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Graduado em História, é associado do Livres e coordena nosso Clube do Livro. Nasceu em Belo Horizonte. Gosta de liberalismo, política, automobilismo, História e batata.

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Os debates em torno de qual é a melhor contribuição do liberalismo para a sociedade brasileira é um tema que já foi motivo para debate no Clube do Livro. Mas, a partir da década de 1860, os defensores da liberdade ganham um novo perfil. Mais radicais e progressistas, eles estavam dispostos a sair às ruas para fundar os comícios em praça pública (ou em ambientes públicos privados, para os leitores mais atentos) e garantir que o seu tempo fosse marcado por uma grande agitação política.

Reunidos em clubes e publicados em veículos de imprensa de grande circulação, o liberalismo radical se encontrava em grandes conferências para divulgar as suas ideias aos que estivessem dispostos a ouvir. A sua ação deu vida ao ambiente político imperial e colocou na história nomes como Teófilo Ottoni, Saldanha Marinho e Francisco Otaviano e agora será objeto de análise de mais uma reunião do Clube do Livro, a partir da leitura de Clamar e agitar sempre: os radicais da década de 1860, de José Murilo de Carvalho.

Confira a seguir como essa história se desenrolou!

Os radicais da década de 1860 e a invenção do debate público

Quando a sociedade brasileira olha para o século XIX, a década de 1860 não é a mais popular, especialmente se falarmos dos debates políticos. Espremido entre grandes momentos do século XIX, estes foram os anos em que um grupo de jovens entrou na política e conseguiu dar voz a novos projetos de liberdade para o país. Chamados de radicais liberais, eles eram uma dissidência do Partido Liberal que compartilhavam a formação em Portugal com os seus antecessores, mas não dependiam do Estado para fazer a sua renda.

O grupo se aproveitou da liberdade de imprensa para colocar o seu bloco na rua. O motivo era simples: jornais circulavam ao longo de todo o ano e eram capazes de levar projetos a todo o país com uma linguagem acessível, que ampliou os horizontes de expectativa de uma população que estava sob os braços do imperador.

Mas a grande mudança se deu a partir da formação dos Clubes e das conferências. As primeiras associações políticas de caráter civil dariam orgulho a Tocqueville e logo se espalharam pelo país. Juntas, criticaram o governo quando necessário e colocaram à prova as ideias de uma elite muito alinhada com a moderação, a cautela e a prudência.

A juventude radical

As conferências instauraram um novo espaço de ação e discurso político. Nas conferências públicas, a nação era convidada a exercer a sua cidadania e criar laços de convivência política. Sem restrições sociais, os teatros se lotaram de pessoas de todas as classes para trabalharem por uma visão de mundo democrática, reformista e moderna.

As chamadas Conferências Radicais também serviram para persuadir a opinião pública, garimpar adeptos de novos projetos políticos e educar as pessoas sobre os valores da nova década. Na tribuna foram debatidos temas como o fim do escravismo, a reforma agrária, a queda do Império e a separação entre a Igreja e o Estado. Também não ficaram de fora o fim da Guarda Nacional e da vitaliciedade do Senado e a independência da magistratura em relação ao governo.

Como podemos ver, os exaltados não se pouparam a debater o que era polêmico e anárquico. Justamente por isso os estratos mais conservadores e moderados da sociedade – e do próprio liberalismo – não deixaram de se posicionar contra o que se falava naquelas conferências. A ordem, para muitos, era crucial para buscarmos o progresso.

Os limites de uma ideia

O liberalismo radical dos anos 1860 foi marcado pelo discurso contra a tradição ibérica estatista e centralizadora. Como marcadores de união, os radicais lutaram para reduzir o impacto do Estado sobre a economia e diminuir a influência do governo sobre as eleições, a política e o judiciário. Além disso, buscaram diminuir as atribuições do Poder Moderador, separar a Igreja do Estado e criar uma estrutura de gestão descentralizada.

A fundação do Partido Republicano no início da década de 1870 aprofundou dissidências e trouxe novas mudanças para a esfera de debate pública inaugurada pelos exaltados. Os republicanos se vincularam aos liberais, postergaram as lutas abolicionistas e estreitaram o debate para um único tema: o fim do Império.

A luta pelo fim do Império deixou de lado a ideia de revolução para ser escrita nas páginas da História como um golpe. Com a nova estrutura política, o liberalismo se colocou, novamente, diante do desafio de conciliar as suas vertentes mais conservadoras com aquelas que tentavam impedir que a liberdade deixasse de ser uma ideia fora do lugar em terras brasileiras.

Mas isto será um tema para outra conversa do Clube do Livro. No próximo domingo (dia 02), às 20:00, o Clube do Livro se reunirá para debater como os liberais radicais criaram o debate público no Brasil imperial no canal de webinares do Livres.