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Historiador e membro sênior do Cato Institute desde 1988.

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A liderança moral do dr. Martin Luther King Jr. foi crucial para a erradicação da segregação racial imposta pelo governo nos Estados Unidos. Inspirado pelo individualista americano Henry David Thoreau e pelo militante da não-violência indiano Mohandas Gandhi, King fez da ação política não-violenta a principal estratégia de ataque às leis segregacionistas. Isso exigia grande coragem, uma vez que ele foi preso catorze vezes, recebeu incontáveis ameaças de morte, foi apedrejado e esfaqueado, sua casa foi alvo de tiros e de bombas, e uma bomba também explodiu em um quarto de hotel onde ele se hospedou, antes de seu assassinato.

Dr. King expôs a escandalosa corrupção dos xerifes, prefeitos e governadores sulistas, que aprovavam ataques da polícia contra passeatas pacíficas com armas de choque elétrico, cães ferozes e jatos d’água de alta pressão usados contra crianças. Eles nada faziam quando a Ku Klux Klan espancava passageiros negros nos ônibus e permitiam que os racistas do sul assassinassem impunemente.

O princípios mais fundamentais de dr. King remetiam à tradição do direito natural: existem padrões morais contra os quais a legitimidade das leis deve ser julgada. Elas não são legítimas apenas porque o governo diz que são. “Um código humano que esteja de acordo com a lei moral, ou lei de Deus, é uma lei justa”, explicou. “Mas um código humano em desarmonia com a lei moral é uma lei injusta… Não esqueçamos, em memória dos seis milhões que morreram, que tudo que Adolf Hitler fez na Alemanha era ‘legal’, e que tudo que os revolucionários da Hungria fizeram foi ‘ilegal’”.

King não levou seu pensamento tão longe quanto os filósofos do direito natural, mas disse isto: “Uma lei injusta é um código que a maioria impõe à minoria mas não a si mesma… Podemos dizer também que uma lei injusta é um código que a maioria impõe à minoria sem que esta minoria tenha tido papel algum em sua criação ou promulgação, por não ter direito ao voto… Nossa consciência nos diz que a lei está errada e temos o dever de resistir, mas temos a obrigação moral de aceitar a pena… Jamais conquistamos nada sem fazer pressão, e espero que tal pressão seja sempre moral, legal e pacífica.”

Decisões judiciais, ele disse, podiam ser tão ruins quanto as leis: “Embora os direitos da Primeira Emenda garantam a qualquer cidadão ou grupo de cidadãos o direito de livre associação pacífica, o Sul passou a recorrer a ações judiciais para bloquear nossas manifestações pelos direitos civis. Quando nos preparamos para fazer uma manifestação não-violenta, a cidade simplesmente consegue uma medida cautelar. Os tribunais sulistas são famosos por ‘enrolar’ nesse tipo de caso, é possível haver atrasos de dois ou três anos… Em Birmingham, achamos que tínhamos que tomar uma atitude e desobedecer uma ordem judicial contra manifestações, sabendo das consequências e preparados para sofrê-las – ou a lei injusta acabaria com nosso movimento.”

King causou polêmica durante toda a sua tumultuada vida pública. Os conservadores se opunham a ele porque ele desafiava “os direitos dos estados”. Os chamados liberais, no sentido americano, como o presidente John F. Kennedy, temiam que ele provocasse desordem, e o procurador-geral Robert F. Kennedy aprovou grampos do FBI na casa, no escritório, e em quartos de hotel de King por todo o país. O diretor do FBI, J. Edgar Hoover, afirmou que King estava associado aos comunistas.

Os grampos do FBI não resultaram em nenhuma prova de envolvimento de King com uma conspiração comunista, mas revelaram sua infidelidade matrimonial. Isso causou grande constrangimento aos líderes do movimento por direitos civis. Muitas pessoas ficaram ainda mais escandalizadas com a revelação de que frases e até parágrafos inteiros de seu livro Stride Towards Freedom “Longo passo para a liberdade” haviam sido copiados de Basic Christian Ethics [“Ética Cristã Básica”], de Paul Ramsay, e Agape and Eros [“Ágape e Eros”], de Anders Nygren. Parece que King tinha defeitos, como muitas outras pessoas. Além disso, ele tinha algumas ideias confusas. Exasperado com a intransigência dos governos estatais e locais, ele pediu intervenção federal para fazer valer a igualdade de direitos, e parece que chegou a acreditar que o poder federal poderia curar a pobreza. Um biógrafo afirmou que ele era secretamente um socialista.

