Administrador de empresas, foi diretor da Icatu Holding e sócio-diretor da Conspiração Filmes. É colaborador do Jornal O Globo e autor dos livros “Passado e Futuro da Era da Informação” e “Uma Nação sem Noção”, Foi candidato a deputado federal pelo Partido Novo/RJ em 2018.

Cumpridos 100 dias do governo Bolsonaro, percebe-se uma administração irregular, com avanços importantes aqui e ali, mas também muitos problemas.
O ministério da Economia, o setor mais crítico, entregou uma proposta de emenda constitucional acertada, fundamental para a sobrevivência não só do governo, mas também do país (usar a proposta de Temer, em vez de criar uma PEC do zero, teria sido mais inteligente, mas esse é um erro da área política, não da econômica.)

O ministério da Justiça entregou um pacote anticrime que não é perfeito (faltou mexer na legislação de drogas e nos presídios), mas é positivo. Mas Moro, e Bolsonaro, perderam vulto ao aceitar desconvidar Ilona Szabó para um conselho por conta de pressão das redes sociais.

O ministério mais eficaz parece ser o da Infraestrutura, de Tarcísio Freitas, que, sem alarde, fez 23 leilões, concedendo à iniciativa portos, aeroportos e ferrovias. E parecem funcionar corretamente os ministérios militares.

Lamentavelmente, faltam ao governo a coordenação e a articulação políticas necessárias para levar à frente seus projetos. A insistência do presidente em associar política a corrupção levou a um impasse com o Congresso, ao rompimento temporário com o presidente da Câmara, a uma derrota grave na PEC do orçamento impositivo. O governo foi incapaz de defender Paulo Guedes, que foi hostilizado, e hostilizou, na CCJ (há quem ache que Guedes ganhou a discussão; pode ser, mas voto, que é bom, não ganhou nenhum).

O governo fez as pazes com Maia e chamou os líderes dos principais partidos para conversar. Se der tudo certo, a proposta terá ficado oito semanas na CCJ (a de Temer ficou apenas uma) e pode ser aprovada no Senado até setembro. Mas raramente dá tudo certo, e não há indicação de que o governo tenha mudado de personalidade.

Economia e segurança ocuparam a ribalta, mas o ministério mais importante é, ou deveria ser o MEC, e, lá, o cenário é de devastação. Em seu curto período à frente do MEC, Ricardo Vélez inventou de filmar os alunos cantando o hino nacional; criou uma comissão para fazer análise ideológica no Enem; anunciou mudanças nos livros didáticos para constar que o golpe de 1964 não foi golpe e que a ditadura foi um “regime democrático de força”, mas não anunciou uma única medida concreta.

Os erros não foram só de Vélez. O governo permitiu uma ingerência absurda de Olavo de Carvalho, que nem sequer tem cargo no governo, e Vélez se viu diante de uma briga pelo poder entre funcionários técnicos e ideológicos (os “olavetes”). Demitiu nada menos do que 16 pessoas, e acabou substituído por Abraham Weintraub, com quem tem em comum a ideologia ferrenhamente anticomunista, a ligação com Olavo de Carvalho e o absoluto desconhecimento dos desafios da educação brasileira.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (outro ligado a Olavo de Carvalho), inverteu a hierarquia, fazendo com que ministros de segunda classe ocupem chefias de missões diplomáticas (botou coronéis para comandar divisões) e adotou o alinhamento automático aos EUA e a Israel, o que pode nos trazer problemas com a Europa, a China e os países árabes.

O Brasil tomou decisões incompreensíveis, como sair do Pacto Global de Migração e do Acordo de Paris, e desistir de sediar a COP-25, que não trouxeram ganho ao país e contribuíram para nosso afastamento da comunidade internacional. Anunciamos, sem razão, a mudança da embaixada em Israel, e depois trocamos pela abertura de um escritório comercial, desapontando os israelenses, sem por isso deixar de irritar os árabes. Algumas das extravagâncias de Araújo, como o posicionamento em relação à Venezuela, precisaram ser aplainadas pelos militares.

Por falar em Acordo de Paris, a performance do governo no Meio-Ambiente é das mais controversas. Ricardo Salles reduziu a fiscalização, demitindo 21 dos 27 superintendentes do Ibama, acabou com a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas e vem tomando outras medidas que vão na contramão da proteção ambiental. Muitos especialistas consideram que está havendo um desmonte.

Controverso é também o ministro Marcelo Antônio, repetidamente acusado de desvio de verba do PSL em Minas. Ninguém sabe o que Antônio faz no ministério do Turismo, mas ele não cai. (Aliás, com tanta confusão, ninguém nem mais se lembra de Gustavo Bebianno, que caiu ninguém sabe por que, pois nada tinha a ver com o desvio de verba de verba do PSL em Pernambuco).

Outra ministra controversa é Damares Alves, mas por motivos folclóricos. Já Tereza Cristina, na Agricultura, e Luiz Mandetta, na Saúde, são apenas discretos.

Fica claro que as peças funcionam de maneira independente do todo: se o ministro é bom, as coisas funcionam; senão, não. O governo se caracteriza pela falta de um projeto global, pela confusão, pelo confronto e pela fixação nas redes sociais. Quanto ao presidente, falta-lhe a compreensão de qual é seu papel. Não surpreende que sua popularidade esteja caindo vertiginosamente.