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Jornalista, especialista em comunicação política, cofundador e diretor de comunicação do Livres. É colunista do Estado da Arte/Estadão, foi sócio do Café Colombo e cofundador do Students For Liberty no Brasil.

Publicado originalmente no Estado da Arte/Estadão

Neste 22 de abril completam-se 80 anos do nascimento de José Guilherme Merquior. Crítico literário, diplomata, pensador da cultura, da sociedade e da política — as facetas são tantas e impressionantes quanto a extensão e profundidade de sua obra publicada em 22 livros, produzidos em curtos 50 anos incompletos. Não há como esconder uma certa melancolia ao escrever a respeito de Merquior em meio ao bolsonarismo e à pandemia da Covid-19, cujo agravamento com centenas de milhares de mortes é produto do abraço mórbido entre o irracionalismo e o reacionarismo — justamente dois grandes adversários do seu mais vigoroso empenho intelectual. Mas recordar Merquior é também um ato de esperança, uma aposta na razão, na modernidade e na possibilidade de um Brasil em busca da sua melhor versão.

José Guilherme foi um verdadeiro prodígio brasileiro. Aos 18 anos, já publicava crítica literária no Jornal do Brasil. Sua estreia ocorreu através de um texto enviado pela seção de correspondência dos leitores. “Bastou ler o primeiro artigo para constatarmos que estávamos frente a um legítimo escritor amplamente capacitado”, registrou o então editor Reynaldo Jardim. O rito seguiu-se mais algumas vezes, com os artigos enviados pelo correio e publicados no jornal sem que o editor conhecesse o autor. Até que Merquior decidiu entregar um artigo em mãos, na redação. Quando passou o envelope ao jornalista, ouviu o pedido: “Diga a seu pai para aparecer”. Respondeu, para a surpresa de Jardim: “Mas eu sou José Guilherme Merquior”. Acabou convidado para assumir a coluna de crítica de poesia do suplemento cultural do JB.

Situação semelhante ocorreu quando Sérgio Paulo Rouanet quis conhecer o autor daqueles textos inteligentes. Na porta da casa, no Rio, o jovem Rouanet foi atendido por um garoto. Pensava que seria um filho de Merquior. Era o próprio Merquior. Foi o início de uma amizade que renderia uma bela polêmica pública, do mais alto nível, décadas mais tarde, em torno da obra de Michel Foucault. Vale o registro de que, em 2011, durante evento na Academia Brasileira de Letras, o próprio Rouanet deu razão póstuma ao amigo.

A inteligência fora do comum de Merquior ganhou potência ímpar com as oportunidades abertas pela carreira diplomática, onde ingressou após sua graduação em direito. Durante sua estadia a serviço da Embaixada brasileira em Paris, cursou o seminário de Antropologia do College de France e o doutorado em letras na Universidade de Sorbonne; quando trabalhou em Londres, realizou seu PhD em sociologia na London School of Economics. Nesse período, não apenas conheceu, como tornou-se produtivo interlocutor de alguns dos maiores intelectuais do século XX: Ernest Gellner, Isaiah Berlin, John Gray, Raymond Aron, Michel Foucault, Octavio Paz. “Admirava em Merquior um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo”, escreveu Claude Lévi-Strauss.

José Guilherme Merquior e Raymond Aron. Acervo: Biblioteca Merquior/É Realizações

Grande parte de seus encontros intelectuais mais relevantes estão documentados em vasta correspondência. O material vem sendo brilhantemente trazido ao público pela editora É Realizações no escopo do projeto Biblioteca Merquior, um esforço de republicação da sua obra. A cada novo título relançado, além de fortuna crítica, com posfácios analíticos, há inclusão de cartas relevantes para o contexto da obra e outros itens do acervo pessoal, cuidadosamente guardados e generosamente cedidos pela família. Coordenador da iniciativa, o professor João Cezar de Castro Rocha costuma destacar, a partir deste rico arsenal biográfico, o valor da ousadia de Merquior enquanto intelectual latino-americano. Sua postura não era de aluno deslumbrado diante de mestres, mas de quem dialogava entre pares. Uma remoção de hierarquias regionais, muitas vezes encaradas como dados inafastáveis da natureza.

