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Diplomata e escritor, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Livre de Bruxelas e mestre em Planejamento Econômico.

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Como muitos sabem, o chanceler acidental do governo Bolsonaro reparou sua candidatura à chancelaria aderindo abertamente (mas no começo discretamente) à campanha presidencial – o que é inédito nos anais da diplomacia brasileira – ao abrir um blog Metapolítica 17: contra o globalismo, no qual começou a postar textos numa linha declaradamente extremada do olavismo militante.

Esse voluntarismo adesista à candidatura do capitão é altamente questionável do ponto de vista dos comportamentos que devem ser observados por funcionários públicos, uma vez que em todos os anos eleitorais o Ministério do Planejamento e a própria Presidência da República sempre emitiram uma série de “recomendações” e diretrizes aos funcionários públicos sobre o que seria, ou não, permissível fazer no decorrer da campanha. Um Comitê de Ética da Presidência da República, ou do próprio MRE, poderia, a rigor, questionar a atitude militante do diplomata durante o período eleitoral. Em uma de suas postagens em plena campanha de 2018, ele mesmo chegou a agradecer à administração do Itamaraty não ter adotado nenhuma atitude contrária, ou seja, de cerceamento, dessa sua aberta militância eleitoral em favor do candidato Bolsonaro; uma tolerância que não foi por ele observada depois, em relação a outros diplomatas, inclusive este que aqui escreve.

A “revolução cultural” que estava prestes a se abater sobre o Itamaraty ficou clara desde o primeiro momento. Em seu blog Metapolítica 17, o chanceler escolhido pelo guru expatriado na Virgínia, apresentou, sem qualquer ambiguidade, seu projeto básico para o Itamaraty e para o Brasil:

Sou Ernesto Araújo. Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.
(blog pessoal: Metapolitica 17: contra o globalismo; iniciado em 22/09/2018)

Em uma das postagens em seu blog, “Contra o consenso da inação”, ao criticar aqueles que o acusavam de romper o consenso básico da diplomacia brasileira, mantido desde décadas em torno da autonomia da política externa, o chanceler foi bastante cáustico em relação aos que assim se pronunciavam, especificamente o embaixador Rubens Ricupero e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:

A política externa brasileira foi uma política de “consenso” nos últimos 25 anos porque refletiu um consenso mais amplo, o consenso na base do sistema político que ameaçou sufocar a nação brasileira com a corrupção e a estagnação econômica, a crise moral e o enfraquecimento militar, o apequenamento internacional, o descaso pelos sentimentos do povo brasileiro. (…)

O Presidente Bolsonaro e eu estamos, sim, rompendo esse consenso infame. (…)

Estamos restaurando a verdadeira tradição diplomática brasileira, a tradição de um país livre, soberano, orgulhoso de si mesmo, consciente de sua capacidade e sua responsabilidade de contribuir para o bem da humanidade.
(Metapolítica 17, 3/03/2019);

Uma exegese de todas os escritos do chanceler no período anterior à sua assunção, com base nas postagens em seu blog, em entrevistas ou artigos publicados nessa mesma linha de ideias exóticas – cabe o adjetivo quando se parte do ponto de vista de uma diplomacia experiente, pouca afeita a tais inovações –, seria não apenas aborrecidamente enfadonha, como demandaria um espaço muito desproporcional à importância das “ideias” apresentadas. Mas, o próprio fato de ter intitulado seu blog como “Metapolítica” suscita um questionamento sobre a etiologia do termo e suas implicações políticas. O termo remete ao pensamento dos principais românticos alemães do século XIX, mas conheceu derivações bastante surpreendentes no século XX.

Nas origens da metapolítica: o romantismo alemão que derivou para o nazismo

Um jovem doutorando americano, Peter Viereck, egresso de Harvard e terminando sua tese em Oxford, publicou em 1941, uma primeira versão, no contexto das vitórias de Hitler na Europa: Metapolitics: from Wagner and the German Romantics to Hitler (New York: Alfred Knopf, 1941; expanded edition; New York: Routledge, 2004). Os estudos de Peter Viereck sobre os românticos alemães revelam um Richard Wagner com um antecessor direto do pensamento racial de Hitler e demais nazistas.

Ao discutir essa questão com seu amigo Gobineau, o apóstolo da superioridade nórdica – que havia formulado suas principais teses racialistas no próprio Brasil, como ministro de Napoleão III –, Wagner ironiza sobre a decadência da Alemanha, mas admite uma grande apreensão:

Se a civilização vem a termo, isso não tem muita importância. Mas, se ela termina por causa dos judeus, essa é a desgraça. (registro de 15/02/1881 in: Cosima Wagner’s Diaries, 1878-1882; New York: Harcourt Brace, 1980; p. 622)

O próprio termo “metapolítica” emerge a partir dos círculos wagnerianos, e já denotava o conjunto de valores e princípios que nasceram com os primeiros românticos – Fichte e Herder – e se desenvolveriam subsequentemente no pensamento do extremo nacionalismo que deveria desembocar no nazismo: centrais eram as noções de Volk, de Kultur, de Nationalstaat, de Fuehrer, entre outros. Mais especificamente, o termo aparece numa carta aberta a Richard Wagner por um dos membros de seu círculo, o igualmente antissemita Constantin Frantz, em junho de 1878, na qual ele antecipa o sonho comumente partilhado de ver surgir na Alemanha um futuro regime racista, um Estado dominado por um Fuehrer e voltado para o Volk.