Ele protestou contra muitas leis. Algumas delas negavam aos negros acesso a serviços públicos pelos quais eles eram forçados a pagar, por meio de impostos. Havia leis estatais e locais que tornavam obrigatória a segregação no setor privado. Os ônibus municipais eram monopólios garantidos pelo governo, que proibia que empresários oferecessem serviços concorrentes. Quando King ajudou a liderar um boicote aos ônibus, os participantes foram punidos por desobedecer leis antiboicote. Rodízios de carros foram organizados para ajudar os participantes a ir trabalhar, e eles foram processados por violação de leis que exigiam que veículos usados em rodízios fossem licenciados como táxis e que seus usuários pagassem taxas mínimas impostas pelo governo. Dr. King teve discussões com policiais e coletores de impostos, e considerava o serviço militar obrigatório uma forma de escravidão.

Dr. King, que ganhou o prêmio Nobel da paz em 1964, sempre insistiu na não-violência: “Ao pressionar por justiça, certifique-se de proceder com dignidade e disciplina, usando apenas o amor como arma… Evite sempre a violência. Se sucumbir à tentação de usar a violência em sua luta, as gerações vindouras herdarão uma longa e amarga noite, e seu principal legado para o futuro será uma era sem fim de caos sem sentido… Em sua luta por justiça, deixe claro a seu opressor que você não pretende derrotá-lo ou humilhá-lo … Está apenas buscando justiça, para ele assim como para si próprio.”

Martin Luther King Jr., nasceu em Atlanta, em 15 de janeiro de 1929. Era o segundo filho de Martin Luther King Sr., pastor da Igreja Batista Ebenezer, e Alberta Williams, filha de um pastor. Sua avó materna, “Mama” Williams, vivia com a família, e ajudou na criação de King e de seus dois irmãos.

Aos doze anos, King participou de um concurso de oratória promovido pela associação negra Black Elks, e fez seu discurso, “O negro e a constituição”, sem a ajuda de texto ou notas. Assim como seu pai, King estudou no Morehouse College, uma universidade popular entre a classe média negra. Aproximadamente aos dezenove anos, decidiu entrar para o ministério religioso, e se matriculou em um curso de três anos no Seminário Teológico Crozer, em Chester, na Pensilvânia. Uma palestra do presidente da Universidade Howard, Mordecai Johnson, despertou seu interesse pelos métodos não-violentos empregados por Mohandas K. Gandhi.

Após se formar com distinção em Crozer, foi fazer um doutorado na Escola de Teologia da Universidade de Boston, onde adotou uma versão religiosa do individualismo conhecida como personalismo. Segundo o biógrafo David J. Garrow, para o pensamento personalista “a personalidade humana, ou seja, todos os indivíduos, é o principal valor do mundo. Parte da forte atração de King por esta filosofia se baseava em um de seus principais corolários: se a dignidade e valor de todas as personalidades humanas são o principal valor do mundo, a segregação e a discriminação racial estão entre os maiores males.”

Enquanto estava em Boston, ele foi apresentado a Coretta Scott, nativa do Alabama que havia se formado pelo Antioch College, de Ohio, e continuava os estudos no Conservatório Musical da Nova Inglaterra. “Este homenzinho, que era tão baixo”, ela refletiu, “olhei para ele e pensei comigo mesma, ‘ele não parece grande coisa’.” King Pai celebrou o casamento dos dois, em junho de 1953, na casa dos pais dela, em Perry County, no Alabama. O casal voltou a Boston, e ele recebeu seu PhD em junho de 1955.

King Pai queria que seu filho se tornasse seu co-pastor na Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta, mas King valorizava sua independência, e aceitou um posto na Igreja Batista Dexter Avenue, em Montgomery, no Alabama. Em agosto de 1955, ele falou em uma reunião da organização pró-direitos civis National Association for the Advancement of Colored People “Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor” e subsequentemente foi convidado para integrar seu comitê executivo.

Enquanto isso, a tensão crescia em torno da segregação racial imposta pelo governo. Tais leis haviam sido aprovadas no início do século XX, apesar das objeções dos negócios privados, para os quais as leis aumentariam custos e afastariam clientes. Conforme escreveu Thomas Sowell, acadêmico da Hoover Institution: “Foram necessárias leis para fazer o preconceito racial se converter em discriminação generalizada, porque as forças do mercado operavam na direção contrária. O preconceito é gratuito mas a discriminação tem custos.”

