Jornalista, co-fundador do Students For Liberty no Brasil, integrante do Café Colombo e diretor de comunicação do Livres.

Um dos grandes ícone da cultura nacional e precursor de elementos típicos do pop, Luiz Gonzaga é um dos grandes consolidadores da cultura nordestina. Ele transformou em renda e produto de exportação o que eram tradições do sertão profundo até então pouco conhecidas para além do próprio território.

Músico e intérprete de excelência, sua performance ultrapassou a dimensão sonora para se expressar através da linguagem visual. Gonzaga não é só voz, sanfona, triângulo e zabumba: é também gibão e chapéu de couro. E assim ele foi capaz de tornar sua simples silhueta reconhecível para todo brasileiro, seguindo os passos de Carmen Miranda, muito antes de Beatles, Madonna ou Michael Jackson, quando a TV ainda era artigo de luxo no país.

Gonzaga tornou-se, curiosamente, um personagem dentro da sua própria obra. Ele não apenas deixa Exu, como volta famoso, respeitando os Oito Baixos de Januário. Depois surge, de novo, xaxando. Ele canta as glórias de sua sanfona roubada, mas também junta tudo para o museu na sua Hora do Adeus.

Poucos artistas foram capazes de se expressar de forma tão ampla e contundente. Isso muito antes do reality show das redes sociais e até mesmo da emergência dos videoclipes.

Todo esse pioneirismo foi posto a serviço da valorização do povo do Nordeste, numa época ainda mais sofrida que a de hoje, quando a região era atingida pelos terríveis efeitos da seca. O Nordeste era marcado por fome, alta mortalidade e exploração do trabalho infantil, mas pôde ser representado em seus costumes, tradições e transformações.

Ao cantar a saga do retirante e valorizar o trabalho e a simplicidade, Gonzaga ajudou a transformar sentimentos de vergonha e humilhação em orgulho. E isso tem uma dimensão profundamente libertadora.

Não há condição prática de ser livre sem, antes, ter o mínimo de autoestima. Para exercer a liberdade, as pessoas precisam romper a âncora de uma autoimagem de inferioridade para se sentirem capazes e realizadoras. Isso é adquirir autoria do próprio destino, o que exige não apenas a não dependência de esmolas, “que ou matam de vergonha ou viciam o cidadão”, como a disposição de autoaperfeiçoamento.

Com sua obra, Gonzaga ajudou a disseminar um pouco mais, na cultura brasileira, a noção do ser humano como um fim em si mesmo, que possui valor em sua própria existência e que é um agente capaz de tomar decisões e modificar a realidade em sua volta. Profundamente relacionada às origens do liberalismo clássico, a igualdade na condição humana é indissociável da valorização da individualidade.

Por todas essas razões, como um nordestino grato e orgulhoso do legado de Gonzaga, saúdo ao mestre do baião neste 13 de dezembro, dia nacional do Forró, que marcam os 107 anos de nascimento de Luiz Gonzaga.