No subsolo dessa postura, José Guilherme trazia como sólidas fundações uma erudição incomum e uma intensa paixão pela razão. Essas características marcaram sua atuação como diplomata. O historiador mexicano Enrique Krauze analisou o período de Merquior como embaixador do Brasil no México: “Sua maior contribuição à diplomacia brasileira no México não ocorreu nos corredores das chancelarias ou através de relatórios e telex, mas na tertúlia de sua casa, com gente de cultura deste país. […] A Embaixada do Brasil se converteu em lugar de reunião para grupos diferentes e até opostos de nossa vida literária. Lá se esqueciam por momentos as pequenas e grandes mesquinhezas e se falava de livros e idéias e de livros de idéias. Merquior convidava a gregos e troianos, escrevia em nossas revistas e procurava ligar-nos com publicações homólogas em seu Brasil. […] Merquior cumpriu um papel relevante: foi uma instância de clareza, serenidade e amplitude de alternativas no diálogo de ambos os governos”.

Outras histórias ilustram a grande capacidade de Merquior de não apenas conviver, mas de verdadeiramente promover a diversidade de pensamento. Poderia mencionar sua longa amizade com o filósofo marxista Leandro Konder, a quem dedica O Marxismo Ocidental com a divertida advertência “que não concordará com tudo…”. Mas a característica que eu gostaria de destacar não se restringe ao trato pessoal — o que merece destaque em nossos tempos de polarização odiosa, mas deveria ser básico na convivência civilizada. A habilidade a ser celebrada, para a qual o seu impressionante repertório de leituras era uma premissa, é sua capacidade de produzir sínteses precisas de amplas tradições de pensamento, conjugando — a um só tempo — a valorização das contribuições originais que não merecem ser descartadas junto com os equívocos, apontados sem a menor economia de palavras. Em outros termos, Merquior conseguia, como poucos, garimpar as pepitas raras no pensamento divergente sem abrir mão de criticar, com contundência, os dejetos abundantes. Foi essa sua postura diante dos autores da Escola de Frankfurt; foi essa sua postura em face da obra de Michel Foucault; foi essa sua postura na reconstituição panorâmica que empreendeu da centenária tradição liberal.

Não se trata de uma característica isolada ou descontextualizada do significado mais amplo da sua obra. Merquior se filiava à linhagem de Humboldt, para quem “a verdadeira finalidade do Homem consiste no mais alto e harmonioso desenvolvimento de seus poderes em direção a um todo completo e coerente”. Para o autor de As Ideias e As Formas, o proceder era consistente com a substância. Tratava-se de um praticante fiel das premissas do livre mercado das ideias, como preconizava John Stuart Mill, “o santo libertário” em seu epíteto de O Liberalismo: Antigo e Moderno. Do encontro entre as diferentes perspectivas do mundo, no choque entre as contradições do pluralismo, devemos fazer emergir um refinamento de cada perspectiva e, sempre que possível, uma síntese criadora. Não é por coincidência, portanto, que o ensaio O Argumento Liberal destaca acertos de conservadores e socialistas:

os conservadores estão certos ao sustentar que nem todos os males humanos têm causas sociais, sendo, pois, elimináveis por simples atos de engenharia social; os liberais têm razão em pretender que o propósito fundamental do estado deve ser a segurança do cidadão, e que o sistema social não deve ser refratário à iniciativa individual; e, finalmente, a recusa, pelos socialistas, do pessimismo antropológico dos conservadores, de modo a justificar a realização de reformas sociais, onde e quando necessárias, também é perfeitamente válida”.

Qual seria, então, o centro norteador da evolução do pensamento de Merquior? Minha hipótese curta cabe em uma palavra alemã: bildung, que sintetiza a compreensão nuclear do liberalismo clássico alemão para o conceito de liberdade enquanto autotelia. Ou seja, a noção de que cada indivíduo constitui um fim em si mesmo, jamais podendo ser reduzido a um simples instrumento para um objetivo alheio. Desta visão de liberdade decorre uma série de desdobramentos.

