Pesquisador em economia aplicada, mestre em economia pela FEA-USP e doutor em economia pelo PPGE-UFRGS. Atualmente é professor na Universidade Federal de Pelotas.

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Há algum tempo, ainda me lembro, liberais brasileiros cabiam com algum conforto em uma Kombi. Uma van, então, já seria um luxo.

A Kombi pode ser apertada, mas é cômoda. Em grupos pequenos, como nos ensinam as pesquisas sobre custos de transação, é muito mais fácil criar consenso e gerar soluções para todos como os chamados bens públicos (perfeitos ou não). Contudo, um grupo tão pequeno geralmente almeja o crescimento e a diversidade, o que, claro, torna a Kombi um estorvo em potencial. Nada mais natural do que o crescimento em grupos que evoluem com o tempo.

Chega, portanto, um determinado momento em que os liberais precisam decidir como irão se expandir. Em outras palavras: serão duas Kombis, uma Kombi e um fusca, ou, digamos, sairão todos da Kombi para caminharem a pé (excluirei a bicicleta por não saber como me locomover neste bicho-papão da minha infância)?

A história daqueles que desejam ser livres (não sei você, mas eu sou Livres) talvez seja parecida com este dilema. Os liberais contam, ao meu ver, com um ponto positivo que é o de reconhecerem os méritos do progresso baseado na liberdade, abraçando a espontaneidade dos indivíduos, seus defeitos e suas qualidades. Gera-se aí tolerância, eficiência e inovação.

A escolha de ficar com duas Kombis me parece a que menos incentiva o desenvolvimento da liberdade (ou o progresso da liberdade), pois os processos são muito parecidos (uma Kombi, afinal, é igual a uma Kombi, ainda que possam existir pequenos detalhes diferenciadores).

A Kombi e o fusca já parece uma opção mais interessante apesar de meu exemplo, inconscientemente – e agora me dou conta disto – usar veículos da mesma montadora. De qualquer forma, já seria um avanço.

Há várias possibilidades, eu sei, mas escolhi uma que me agrada: a de todos saírem andando a pé. Demora mais, eu sei. Mas a paisagem humana é diversa e sempre haverá alguém que gostará da conversa liberal e desejará seguir caminhando conosco.

Sim, o caminho a pé exige mais cuidado, carinho mesmo, com a gente e com os outros. Quem já bateu o pé em uma pedra, aliás, sabe o que digo. Muitas vezes, ao longo da caminhada, fazemos isso e, no impulso da raiva, descontamos em amigos que nada têm a ver (ou talvez tenham, já que você poderia estar conversando com ele quando se distraiu, mas isso não justifica, certo?), gerando discórdia entre amigos e amigos dos amigos.

Kombis, fuscas e uma caminhada pode lhe parecer uma combinação estranha. Tudo isso me ocorre ao olhar para trás, para os anos 80, nos quais não havia com quem conversar e, voltando os olhos 180 graus, vejo um futuro obscuro. Diante disso, o presente me causa angústia.

Estamos, provavelmente, escolhendo se saímos para a caminhada ou se vamos nos dividir em kombis ou fuscas. Queremos muito avançar a liberdade individual de todos porque, eu sei, quem foi xingado de tudo que é palavrão nos últimos anos quer gritar que é livre. É compreensível? Acho que sim.

No meio deste caminho, olhando pela janela para nos decidirmos pela rua, kombis ou fuscas, vemos um cenário dividido em que pessoas já acham que escolhas políticas são suficientes para caracterizar as pessoas como indignas de nos acompanhar em qualquer caminhada que venhamos a fazer.

Em momentos assim, alguns se agarram a seus conceitos – que vinham em evolução constante, por tentativa-e-erro, dentro da Kombi – e os transformam em conceitos estáticos, pétreos, talvez eternos. A crença em que o meu é melhor que o seu se firma e ignora o jogo político que, como já mostrou P.J. O’Rourke em vários de seus textos ultra-sarcásticos,  está longe de merecer tanta consideração quanto à sua seriedade (embora seja um problema sério)[1].

Pois o liberalismo, como já disse José Guilherme Merquior (se tiver a oportunidade, leia lá a primeira linha do primeiro capítulo de seu O Liberalismo – Antigo e Moderno), dentre tantos outros autores, é um processo, difícil de ser definido. Sendo assim, há algo de válido em ser prudente. A prudência parece ser um valor muito conectado com a tolerância e, esta, por sua vez, é parte integrante da reação humana ao desconhecido, este constante monstro que nos assombra a cada nascer do sol.

Vamos escolher se vamos arrumar outra Kombi, fusca ou se vamos andar a pé, mas façamos isso com a cabeça “no lugar”, usando o liberalismo sem nos esquecer das restrições que a realidade nos impõe. Serão bem-sucedidos aqueles que combinarem estas variáveis de maneira ótima.

Cláudio Shikida é doutor em Economia, diretor acadêmico da ABDE (Associação Brasileira de Direito e Economia), professor do IBMEC-MG, associado e colaborador acadêmico do Livres.