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Doutorando e Mestre em Direito Processual pela UERJ, professor do Centro Universitário de Brasília e ex-assessor do Ministro Fux no STF e TSE.

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Esse artigo foi originalmente publicado na Folha de S. Paulo. Leia na íntegra aqui.

O capitalismo, sistema econômico cujo objetivo principal é a geração e circulação de riquezas, surge com a queda do feudalismo, o início dos Estados e a ascensão da burguesia, emergindo no período marcado notadamente pela primeira Revolução Industrial, no século 18. Por sua vez, a vinda das primeiras pessoas escravizadas para o Brasil começa em meados do século 16.

Esse quadro demonstra que as teorias racistas que justificavam a escravização de pessoas negras surgiram em período muito anterior ao advento do capitalismo. Assim, o sistema escravista e o capitalista são, em origem e conteúdo, completamente diferentes.

Isso não quer dizer, no entanto, que não houve uma relação íntima entre ambos durante os períodos da história brasileira. O capitalismo utilizou a escravidão em escala industrial para sua solidificação. Entretanto, sua mola propulsora fez com que o país acabasse com esse regime, mediante, em boa medida, pressão da Inglaterra, que cortaria relações comerciais com o Brasil caso a situação fosse mantida.

O poder transformador do capitalismo reduziu a desigualdade e a pobreza no mundo, chegando ao marco de as pessoas pobres serem minoria, desde 2018, conforme cálculos da Brookings Institution.

Um sistema com esse potencial não pode ser relegado em uma luta tão legítima quanto o combate à discriminação racial. O Movimento Black Money afirma que a população negra brasileira consome R$ 1,7 trilhão por ano. Esse valor tem poder econômico, social e político. Com a devida organização, é possível garantir respeito dos prestadores de serviço, geração de mais renda e investimento em políticos que tenham agenda antirracista.

Não podemos exigir que gostem de nós, mas podemos impor respeito através de interesses convergentes. Milton Friedman dizia que um simples lápis se faz mediante a cooperação de pessoas que não se conhecem. Ora, a mesma lógica se aplica ao racismo.

Nosso poderio econômico pode exigir mais de nós em produtos e comerciais, surgindo foco e referencial; pode gerar mais emprego e renda para os nossos continuarem a sair da pobreza e alcançar lugares melhores na sociedade; e, por fim, pode nos inserir nas políticas públicas e espaços de poder, desmistificando, pois, a ideia de hierarquização entre as pessoas.

Entender os processos histórico e econômico é de suma importância para observarmos os instrumentos à nossa disposição e podermos mudar a realidade. Assim, o capitalismo é, em verdade, um aliado e não pode ser descartado no combate ao racismo.