Alçar a individualidade à condição de objetivo último da humanidade significa, ao mesmo tempo, elevar seu valor ao máximo status social mas, também, desnaturalizar o seu conceito. A individualidade é encarada, portanto, não como uma pré-condição natural independente de circunstâncias, mas como uma construção complexa que exige o nosso máximo empenho. As potencialidades humanas não caem do céu como um presente de Deus, mas se constroem com esforço terreno, suor e trabalho.

Nesse sentido, Merquior alertava para uma profunda distinção entre liberais e conservadores. Estes últimos tomam como premissa a existência de distâncias naturais de tal magnitude entre as pessoas que, no fundo, não faria sentido empenhar grandes esforços para construir condições sociais nas quais o aprimoramento humano seja uma oportunidade o mais amplamente partilhada. Haveria uma hierarquia social dada, no sentido de uma ordem natural separando as pessoas entre categorias superiores e inferiores não transformáveis pela vontade humana. Já os liberais, por outro lado, tomam a igual dignidade humana como uma premissa universal (ou pelo menos como um dever universalizante) e, portanto, mobilizam seus esforços políticos na construção de uma sociedade com oportunidades amplas para todos, derrubando essas hierarquias. Esse impulso criador, que concebe a sociedade não como uma obra divina, mas sim profundamente humana, também não poderia de forma alguma ser confundido com uma adesão ao relativismo irracionalista, que Merquior enfrentava duramente. A justiça social viria não de um igualitarismo utópico, em que a diversidade humana é violentada e o estatismo sufoca a liberdade através de um dirigismo central, mas de uma sociedade aberta e plural, em que as oportunidades de desenvolvimento sejam acessíveis a todos os indivíduos.

O liberalismo profundamente humanista defendido por Merquior se torna indissociável do amor à cultura, ecoando o sentido etimológico do termo enquanto metáfora herdada do cultivo agrícola, ligado tanto à semeadura quanto ao cuidado com o florescimento. Cultura liberal, portanto, remete à defesa do autocultivo, um fenômeno eminentemente perfectivo. Nas palavras de Merquior, “a civilização moderna aliviou as tarefas do homem na natureza, humanizou as relações entre os indivíduos, mas não diminuiu nem um pouco a necessidade — ou a glória — desse empenho de autoaperfeiçoamento das pessoas e sociedades”. Note-se que falar sobre autoaperfeiçoamento implica, necessariamente, reconhecer a nossa falibilidade. Se há o que se aperfeiçoar, afinal, é porque há falhas. E se o autoaperfeiçoamento é o objetivo último, a pré-condição inicial automaticamente se torna a humildade de reconhecer nossas limitações. A autoformação é irmã siamesa da autocrítica.

Na síntese inigualável de John Stuart Mill em seu clássico Sobre a liberdade, recuperando o pensamento do grande expoente do liberalismo clássico alemão, Humboldt, “o objetivo em direção ao qual todo o ser humano tem de permanentemente canalizar os seus esforços, e ao qual tem de prestar atenção, especialmente quem pretender influenciar os seus semelhantes, é a individualidade do poder e do desenvolvimento; para isto há dois requisitos, liberdade e diversidade de situações; da união destas resulta vigor individual e diversidade múltipla, que se combinam em originalidade”.

A originalidade do vigor individual de Merquior destacou, no contexto brasileiro, o grande valor do melhor liberalismo: a liberdade não apenas para procurar a felicidade, como dizia Thomas Jefferson, mas para assumir, como compromisso ético, a busca pela excelência. Para Humboldt, a tarefa última de nossa existência só se cumpriria ao “vincular-se o nosso eu ao mundo, a fim de se criar a interação mais geral, mais intensa e mais livre possível”. Que possamos, então, recuperar o legado de José Guilherme Merquior e misturá-lo ao nosso mundo, permitindo-o cumprir a tarefa última de sua existência. Em tempos tão sombrios, resgatar o seu exemplo ilumina um caminho para que, a partir do rigor com a nossa autoformação, possamos florescer a melhor versão possível de nós mesmos.