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Jornalista, especialista em comunicação política, cofundador e diretor de comunicação do Livres. É colunista do Estado da Arte/Estadão, foi sócio do Café Colombo e cofundador do Students For Liberty no Brasil.

Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo

“Se um gênio de um nada faz um tudo, certamente você tem um gênio”. Assim começa a carta enviada em 22 de janeiro de 1969 por Claude Lévi-Strauss, um dos mais importantes antropólogos do século XX, em resposta ao brasileiro José Guilherme Merquior.

A correspondências entre ambos havia iniciado com reflexões de Merquior a partir da obra do francês, de quem foi aluno no College de France. As ideias ali referidas seriam a base do livro A Estética de Lévi-Strauss, publicado em 1975.

Não foi um elogio isolado. Ralf Dahrendorf, então presidente da London School of Economics, dizia não saber porque Merquior cursava seu doutorado em sociologia na instituição, “pois tem mais a ensinar do que a aprender”. Raymond Aron o chamava de “o garoto que leu tudo”. E para Nelson Rodrigues, ele teria 900 anos, porque só assim seria possível ter lido tanto.

Da crítica literária ao debate político, Merquior colocou seu vasto repertório a serviço do conhecimento, não do diletantismo, e guiou sua produção pela busca da excelência – até ter sua história precocemente interrompida, aos 49 anos, por um câncer.

Apesar de ter obtido, em vida, repercussão nacional e reconhecimento internacional como poucos intelectuais brasileiros foram capazes, os 80 anos de nascimento do crítico cultural, diplomata e sociólogo José Guilherme Merquior – completados em 22 de abril – teriam passado inteiramente despercebidos, não fosse uma bela homenagem organizada pelo Livres, com liderança acadêmica de Elena Landau, reunindo depoimentos de Celso Lafer (ex-chanceler e professor emérito da USP), Persio Arida (ex-presidente do Banco Central e formulador do Plano Real), Marcílio Marques Moreira e Rubens Ricupero (embaixadores e ex-ministros da Fazenda), além do cientista político Bolívar Lamounier e dos embaixadores Gelson Fonseca, Marcos Azambuja e Paulo Roberto de Almeida.

O quase esquecimento do maior pensador liberal brasileiro do final do século XX, em meio a um governo que já teve a pretensão de se reivindicar como liberal, é um sintoma contundente. Revela não apenas a farsa bolsonarista, mas a dificuldade da sociedade civil de valorizar obras que elevam nossa racionalidade e cultura, tarefa ainda mais relevante diante da marcha de insensatez que vivemos.

Quais seriam as razões desse quase silêncio? Na opinião de Kaio Felipe, doutor em sociologia pela UERJ com tese sobre o pensador, há pelo menos três: 1) Um veto ideológico, por suas críticas ao marxismo predominante em nossas humanidades; 2) Um veto político, pela autoria do discurso de posse do presidente Collor, mesmo sem papel orgânico no governo; 3) A falta de discípulos.

Sem medo de polêmicas, José Guilherme não abria mão de rigor e honestidade intelectual. Reconhecia virtudes do interlocutor sem economizar na denúncia dos equívocos. Na imagem do mexicano Enrique Krauze, Merquior era um esgrimista liberal. Seu duelo intelectual buscava o ponto preciso a ser tocado. Com essa postura, examinou o formalismo, o estruturalismo, o marxismo, a psicanálise, o pensamento de Foucault e o próprio liberalismo. Uma lucidez que faz falta.

Por outro lado, os embates com nomes influentes na academia certamente não ajudaram a recepção de sua obra. O caso mais emblemático envolveu a filósofa Marilena Chauí. Merquior localizou citações não atribuídas do francês Claude Lefort no livro Cultura e Democracia. Chauí não negou, nem poderia – Merquior tinha razão. A professora respondeu que compartilhava com Lefort muito mais do que ideias e até seus pensamentos seriam formulados em conjunto. Como reação, boa parte da USP aderiu a um abaixo-assinado condenando a atitude de… José Guilherme.

