Graduando em História, é associado do Livres e coordena nosso Clube do Livro. Nasceu em Belo Horizonte. Gosta de liberalismo, política, Formula 1, estudar História e de batata.

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Primeiro autor escolhido pelo Livres para o Clube do Livro, José Guilherme Merquior foi embaixador, ensaísta e crítico literário. A obra, O Liberalismo: antigo e moderno, faz uma análise completa sobre as principais correntes liberais existentes até a queda do muro de Berlim, e é um importante ponto de entrada para qualquer um que queira se dizer liberal (independentemente do tipo de liberalismo professado).

Mas o que disse o homem que recebeu um poema de Drummond como presente de casamento sobre a tradição que nos move? Para ajudar você, caro leitor, a compreender este problema, preparamos o texto a seguir. Continue a leitura e entenda o motivo de Merquior e as suas análises serem fundamentais para o movimento liberal de hoje!

Merquior, o não-liberista

José Guilherme Merquior nasceu em uma família de classe média carioca no ano de 1941. Logo cedo destacou-se pela sua inteligência, além da capacidade de ler e analisar obras culturais.

Em seu diário, por exemplo, há um longo ensaio sobre a apresentação de uma peça de teatro estrelada por Bibi Ferreira, que já demonstrava o seu estilo de escrita. A paixão por escrever (e, consequentemente, por ler), o acompanhou por toda a vida – da foto de formatura com um livro a tiracolo, à véspera de sua morte, quando passou parte de suas últimas horas avaliando as provas de edição do seu último livro.

A paixão pela leitura e a capacidade crítica lhe renderam destaque entre os intelectuais nacionais, e aos 18 anos, Merquior começou a publicar as suas críticas em veículos da imprensa. O seu olhar também rendeu amigos, inclusive comunistas, como é o caso de Leandro Konder (1936-2014), que conheceu Merquior em um festival de cinema russo e soviético.

Entre o trabalho de diplomata e intelectual, teve tempo para publicar 19 livros, e até acusar Marilena Chauí de plágio. A acusação, porém, lhe rendeu um grande ranço da academia uspiana (um mérito, ao menos para este que vos escreve direto dos prédios da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG). Definido por Lévy-Strauss como “um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo”, morreu aos 49 anos em Nova York, vítima de um câncer no intestino.

Três escolas de uma mesma tradição

O texto de O Liberalismo: antigo e moderno, rendeu elogios à esquerda e à direita. Até mesmo Olavo de Carvalho chegou a afirmar que “ninguém no Brasil sintetizou melhor a essência do ‘argumento liberal’” do que o ensaísta. Não estava errado: a primeira obra do Clube do Livro organizado pelo Livres é uma das melhores análises em português do que é a tradição liberal e a sua evolução ao longo dos últimos séculos.

Em pouco mais de duas centenas de páginas, Merquior estabelece princípios para a sua análise, indica autores e contrapõe escolas e fundamentos do pensamento liberal. Lembra que a ideia de liberdade não deve ser confundida com autonomia e que as tradições liberais surgiram com enfoques diferentes em cada país, muitas vezes influenciadas pelo seu ambiente interno.

Dividindo os liberalismos em três categorias (clássicos, conservadores e modernos), o ensaísta lembra que as ideias liberais triunfaram ao longo dos últimos séculos em suas esferas morais, políticas e econômicas, a despeito do desejo dos próprios liberais de implementá-las. O leitor, portanto, não pode deixar de notar, ao apreciar Voltaire, Keynes ou Friedman, que a paixão da liberdade foi capaz de vencer qualquer levante autoritário dos últimos séculos.

O Liberalismo: antigo e moderno, porém, não é imune a críticas. Faltam, por exemplo, os liberais nacionais na obra. Infelizmente, Merquior morreu antes que fosse possível responder à essa crítica, já feita por outros analistas do seu pensamento.

De toda forma, esta é uma das melhores obras para introduzir pessoas à concepção e diversidade da tradição liberal. Merquior passeia com maestria por todas as grandes diferenças entre os pensadores da liberdade, os seus debates internos e as respostas dadas àqueles que os atacaram. Explora conexões que passariam despercebidas ao olhar de um leitor desatento, e demonstra, como poucos conseguiram, como a luta pela liberdade evoluiu ao longo do último século.

Justamente por isso, O Liberalismo: antigo e moderno é uma obra fundamental. Mesmo sem entrar diretamente em qualquer texto clássico, ela dá ao leitor os fundamentos básicos para uma robusta defensa da praxis liberal. Afasta, também, pelas suas críticas, o autor de uma ideia liberista, focada excessivamente na fé de que o mercado tudo resolve e tudo garante.

Um liberalismo feito para o Brasil

Merquior sabia que o mundo não era feito de soluções simples. Uma proposta de Brasil feita pelo liberalismo brasileiro, portanto, não seria algo simples de ser formulado. O argumento liberal deveria considerar as particularidades de nossa nação, assim como a sua gritante desigualdade – algo que Anísio Teixeira e Joaquim Nabuco já tinham visto nas décadas anteriores ao nascimento de Merquior, mas que ainda é ignorado por vários liberais.

Apesar de falecer antes de formular as suas propostas em um único documento, Merquior deixou pistas do que seria, em sua visão, o melhor liberalismo para o país. Uma proposta de mundo social liberal, que não só confia no mercado como mecanismo para a criação de riqueza e desenvolvimento econômico intensivo, mas também na democracia e nas suas instituições como meio fundamental para gerar as bases de uma sociedade livre e com igualdade de oportunidades.

A valorização de um liberalismo preocupado com a criação dos fundamentos para o exercício das liberdades e das individualidades, portanto, se daria apenas em uma sociedade democrático-liberal, inclusiva e republicana. As ditas “querelas contra o Estado” daqueles que Merquior chamou de liberistas, deveriam ser abandonadas por não serem apenas uma filosofia crítica aos poderes de um governo atrofiado em suas responsabilidades, mas sim um preconceito que preserva privilégios.

Merquior não sabia, mas já tinha formulado em seus livros algo semelhante às propostas de obras como Por que as nações fracassam. É chegada a hora, portanto, dos liberais brasileiros resgatarem este grande ensaísta e darem prosseguimento aos seus valores.

Nesta segunda-feira, 30 de setembro, o Clube do Livro do Livres vai discutir as origens do liberalismo e o papel das ideias liberais na sociedade e no contexto brasileiro a partir da obra Liberalismo: Antigo e Moderno, de José Guilherme Merquior.