Economista e advogada, é presidente do Conselho Acadêmico do Livres; foi diretora do setor de privatizações do BNDES (1994-1996, governo FHC) e presidente do Conselho de Administração da Eletrobrás.

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Os mais supersticiosos já torcem para 2020 chegar logo e levar a zica embora

Confesso: eu não resisto a um mapa astral. No último que fiz, em outubro passado, as perspectivas não eram lá muito auspiciosas. O astrólogo emendou, “se serve de consolo, o mapa astral do Brasil está muito pior”. Por sorte minha, nem todas as previsões se confirmaram. Tive meses muito positivos de lá para cá, a menos que a constelação que domina os céus do Rio com Bolsonaro, Witzel e Crivella seja a profecia realizada.

Nunca tinha ouvido falar de mapa astral para um país. Não levei muito a sério. Mas o semestre terrível dos astros se materializou logo neste início de ano: terra, água, fogo e ar, todos os elementos mostraram sua fúria. Fatalidade? O imponderável pode ter ampliado o impacto das tragédias: o tal do lugar errado na hora errada. Mas não as explica.

Em poucas semanas viramos um país de barrageiros e de doutores em instalação elétrica, obras em encosta e aviação. A cada tragédia uma nova onda de especialistas invade o noticiário tentando responder à perplexidade de um país. É mais reconfortante atribuir tudo ao destino mesmo, porque a realidade nua e crua é dura demais para ser enfrentada. Os mais supersticiosos já torcem para 2020 chegar logo e levar essa zica embora.

Quantas desses desastres poderiam ter sido evitados? Reportagem do jornal O Globo, com a manchete “Omissão como Regra”, trouxe um roteiro macabro das grandes tragédias do país. Em resumo, foram 1.774 vidas perdidas de 2007 para cá. Estão fora desta contabilidade a tragédia cotidiana da violência no Brasil: há mais de 60.000 mortes por arma de fogo por ano. Quase 200 pessoas por dia. A vida dos brasileiros parece valer cada vez menos.

Sempre aparecem os engenheiros de obras feitas. Todos sabiam tudo de errado que havia nas instalações, nas construções e nos helicópteros. Soluções de emergência e remendos surgem quase que imediatamente. E como regra geral, mais fiscalização é a resposta na ponta da língua.

Será? Regras é que não faltam e a fiscalização falhou na maioria, se não em todos os casos. Mas desconfio que seja mais por falta de fiscal para tanta legislação e do que pela falta dela.

O Flamengo recebeu 31 notificações e preferiu pagar R$ 5.372, 06 em multas a cumprir as exigências. E não foi por falta de recursos já que o clube de maior receita do País acabou de gastar dezenas de milhões na compra de jogadores e sempre investiu na formação de base. Foi apenas um risco calculado. Como tantos que são feitos diariamente. No avanço de sinal ou na direção alcoolizada.

A probabilidade de ocorrer um incêndio que destruiria a vida de dez atletas era mínima, calculavam os dirigentes. Ao serem divulgadas as condições do contêiner, que servia de alojamento, percebemos que na realidade era quase que uma tragédia anunciada. Nem assim houve incentivo para que fossem atendidas as exigências do Corpo de Bombeiros. O clube aceitou correr o risco. Alguns advogados diriam que houve dolo eventual. Por sua vez, a Prefeitura não interditou uma instalação multada dezenas de vezes.

Por falar em Prefeitura, Crivella, acostumado a olhar para o céu, garantiu que a ciclovia da Niemeyer estava protegida de falhas verticais. O deslizamento que a destruiu, uma vez mais, mostrou o quão perigoso é não olhar para o lado.

Como tudo nesse país, não foi ninguém. Perdão, foi a chuva. A mesma que todo verão causa enchentes, deslizamentos e mortes. Em São Paulo, prédios desabam e viadutos caem, sempre surpreendendo o poder público. Gambiarras, como as que destruíram o Museu Nacional, seriam armadilhas do destino?

Os “acidentes” se repetem. De Mariana nunca mais a Brumadinho, da boate Kiss ao Flamengo, do edifício Liberdade ao largo Paiçandu.

Talvez não seja uma conjunção astral, mas certamente é uma conjunção de eventos: falta de educação, corrupção, omissão, levar vantagem em tudo. É difícil identificar os motivos. Com certeza nos falta consciência ética, não leis. Mas enquanto a consciência não vem é melhor começar a criar incentivos para que seja mais vantajoso cumprir as leis que já existem, do que de as ignorar. O que será amanhã? Responda quem puder.