Em seu livro America in Black and White [“América em preto e branco”], de 1997, o historiador Stephan Thernstrom e a pesquisadora do Manhattan Institute Abigail Thernstrom explicam que “as raças eram estritamente separadas por lei em bondes, ônibus, e trens; em escolas; em salas de espera, restaurantes, hotéis, pensões, teatros, cemitérios, parques, tribunais, banheiros públicos, bebedouros e todos os demais espaços públicos… A mania de separação chegou a tal ponto que Oklahoma exigia cabines telefônicas separadas para as duas raças… Macon County, na Geórgia, chegou ao cúmulo do absurdo ao debater seriamente uma proposta para que o país mantivesse dois conjuntos separados de estradas públicas, um para cada raça, e rejeitar a ideia apenas por causa dos custos proibitivos.”

Uma lei municipal de Montgomery obrigava os negros a ceder seus assentos aos brancos nos ônibus. Em muitos casos, passageiros negros, especialmente mulheres, tinham que pagar a passagem na parte da frente do ônibus, depois descer e subir novamente pela porta de trás – e nesse intervalo o ônibus partia.

Em 1º de dezembro de 1955, uma mulher de quarenta e dois anos chamada Rosa Parks, que trabalhava como assistente de um alfaiate e ajudava o conselho da juventude da NAACP, entrou em um ônibus em Court Square, Montgomery. O motorista J. F. Blake ordenou que os negros fossem para a parte de trás do ônibus, mas Parks recusou-se. Estava cansada. Blake parou o ônibus, foi até um telefone, e chamou a polícia, que levou Parks para a cadeia. Uma mulher que estava no ônibus avisou E. D. Nixon, da NAACP, que, acompanhado do advogado branco Clifford Dorr, conseguiu sua soltura.

Nixon conseguiu o apoio de religiosos negros. Eles formaram a Montgomery Improvement Association [Associação para a Melhoria de Montgomery] e escolheram King para ser seu primeiro presidente, porque sua educação e habilidade pra falar em público atrairia tanto a elite negra quanto pessoas comuns. King explicou, “Não estamos defendendo a violência… A maior glória da democracia americana é o direito de protestar por direitos.” Seus objetivos eram surpreendentemente moderados: “Não estamos pedindo o fim da segregação. Isso é uma questão para a legislatura e os tribunais… Buscamos apenas justiça e tratamento honesto nos ônibus”.

O prefeito de Montgomery, W. A. Gayle, culpou “radicais negros” pelo boicote, e recusou-se a fazer qualquer concessão. A Montgomery Improvement Association (MIA) organizou um rodízio voluntário para levar os participantes do boicote para o trabalho. As autoridades municipais ameaçaram prender os motoristas se eles cobrassem menos do que os quarenta e cinco centavos que o governo impunha como tarifa de táxi de seus passageiros. O juiz estadual Eugene W. Carter emitiu um mandado proibindo o rodízio por infringir o monopólio sobre os ônibus concedido pelo governo, e a ágil MIA organizou um esquema de caronas. Um júri indiciou mais de noventa membros da associação por violar a lei antiboicote do estado. King, o primeiro participante do boicote a ser julgado, foi condenado a pagar uma multa de US$ 1000. Uma bomba explodiu em frente à casa onde vivia a família de King, quebrando janelas e enchendo o lar de fumaça. Em grandes reuniões semanais, King se referia à estratégia de não-violência a longo prazo de Gandhi.

Em junho de 1956, um tribunal federal decidiu, por dois votos contra um, derrubar a lei de segregação nos ônibus de Montgomery, e mais tarde no mesmo ano a Suprema Corte americana manteve essa decisão. Em 21 de dezembro de 1956, às 5h55 da manhã, o primeiro ônibus do dia parou perto da casa de King. Ele foi o primeiro a bordo, acompanhado de Ralph Abernathy, E. D. Nixon, Rosa Parks e Glenn Smiley, um branco do Texas que os apoiava. Tudo pareceu ir bem até 23 de dezembro, quando um tiro atravessou a porta da casa de King. Cinco dias depois, atiradores alvejaram três ônibus não-segregados, ferindo um passageiro negro. Em 27 de janeiro de 1957, doze tubos de dinamite com uma mecha queimada foram encontrados no terraço da casa do dr. King. Oito meses depois, ele estava na loja de departamentos Blumstein’s, no bairro novaiorquino do Harlem, promovendo seu livro Stride Towards Freedom [“Longo passo para a liberdade”], a história do boicote aos ônibus de Montgomery, quando uma mulher negra mentalmente perturbada o esfaqueou no peito com um abridor de cartas. O golpe passou a centímetros do coração de King.

