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Professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.

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O problema real do Brasil não é a “tirania do mérito”, mas a ausência de uma base de direitos para que o mérito possa fazer a diferença

“Trabalho desde os 14, durmo coisa de cinco horas, minha avó era doméstica e aprendi inglês sozinho”, diz Tallis Gomes, criador do Easy Taxi. “Sou fruto da meritocracia”, e arremata: “Temos de parar de incentivar o coitadismo”. Lembrei da fala do Tallis escutando as histórias de nossos atletas, lá em Tóquio, por estes dias olímpicos. Rebeca Andrade, nossa campeã na ginástica, não deixou por menos: “Dei duro e tive inteligência para aproveitar oportunidades”. A outra Rebecca, do vôlei de praia, sempre lembrada por não ter o biótipo “perfeito” do esporte, lascou: “Vendi o carro e fiz empréstimo para competir. Não foi do nada que a gente apareceu”.

São relatos apaixonantes. Eles dizem, de um jeito simples, que o mérito importa. Mérito entendido como um tipo de atitude diante da vida. A capacidade de tomar iniciativa, assumir riscos, evitar a saída fácil de terceirizar responsabilidades e dar a volta por cima quando as coisas não vão bem. A pergunta é: há algum problema com a meritocracia? O tema se tornou algo explosivo nos últimos anos, e basta ir a uma livraria para ver livros aos montes sobre o “mito”, a “armadilha”, a “perversidade” da meritocracia. Esta ideia “falsa, que encoraja o egoísmo e a indiferença com os desafortunados”, como li em um texto dias atrás.

E aí, quem tem razão? Nossos empreendedores e atletas, quando atribuem ao trabalho duro e ao suor uma parte relevante de seu sucesso, ou nossos teóricos e sociólogos, com sua ira santa contra a meritocracia? Arrisco dizer que há uma confusão aí. Nossas sociedades podem não ser meritocráticas, meu argumento, o que não implica em dizer que, na vida de cada pessoa, as virtudes associadas ao mérito não façam diferença.

Michael Sandel trata desse tema em seu livro A Tirania do Mérito. Em geral concordo com Sandel, mas não desta vez. Ele diz que a ideia de que nosso sucesso depende de nós é uma “visão emocionante da agência humana”, mas que anda lado a lado com uma conclusão tanto confortável quanto equivocada: a ideia de que “recebemos o que merecemos”. Sandel reclama de que Barack Obama e os líderes americanos recentes compraram essa ideia furada. Obama teria usado mais de 140 vezes o mantra “Se você tentar, você consegue” em seus discursos, enaltecendo a ideia da justiça como oportunidade para as pessoas, tão cara ao American Dream.

A nossa fadinha do skate, Rayssa Leal, vai em linha com Obama. “Nunca desista dos seus sonhos”, disse ela em uma entrevista, depois daquela incrível medalha. Ela conta que ganhou um skate aos 6 anos e nunca mais o largou. Que teve uma chance, que deu sorte. Os pais deram força, havia uma pista de skate na cidade. Mas a verdade é que nada disso explica o seu sucesso. Há milhares de decisões que ela mesma tomou, sem ninguém mandar, todos os dias, para chegar até aquele pódio em Tóquio. E mais: não desistir dos sonhos é o conselho que os pais darão aos filhos e treinadores aos atletas. Até mesmo nossos sociólogos, imagino, dirão isso a quem eles de fato prezam, quem sabe ao pé do ouvido, pra ninguém escutar.

O equívoco de Sandel é a transposição dessa ideia “emocionante” da agência humana (“Acredite, você pode”), que funciona essencialmente no plano individual, para a tese mais geral de que as pessoas, na grande sociedade, “recebem o que merecem”. É um salto que não pode ser dado. O destino humano é opaco. Contam a sorte, as dotações naturais, as circunstâncias, os talentos, as escolhas. Somos, no fundo, a mistura de todas essas coisas.

Sociedades de mercado, baseadas na igualdade de direitos, remuneram o valor, não o mérito. Ninguém sai de casa pra comprar pão e pensa “qual foi o padeiro do bairro que mais ralou pra abrir sua padaria?”. O raciocínio é inverso: quem faz o melhor pão? Se o sujeito ralou anos para abrir a padaria, ou se herdou da família, pouco importa. As empresas, os clubes, as escolas, os bombeiros, cada qual pode ter lá seu critério de mérito e premiar quem desejarem. Na grande sociedade os critérios são abertos, difusos, dependem de infinitas decisões tomadas a todo momento pelas pessoas. Por razões que ninguém controla. Ainda bem.

O que podemos fazer é discutir qual o modelo de justiça adequado às sociedades abertas. Arriscaria dizer que ele deve atender a dois critérios. Um vindo da grande tradição liberal; outro da grande tradição social-democrata. O primeiro diz que devemos assegurar a todos uma base de direitos iguais. Uma sociedade sem privilégios. Sem castas, regalias e favores do Estado. A partir daí, respeitem-se as escolhas das pessoas.

Aqui vem o segundo critério: a oferta a cada um de uma base de oportunidades iguais. Não se trata da quimera da igualdade de oportunidades. As pessoas continuarão a nascer em regiões e famílias diferentes, com talentos distintos, e tudo isso definirá suas chances. O que se pode assegurar é um patamar razoável de oportunidades iguais, a partir do qual o caráter, preferências e decisões de cada um definirão o jogo.

Em um país como o Brasil, teremos de andar muito para cumprir esses critérios. E jogar preconceitos pelo ralo. Um exemplo: dez entre dez críticos da meritocracia oferecem como exemplo o fato de que os mais ricos podem escolher as melhores escolas. Sandel inicia seu livro registrando que universidades como Yale e Princeton têm mais alunos entre o 1% mais rico do que entre os 60% mais pobres.

Basta, porém, alguém propor que o governo ofereça bolsas para que os alunos mais pobres frequentem as escolas dos mais ricos (e nem estou falando dos muito ricos) para o mundo cair. Já vi isso acontecer diversas vezes. “Não vai funcionar”, “É dinheiro para as escolas privadas”. De que jeito forjar um mundo de oportunidades iguais sem ao menos permitir que crianças pobres estudem lado a lado e compartilhem do mesmo universo social daquelas com maior renda?

É só um exemplo. Nosso problema está longe de ser a “tirania do mérito”. O problema real é a ausência de uma base de direitos para que o mérito, isto é, as escolhas de cada um, possa fazer a diferença. Nesse sentido, tem razão Obama e sua emocionante visão da agência humana. É a tradição que busca o difícil equilíbrio entre liberdade individual e igualdade de direitos. Tradição que vem de Martin Luther King, quando disse sonhar com um mundo no qual seus filhos não fossem julgados pela cor da pele, mas pelo caráter. O mundo, no fundo, que vejo na fala desses nossos atletas, lá do outro lado do planeta, quando contam suas incríveis histórias.