Era um esgrimista lutando contra um exército, praticamente a sós sob bombardeio. Faltava um ecossistema intelectual minimamente maduro em torno dos valores que orientavam seu pensamento – a família dos liberalismos.

Nesse sentido, somos um país curioso. Produzimos grandes liberais, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Afonso Arinos. Implementamos, ao menos em parte, algumas agendas liberais, a exemplo do Plano Real, das privatizações e da focalização da assistência social. Mas não fomos capazes de articular vozes políticas consistentes em defesa desses legados. Se nem políticas públicas de sucesso foram devidamente defendidas, imagine então o legado de um erudito.

Esse cenário começa a mudar com uma geração que descobriu autores liberais na internet e se conectou por afinidade intelectual pelas redes sociais. Assim multiplicaram-se grupos de estudo. E logo cresceram os interessados em defender essas ideias no debate público – em sua maioria jovens, sem herança ou oligarquias, liberais por inteiro, com preocupações não restritas à economia.

Nesse contexto, o resgate de Merquior surge como exigência de aprofundamento. Precisamos de uma reflexão liberal à altura dos desafios sociais do Brasil, ainda mais agravados pela pandemia.

A propósito, o que dizer da vulgaridade dos que proclamam uma noção de liberdade tão abstrata e irreal do suposto “direito a contaminar”, contra a vacinação e o uso de máscaras? Lembram certos tipos que, no século XIX, defendiam a escravidão como um direito de propriedade. Falta-lhes a lição básica de Joaquim Nabuco: o “amor da liberdade alheia, único meio de não ser a sua própria liberdade uma doação gratuita do Destino”.

Longe da caricatura, Merquior defende um liberalismo que, “se entendido apropriadamente, resiste a qualquer vilificação”. Para favorecer a melhor compreensão, O Liberalismo: Antigo e Moderno reconstrói o percurso da tradição liberal. Valorizando a necessária pluralidade contra as tentações dogmáticas, a obra destaca a amplitude temática do liberalismo contra as recorrentes tentativas de redução de sua complexidade ao liberismo, expressão de Benedetto Croce para designar seus aspectos puramente econômicos.

Aproveitando o melhor da tradição liberal, José Guilherme esboçou um projeto de Brasil cuja atualidade permanece impressionante. Um país em que cada pessoa seja livre para escolher, onde a autonomia fale mais alto do que as determinações da loteria do destino. Um ideal de liberdade individual democratizada, que nem ignore os graves problemas sociais, nem romantize os velhos vícios estatais.

Nessa construção, combater o estatismo patrimonialista não significa recair em “estadofobia”, mas defender uma refuncionalização do Estado. Ele deve deixar de ser produtor (tarefa em que o mercado é imbatível) para se concentrar na condição de promotor de oportunidades e “protetor das imensas camadas da população brasileira ainda sem teto, sem alimentação apropriada, sem escola e sem acesso à justiça”.

Além de reconhecer sua contribuição intelectual, celebrar os 80 anos de José Guilherme Merquior é uma inspiração para o futuro. E também uma aposta: na razão contra o obscurantismo, na modernidade contra o reacionarismo, na excelência contra a mediocridade. Uma aposta no Brasil, em busca da nossa melhor versão.

USP PROMOVE CICLO SOBRE MERQUIOR

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP vai realizar uma série de debates online em homenagem a José Guilherme Merquior. Os eventos acontecem nos dias 17/6, às 15h30 e 18h30, e 18/6, às 15h e 18h30. Participarão pesquisadores que investigam a obra de Merquior, como João Cezar de Castro Rocha, Kaio Felipe, Ricardo Musse e Andrea Almeida Campos. Os debates serão transmitidos ao vivo pelo canal da FFLCH no YouTube.