Para promover um movimento mais amplo pelos direitos civis, King ajudou a organizar uma “peregrinação a Washington” em 17 de maio, que, estima-se, chegou a reunir quinze mil pessoas no Lincoln Memorial. A revista Ebony chamou King de “o líder negro número 1 da humanidade”. Ele ajudou a formar a Southern Christian Leadership Conference Conferência da Liderança Cristã do Sul, uma organização sediada em Atlanta cujo principal objetivo era registrar eleitores negros. No Dia do Trabalho de 1957, King e Abernathy foram à Highlander Folk School, no Tennessee, e ouviram Peter Seeger tocar banjo e cantar “We Shall Overcome”, que se tornou o hino do movimento por direitos civis.

A fase seguinte do movimento começou em fevereiro de 1960, quando quatro estudantes negros do A&M College da Carolina do Norte tentaram ser servidos em uma lanchonete F. W. Woolworth exclusiva para brancos, em Greensboro. O serviço foi negado, mas eles se recusaram a sair. Outras dezenas de estudantes chegaram, e a lanchonete fechou. Logo aconteceram protestos por toda a Carolina do Norte, que se espalharam pela Virgínia, a Flórida e o Tennessee. O sit-in, forma de protesto não-violento em que um grupo ocupa um lugar, virou a especialidade do Comitê Estudantil de Coordenação Não-Violenta. King, que havia saído da igreja de Dexter para ser co-pastor com King Pai na Igreja Batista Ebenezer, falou em uma reunião de manifestantes em Durham, na Carolina do Norte.

Então dois xerifes o prenderam e tentaram extraditá-lo para o Alabama, onde ele enfrentava acusações de perjúrio e crimes por conta de uma declaração de imposto de renda. A receita alegava que em 1956 e 1958 ele havia ganhado US$27.000 além dos US$5.000 em salários como pastor e US$4.100 em cachês por palestras que havia declarado. Se King fosse condenado, sua reputação seria destruída. Cinco advogados consideraram a situação de King muito ruim, mas análises de seus registros financeiros revelaram que ele havia ganhado apenas US$368 além do declarado. Em 28 de maio, um júri de doze homens brancos o considerou inocente. Muitos observadores pensavam que ele estava sendo assediado propositalmente.

Em 12 de outubro de 1960, Dr. King participou de manifestações na loja de departamentos Rich’s, em Atlanta, e foi preso por invasão de propriedade privada. Ele já havia sido multado por dirigir um carro emprestado com a licença vencida e por não ter tirado carteira de habilitação do estado da Geórgia nos noventa dias seguintes à sua mudança para o estado (ele ainda tinha a habilitação do Alabama), e foi condenado a quatro meses em uma prisão na Geórgia.

Em setembro de 1962, enquanto ele discursava em uma reunião da SCLC em Birmingham, um homem acertou Dr. King com um soco no rosto. King permaneceu no pódio, e o homem desferiu novos golpes. Ao invés de se retirar, King falou calmamente ao agressor, que foi identificado como Roy James, de vinte e quatro anos, membro do Partido Nazista americano. A polícia veio, mas Dr. King não quis registrar uma queixa. Segundo o biógrafo David J. Garrow, o episódio “deixou a maioria dos espectadores impressionados com o destemor do Dr. King diante de violência física direta”.

Em seguida, King direcionou suas atenções para Birmingham, uma das cidades onde a segregação estava mais arraigada. Durante anos, casas de famílias negras haviam sido dinamitadas, e a polícia jamais havia solucionado os casos. Um bairro negro era até conhecido como Dynamite Hill [“Colina da dinamite”]. Embora não houvesse número suficiente de eleitores negros registrados para causar um impacto, os clientes negros eram importantes para os negócios da região. Os principais objetivos de King em Birmingham eram dessegregar instalações em lojas, como banheiros e provadores; estabelecer um processo de contratação sem discriminação tanto nas lojas quanto no governo; e reabrir locais de recreação financiados com dinheiro dos contribuintes.

