Jornalista, co-fundador do Students For Liberty no Brasil, integrante do Café Colombo e diretor de comunicação do Livres.

“Quem se sente ofendido por uma sátira comporta-se como o amante de acaso que aparece no dia seguinte a reclamar a sua personalidade. Já há muito que um outro exemplo veio ocupar o seu lugar, e, onde já um novo esquecimento começa, lá aparece aquele com a recordação, a encher-se de ciúmes. Ainda acaba por comprometer a mulher”.

O recado sarcástico foi assinado por Karl Kraus em uma das 922 edições da revista A Tocha, que editou durante 37 anos em Viena, de 1899 a 1936. Crítico cultural em meio ao intenso circuito artístico e intelectual austríaco daquele período, Kraus influenciou filósofos do porte de Ludwig Wittgenstein, conforme revelou o próprio autor do Tractatus em escritos dos anos 1930. Com suas tiradas e aforismos ácidos, Kraus é também, ao lado de nomes com Mark Twain e H. L. Mencken, um dos maiores representantes do jornalismo satírico, gênero que tem sido alvo de crescentes questionamentos diante do avanço da chamada patrulha do politicamente correto e, mais especialmente, a partir do atentado terrorista ao jornal Charlie Hebdo.

A palavra sátira provavelmente deriva do latim satura, feminino de satur (cheio). Segundo o Dicionário de termos literários, de Massaud Moisés, o seu uso corrente tem origem da expressão satura lanx (louça cheia), uma referência aos frutos sortidos oferecidos em ação de graças à Ceres, deusa da vegetação e da terra, num ritual festivo “onde música, canto, dança e troca de desafios misturavam o sacro ao profano, chegando facilmente ao obsceno”. Enquanto modalidade literária, a sátira desenvolveu-se na Roma Antiga, vizinha da comédia, compondo duas variações principais: a horaciana (de Horácio), amena e sorridente; e a juvenaliana (de Juvenal), pessimista e mordaz. Em todos os casos, a característica central da sátira é o ataque e a crítica de costumes, de onde depreende necessária relação com a realidade, o que entrega a intimidade entre essa modalidade e o jornalismo.

Dentre os estudiosos da história do jornalismo ocidental, é comum considerar que, apesar do jornalismo ter desenvolvido características semelhantes as que conhecemos hoje somente a partir do Renascimento, com a invenção da tipografia, existem fenômenos pré-jornalísticos desde a Antiguidade Clássica, seja na forma das Actas Romanas, que informavam atos do governo, seja nos relatos documentais que atingiam grandes públicos ainda na Grécia. Em seu livro Uma breve história do jornalismo no Ocidente, o professor português Jorge Pedro Sousa defende que as obras de Homero, Ilíada e Odisséia, já possuíam diversos elementos jornalísticos, inclusive no aspecto estilístico da narrativa. Nesse sentido, não é exagero afirmar que elementos satíricos acompanham o jornalismo desde os primeiros fenômenos pré-jornalísticos registrados.

Isso é ainda mais evidente no caso brasileiro. Em seu renomado ensaio Iniciação à Filosofia do Jornalismo, Luiz Beltrão enquadra a sátira como elemento central dos primórdios do jornalismo brasileiro, referindo-se a figuras como Tomás Antonio Gonzaga e Gregório de Matos, este responsável pela obra que ele considera “o nosso primeiro jornal, onde estão registrados os escândalos miúdos e grandes da época, os roubos, os crimes, os adultérios e até as procissões, os aniversários e os nascimentos”.

Com o surgimento dos tipos, a sátira continuou sendo uma presença constante em meio ao amadurecimento da imprensa. No contexto de florescimento das idéias iluministas, no ambiente histórico da Revolução Francesa, o jornalismo satírico desempenhou um papel fundamental para a dessacralização da autoridade real e a desconstituição do status social privilegiado da aristocracia, expondo aquelas figuras ao ridículo, muitas vezes através do apelo a insinuações pornográficas. Como mostra Antoine de Baecque em Revolução Impressa, a fantasia obscena dos jornais da época pintava Maria Antonieta como uma amante insaciável que, após levar à exaustão o rei Luís XVI e o conde d’Artois, recorria à Madame de Polignac, somando acusações de impotência real a uma “lascívia antinatural” e bissexual da rainha que desmascaravam a decadência dos valores e pudores religiosos que sustentavam a monarquia.

No Brasil imperial, é bastante conhecido o uso das charges para escarnecer e criticar o governo, como o famoso caso do quinto dos infernos. Um pouco depois, a campanha abolicionista teve o importante auxílio da Revista Ilustrada, publicada por Ângelo Agostini, que marcou época com caricaturas que colocavam em cheque a elite escravagista. Exemplos que reforçam o grande potencial do humor para uma difusão socialmente efetiva de críticas políticas e de costumes.

Como é fácil imaginar, não foram poucas as ofensivas que tentaram silenciar o jornalismo satírico. Na França, onde os jornais desempenharam papel importante para a instalação da revolução, os próprios revolucionários, assim como Napoleão posteriormente, trataram de cercear a liberdade de imprensa. Na Inglaterra, apesar da lei formalmente assegurar a livre expressão, as “taxas sobre o conhecimento” impunham, na prática, restrições legais e econômicas ao exercício do jornalismo. No Brasil, é válido lembrarmos os destinos de dois dos mais proeminentes jornalistas do período imperial: Frei Caneca foi morto; Cipriano Barata condenado à prisão perpétua.

Os argumentos contra o jornalismo satírico costumam ser basicamente os mesmos do passado. Em primeiro lugar, a pretensão do direito à imagem e à honra, como se fosse razoável imaginar que alguém deve possuir controle sobre o que os outros pensam a respeito de si. Como dizia Mencken, “pode até ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano”. Outra idéia comum é a de que o jornalismo constitui um exercício de poder, e a sátira uma espécie de flerte com o abuso. Nessa linha, assim como acontece com o estado, a falta de limites levaria esse poder à opressão e à tirania – e por isso precisaríamos de uma “regulamentação da liberdade de imprensa”.

Ignoram que uma ideia só se combate com outra e que a expressão só é um exercício de poder para os desvalidos. Como lembra Rogério Ortega: os poderosos não se exprimem pela sátira; demitem, prendem ou mandam matar – impõem multas e tributos, poderíamos acrescentar. Por mais violenta que seja uma sátira, ela jamais será capaz de ultrapassar a violência da censura. A capacidade de conviver com a diversidade e com as idéias que desprezamos – a aceitação do pluralismo – é sintoma do grau de maturidade da sociedade.

Além disso, por qual motivo, afinal, imaginaríamos que uma eventual regulamentação da expressão pela via do estado, justamente a esfera de maior concentração de poder que existe, seria capaz de defender os oprimidos dos poderosos? E assim nos lembra, mais uma vez, Karl Kraus: “O mal nunca prospera melhor do que quando lhe põem um ideal à frente”. A sátira, parece, continua imprescindível.