O antigo romantismo do século XIX se converte num “romantismo de aço” sob Hitler, como escreve Peter Viereck, que decidiu publicar o seu livro ao constatar que os americanos, em 1941, estavam cegos ao hitlerismo, que ele considerava “uma nova religião, um mau sonho Wagneriano”.

A ideologia mortal da metapolítica, ainda que derrotada militarmente em 1945, parece ter sobrevivido até nossos dias, preservando, com a exceção do antissemitismo e do ódio racial, todos aqueles valores do extremo nacionalismo, do culto a um líder messiânico, dotado de uma suposta devoção ao povo, a preservação da civilização contra os estrangeiros, inclusive por meio da defesa da pátria contra povos e religiões supostamente ameaçadores, embora mantendo sentimentos místicos similares ou equivalentes.

A tese de Viereck confirma que tanto Hitler quanto Goebbels eram homens letrados, apreciando tanto os românticos nacionalistas quanto Trotsky – para aprender como derrubar um governo democrático – e Gustave Le Bon – para o controle das massas. (Peter Viereck, “Metapolitics revisited”, Humanitas, vol. XVI, n. 2, 2003, pp. 48-75; link: http://www.nhinet.org/viereck16-2.pdf).

Análises bastante similares sobre as derivas do romantismo alemão, sobretudo a partir das emanações “filosóficas” dos círculos wagnerianos – dos quais Nietzsche se afastou antes de mergulhar na loucura –, estão presentes em outras obras de outros especialistas que se dedicaram a estudar as principais correntes de pensamento entre meados do século XIX até o advento do nazifascismo. Paralelamente aos estudos de Peter Viereck, o cientista político John Hallowell, em sua tese de doutoramento defendida na Universidade de Princeton, examinou com atenção a evolução doutrinal dos juristas alemães nesse período, num constante deslizamento do liberalismo anterior para uma adesão ao, ou complacência com, o niilismo que depois derivou para as correntes autoritárias paradoxalmente ascendentes no contexto do liberalismo político e social da República de Weimar (The Decline of Liberalism as an Ideology with particular reference to German politico-legal thought; Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1943).

Um estudo posterior, por Fritz Ringer, confirma essa evolução das tradições liberais do período anterior a Weimar para a emergência de uma oposição de direita à República instituída em 1919, uma profunda revolução conservadora baseada em crenças antirrepublicanas, até o ponto em que, mesmo antes de 1933, mas já sob influência dos nazistas, se instituíam, em instituições alemãs de ensino superior, cadeiras para o estudo da “raça”, como na Universidade de Jena, em 1930. Como resumiu esse estudioso: o “desmantelamento do estabelecimento acadêmico alemão tinha começado.” (The Decline of the German Mandarins: the German academic community, 1890-1933; Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1969; cf. p. 436)

A recente deriva brasileira para o pensamento conservador guarda, no entanto, outras características. Passada a fase do antissemitismo moderado presente nas elites até a Segunda Guerra Mundial – nos tempos recentes em baixa dada a evolução progressiva dos grupos evangélicos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em direção de Israel, considerado o locus da segunda vinda de Cristo sobre a Terra –, os demais elementos do núcleo ideológico do nacionalismo de direita estão presentes no amálgama difuso de crenças políticas e religiosas que servem de suporte doutrinal – se existe algum – ao movimento que dá suporte ao governo Bolsonaro.

Nesse sentido, pode-se considerar o chanceler Ernesto Araújo como a típica figura representante daquela categoria de indivíduos que o filósofo Eric Hoffer chamou de true believer, ou seja, o verdadeiro crente (The True Believer: thoughts on the nature of mass movements; New York: Harper & Row, 1951). O fundamentalismo político ou religioso assumiu diferentes formas, desde que Eric Hoffer publicou o seu livro, constituindo atualmente um amálgama de velhas e novas crenças nacionalistas, às quais se agregam os novos problemas trazidos pela globalização – com o deslocamento de empresas para a periferia – e pelos fluxos de imigração maciça vindos de regiões em crise econômica ou política, não por acaso também afetados pelo terrorismo islâmico.

No caso do Brasil, a inédita onda da direita em direção ao poder nos últimos anos foi em parte o resultado da imensa inépcia administrativa, sobretudo econômica, e da gigantesca corrupção que caracterizaram quase uma década e meia de governos lulopetistas, e em outra parte a consequência da mobilização de novas ferramentas usadas na campanha eleitoral, exemplificados pelas redes sociais e o apelo aos seus derivativos (como podem ser os robôs eletrônicos). Ademais do apelo às tradicionais posturas ultranacionalistas, a moralização conservadora nos costumes, a disseminação das vertentes religiosas evangélicas, as características pessoais do candidato da direita à presidência também ressuscitaram velhos apelos à homofobia e uma aposta tripla na violência policial, na mobilização das Forças Armadas e no armamento da população como suposta solução a problemas cruciais de segurança cidadã.

Na esfera que interessa mais à política externa, podem ser acrescentados dois outros pontos que nunca figuraram explicitamente na agenda da direita brasileira, mas que foram incorporados no curso da campanha, e depois a políticas de governo, por influência direta do populismo de Trump nos Estados Unidos, que são, respectivamente, a rejeição à imigração ilegal e uma postura antiglobalista jamais definida claramente. Esse parece ser o resultado da influência do guru expatriado da coalizão bolsonarista, à qual aderiu, provavelmente por oportunismo, o candidato a chanceler depois convertido em ministro das relações exteriores do governo Bolsonaro.