O juiz William A. Jenkins Jr., da Suprema Corte do Estado, emitiu um mandado contra passeatas, então, quando King liderou uma passeata em direção à prefeitura na Sexta-Feira Santa, foi preso. Wyatt Walker, um religioso que trabalhava com King, reuniu milhares de estudantes negros do ensino médio para também marcharem em direção à prefeitura, e eles também foram presos. O comissário de segurança pública “Bull” (“Touro”) Connor deu ordens para que jatos d’água de alta pressão fossem dirigidos contra os manifestantes e pedestres. Cães policiais foram ao ataque, e policiais perseguiram manifestantes com cassetetes. Quando finalmente se chegou a um acordo, King fez elogios aos comerciantes brancos com quem eles haviam negociado, e anunciou uma iniciativa para registrar eleitores en Birmingham. Na noite seguinte a seu pronunciamento, a Ku Klux Klan fez uma reunião perto de Birmingham, e uma bomba explodiu sob o quarto em que King havia se hospedado no Gaston Motel.

Procurando restringir o poder dos governos sulistas, que tanto haviam feito para subverter as liberdades civis, King procurou formas de gerar apoio a uma lei de direitos civis no Congresso. O resultado foi a Marcha de Washington, marcada para 28 de agosto de 1963, patrocinada por King, Wilkins, James Farmer do Congresso da Igualdade Racial, John Lewis da SNCC, Andrew Young da SCLC e A. Philip Randolph da Brotherhood of Sleeping Car Porters, sindicato predominantemente negro de trabalhadores ferroviários. Bayard Rustin foi o principal organizador.

“Eu tenho um sonho”, King disse à multidão, “de que um dia esta nação se insurgirá e viverá o verdadeiro significado de seu credo – consideramos estas verdades auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais. Eu tenho um sonho de que um dia, nas colinas da Geórgia, os filhos dos que foram escravos e os filhos dos que foram donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade… Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter… Quando permitirmos que a liberdade ressoe… chegaremos mais rapidamente ao dia em que todos os filhos de Deus – negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos – poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra, ‘Finalmente livres, finalmente livres, graças a Deus todo-poderoso, somos finalmente livres’.”

Transformado em lei por Lyndon Johnson, que se tornou presidente após o assassinato de John F. Kennedy, o Ato dos Direitos Civis fez mais do que derrubar as leis que tornavam a segregação obrigatória. Ele estabeleceu a Equal Opportunity Employment Commission [Comissão para Igualdade de Oportunidade de Emprego], que tinha o poder de suprimir qualquer associação voluntária julgada discriminatória. Considerando a barbárie dos governos estaduais e municipais do sul, era compreensível que King procurasse uma solução federal; no entanto, aumentar os poderes do governo sempre foi perigoso para minorias, que, por causa de seu número comparativamente pequeno, não poderiam ter certeza de mantê-lo sob controle, como havia ocorrido no sul.

A seguir, King ajudou os negros a garantir o direito ao voto, para que ficassem mais protegidos de políticos e burocratas. “O problema no sul”, explicou o vice-procurador geral Nicholas Katzenbach, “era principalmente a questão dos testes de alfabetização e a forma como eles eram aplicados. Havia negros com Ph.D que não conseguiam passar no teste, e brancos que mal conseguiam escrever o próprio nome que não encontravam dificuldades em se registrar para votar.”

A questão chegou ao ponto culminante em Selma, no Alabama. Selma era uma cidade de cerca de vinte e nove mil habitantes, onde apenas 2% dos negros em idade eleitoral eram registrados como eleitores. Em fevereiro e março de 1956, King liderou manifestações pelo direito ao voto. Os homens do xerife Jim Clark socaram os manifestantes e os agrediram com cassetetes e choques elétricos. Mais de quatro mil pessoas foram detidas, e King foi para a cadeia. Ele escreveu a “Carta de Martin Luther King de uma cadeia de Selma, Alabama”, que foi publicada como anúncio no jornal The New York Times, e atraiu a atenção do país inteiro. Mais de vinte e cinco mil pessoas participaram de uma passeata entre Selma e Montgomery. Foram atacadas pelos homens de Clark e alvejadas por atiradores, mas chegaram a Montgomery, e King falou à multidão reunida em frente à Assembléia Legislativa. O Ato dos Direitos Eleitorais foi assinado em 6 de agosto de 1965.

