habilidades futuras. Há no noticiário muita ênfase, e com razão, nas estatísticas sobre mortalidade infantil decorrente da precariedade do ambiente social e econômico em que vivem nossas crianças. Sobreviver, para boa parte dos bebês deste País, é o maior desafio, mas não o único. Ao ultrapassar essa etapa, deverão enfrentar os obstáculos que os impedem de atingir seu pleno potencial e quebrar o círculo vicioso ao qual parecem condenados.

Além da sobrevivência, deve haver ênfase no seu desenvolvimento cognitivo, e esse não acontece apenas nos lugares de educação formal. A aprendizagem nesse período é influenciada pelo meio onde crescem. Negligência, desamparo ou violência, por parte dos pais ou daqueles que interagem com elas, são uma ameaça à evolução plena nessa fase. As estatísticas do impacto de um entorno violento sobre o vocabulário são terríveis, com gigantes diferenças entre crianças cercadas de afeto e atenção. O vínculo, o olhar, a interação são cruciais.

As políticas públicas direcionadas à 1.ª infância devem incorporar não só melhorias ao acesso à saúde e à educação, mas oferta de saneamento básico, alimentos saudáveis e redução da violência. É necessário não só combinar essas políticas, mas monitorar.

Não adianta olhar apenas para o número de creches oferecidas, mas a qualidade de seus profissionais e do ambiente oferecido. A creche não é apenas o lugar onde os pais deixam o filho para poder trabalhar. Além de permitir maior igualdade para mulher no mercado de trabalho, devem contribuir para essa abordagem integrada na formação da criança. Lá estão profissionais que têm papel ativo na evolução infantil. Muito se fala em qualificação de professores no debate sobre educação no Brasil, pois o mesmo vale para os profissionais que atuam nas creches.

Um dos experimentos mais comoventes a que assisti no curso foi um vídeo sobre uma mãe adolescente que não tinha carinho pelo seu bebê. Não havia afeto, toque físico, nem mesmo um olhar. A ideia de que uma mãe ou um pai pudessem rejeitar o próprio filho era distante para mim. Ao ver a imagem dos dois na mesma sala sem nenhuma forma de contato, sem qualquer empatia, percebi que o buraco era muito mais embaixo. As imagens eram tão fortes que me tiraram da zona de conforto.

Com a ajuda de profissionais especializados, ao fim de algumas semanas, o vínculo maternal daquela jovem com seu filho foi se estabelecendo. Ela o pegou no colo, olhou para ele e o pôs carinhosamente para dormir. Em casos assim, não adianta creche. Não basta escola. Antes de tudo é preciso cuidar da mãe e, por sua vez, do ambiente familiar e da vizinhança onde cresceu. A questão não era apenas de gravidez não planejada, mas indesejada de verdade. Isso tudo parece óbvio dito assim a distância, mas ainda é difícil encontrar um lugar nas políticas públicas com essa visão.

Meu neto tem 2 anos. Todos os dias ele me surpreende com suas descobertas, suas histórias e novas palavras, sempre usadas no contexto correto. Ele tem acesso a tudo que falta para muitas crianças da mesma idade. Carinho, vínculo afetivo, educação, saúde, alimentação. Já saiu na frente de muitos de sua geração. A distância socioeconômica está dada na partida. A preocupação com a qualidade da formação na 1.ª infância não deve ser só aumento da produtividade deste País, resultado da melhoria do capital humano.

É direito da criança a garantia de que todos possam atingir seu pleno potencial. Só com igualdade de oportunidades podemos ter um País mais justo, mais livre.