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Graduando em História, é associado do Livres e coordena nosso Clube do Livro. Nasceu em Belo Horizonte. Gosta de liberalismo, política, Formula 1, estudar História e de batata.

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Há dois séculos e meio um comerciante foi acusado de ter assassinado o seu filho para impedi-lo de se converter ao catolicismo. Essa história chegou a Voltaire e deu ao autor os fundamentos para a escrita do livro do mês do Clube do Livro: o Tratado sobre a tolerância.

Tratado sobre a tolerância é uma obra disruptiva e que fez jus à memória de uma família que foi destruída pela intolerância com aqueles que professam diferentes visões de mundo. O livro nos lembra que a razão deve ser o guia das ações do Estado e dos processos de Lei. E pelo seu papel fundamental na defesa de direitos que demoraram décadas para serem conquistados e que ainda não fazem parte da vivência diária de toda a humanidade, será a última obra a ser analisada no primeiro ano do Clube do Livro.

Confira a seguir como Tratado sobre a tolerância se mantém relevante no século XXI.

Quem foi Voltaire

François-Marie Arouet, ou apenas Voltaire, nasceu e morreu em Paris, em 1778, com 83 anos de idade. Defensor das liberdades civis e do livre comércio, é um pensador que alterna entre o liberalismo da escola francesa e do Iluminismo francófono. Produziu centenas de cartas, obras literárias, peças de teatro, poemas, ensaios filosóficos e textos políticos.

Era admirador de Locke, que conheceu quando se exilou na Inglaterra para escapar da prisão. Sua escrita era polêmica e focada no ataque às instituições francesas de seu tempo. Não viveu para ver a Revolução Francesa tomar corpo, mas o seu trabalho foi de grande influência para um dos processos revolucionários que mais impactaram o mundo contemporâneo.

A injustiça da intolerância religiosa

Escrito em 1763, Tratado sobre a tolerância é um texto que foi tão atacado quanto a liberdade religiosa que queria defender. No momento de sua publicação, a França (assim como parte da Europa) era palco de grandes conflitos religiosos. A censura era a regra, e a liberdade, a exceção.

Voltaire redige o seu tratado a partir da história da execução do comerciante calvinista Jean Calas pelo tribunal criminal de Toulouse. Calas foi acusado de matar o próprio filho, Marc-Antoine Calas, que estava para se converter ao catolicismo. O mais provável, porém, é que Marc-Antoine tenha suicidado em função das dívidas que tinha com o jogo.

Dez anos depois, Jean e a sua família foram inocentados. Os membros sobreviventes receberam indenizações do governo francês. A partir dos erros do processo e a admissão do uso da intolerância religiosa como guia da investigação, do julgamento e da condenação, a memória de Calas foi restaurada e ele tornou-se o símbolo do que a intolerância pode causar.

O leitura de Tratado sobre a tolerância nos mostra que a intolerância faz (ou fez) parte de todas as sociedades ao longo da nossa história. Demonstra, com detalhes muitas vezes excessivamente gráficos, que o tratamento dado por europeus a outros povos era o mesmo que eles davam a si mesmos. É, também, uma demonstração de como os valores cristãos podem ser deixados de lado para a promoção do ódio e da perseguição.

O Estado promotor das luzes

Voltaire apresentava uma solução simples para os problemas da Europa que eram causados pela intolerância: submeter as religiões ao domínio da razão. Caberia ao Estado agir como agente promotor do império da Lei e dos direitos humanos.

As liberdades deveriam ser promovidas e respeitadas e as crenças relegadas ao espaço privado. Guiados pelos racionalismo iluminista, a convivência democrática e tolerante se tornaria uma realidade onde fosse aplicada. Poderia ser uma mudança lenta, mas seria vitoriosa.

A razão é promotora de uma conduta suave, indulgente, obediente às leis e amante da liberdade do próximo. O espírito das luzes também nos guia em direção a um tipo de direito que não existia naquela época, mas que se tornou uma grande conquista liberal: os direitos humanos.

Um governo focado na liberdade de todos

Apesar de ter sido escrito no século XVIII, Tratado sobre a tolerância ainda é uma obra que pode ser útil ao mundo – e ao liberalismo. Ele não foi o primeiro (e certamente não será o maior) texto a nos lembrar que sociedades livres são aquelas em que todos podem expressar a sua fé com segurança, mas certamente é uma das mais importantes obras no combate ao fanatismo religioso.

A tolerância, para os liberais, deve ser um valor que orienta a sua paixão pela liberdade por inteiro. Negar esse valor é, como diz Voltaire, entregar-se ao irracionalismo. Além disso, é nos privar de conhecer as experiências, as culturas e os saberes que fazem parte do contato com o outro quando este é feito livre de preconceitos.

Sociedades laicas, em que a religião se submete ao poder do Estado e as leis não são utilizadas para a violência baseada em dogmas religiosos. Esses são os ingredientes que deveriam ser misturados à razão que é tão cara aos iluministas. Esses são, para Voltaire, os pontos de partida para que homens tivessem os seus bens físicos e morais preservados em sua plenitude.

Para entender mais sobre a como Voltaire defende a tolerância e os impactos das suas ideias, o Clube do Livre se reunirá no próximo domingo, às 20:00. Clique aqui para receber o alerta do nosso webinar e não se esqueça de participar do nosso grupo no Whatsapp!