King corajosamente se opôs à guerra do Vietnã. Ele denunciou o recrutamento militar obrigatório como “servidão involuntária” e expressou alguma desilusão com o poder político. “Nenhum presidente fez muito pelo negro americano”, lamentou, “embora os dois últimos presidentes tenham recebido muito crédito imerecido por nos terem ajudado. Este crédito coube a Lyndon Johnson e a John Kennedy apenas porque foi durante os seus governos que os negros começaram a fazer mais por si mesmos.”

King tinha a ideia equivocada de que mais discursos, passeatas e leis poderiam de alguma forma acabar com a pobreza. Ele foi a Chicago e exigiu que as autoridades locais “acabassem com as favelas”, com a discriminação habitacional, e com os conjuntos habitacionais populares verticalizados, mas não obteve resultados. Ele não parecia entender que programas estatais são dirigidos segundo o interesse dos que estão no poder, e não segundo os interesses das pessoas supostamente sendo ajudadas. Ele tentou lançar uma “Campanha dos Pobres” em Memphis, mas ela se tornou um tumulto.

Por volta das 6:01 da manhã do dia 4 de abril, no quarto 306 do Lorraine Motel, Dr. King foi para o terraço. Houve um tiro. Uma bala arrancou um pedaço de sua mandíbula do tamanho de um punho masculino, rompeu sua coluna vertebral, atravessou seu peito e parou em suas costas. Ele caiu no chão do terraço. Uma ambulância o levou ao hospital St. Joseph’s. O cirurgião geral, o neurocirurgião, o cirurgião torácico, o pneumologista e o nefrologista tentaram várias medidas emergenciais, mas o coração de King cedeu. A hora oficial da morte foi 7:11 da noite.

A Igreja Batista Ebenezer ficou lotada para o culto funeral, em que King Pai rezou sobre o caixão do filho. O caixão foi colocado em uma carroça de fazenda, e arrastado por duas mulas em um percurso de três milhas e meia [5.6 km] pelas ruas de Atlanta, até o Morehouse College, recebendo as homenagens de cinquenta mil pessoas, segundo estimativas. Em Morehouse, houve outro culto, de duas horas. Dr. King foi enterrado no cemitério South View, sob um monumento de mármore com a inscrição “Finalmente livre, finalmente livre, graças a Deus todo-poderoso, sou finalmente livre”.

O FBI começou uma caçada humana que foi considerada a mais intensa da história americana – aproximadamente mil e quinhentos agentes foram destacados para o caso, e, no total, por volta de três mil trabalharam em seus diversos aspectos. Os investigadores identificaram como principal suspeito James Earl Ray, que havia fugido da prisão, e seguiram sua pista até Londres. Ele foi apreendido a caminho da Rodésia, onde havia um regime de supremacia branca. Ray confessou o crime e foi condenado a noventa e nove anos em uma prisão no Tennessee.

Desde então, os líderes do movimento por “direitos civis” abandonaram o sonho de igualdade de direitos e passaram a se comportar como qualquer outro grupo de interesse, buscando privilégios. Eles promoveram a ação afirmativa para negros que jamais foram escravos, às custas de brancos, latinos, asiáticos e outros que nunca foram proprietários de escravos, provocando ressentimento e conflito. Além disso, escreveu Thomas Sowell, “é muito citada uma estatística que diz que o número de negros em profissões liberais e outras ocupações de alto nível aumentou significativamente nos anos que se seguiram à passagem do Ato dos Direitos Civis de 1964, mas ignora-se quase totalmente o fato de que o número de negros nessas profissões cresceu ainda mais rapidamente nos anos que precederam a passagem do Ato dos Direitos Civis de 1964.” Esses primeiros ganhos dramáticos aconteceram conforme os negros do sul ajudavam a si mesmos, migrando para o norte. Não é surpreendente que mais pessoas estejam voltando à visão original de King de direitos iguais.

Com coragem e boa vontade, Martin Luther King Jr. reafirmou o conceito de uma “lei maior”, a ideia de que as leis feitas pelo governo devem ser julgadas de acordo com padrões morais, uma pedra fundamental da liberdade que remonta a mais de dois mil anos.