Economista e advogada, é presidente nacional do Livres; foi diretora do setor de privatizações do BNDES (1994-1996, governo FHC) e presidente do Conselho de Administração da Eletrobrás.

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Estamos a dez dias do 1.º turno das eleições. Se as pesquisas se confirmarem, o segundo turno será marcado por dois extremos. Uma união do centro democrático foi tentada nos últimos dias, mas não parece ser mais possível. A esta altura do campeonato ninguém quer abrir mão de ser cabeça de chapa. Como na conhecida anedota futebolística “estávamos à beira do precipício e resolvemos dar um passo à frente…”. Espero estar errada.

Resolvi reler os programas dos candidatos para quem sabe de lá tirar alguma razão para evitar novamente um voto nulo no 2.º turno. Enfrentamos dilema parecido no Rio de Janeiro nas eleições municipais de 2016. Apesar da terrível administração do prefeito Crivella, não me arrependo de ter anulado.

Os programas de governo refletem seus donos, é claro. O do Meirelles é uma autobiografia; o que fez servindo como indicação do que faria. O da Marina, uma carta de boas intenções, sem bola dividida. Alckmin foca na questão econômica e na sua experiência em São Paulo como passaporte para a Presidência. O de Amoêdo lembra um plano estratégico a ser apresentado para investidores.

O programa do Ciro é nacional desenvolvimentismo na veia, com muita intervenção do Estado, que é ele próprio. O do Bolsonaro está impregnado de seu conservadorismo e o do Haddad, não é do Haddad, mas do Lula. Nenhum programa de candidato traz detalhes das proposições. Buscam dar ao eleitor a visão de Brasil que querem.

Me concentrei nos programas do PSL e PT. O do Bolsonaro parece o resultado de um trabalho de grupo de ensino médio. Cada parte deve ter sido entregue a algum especialista. O improviso é tal que até tabelas em inglês copiadas de relatórios estrangeiros fazem parte de seu programa de governo. As ideias são apresentadas numa sequência de slides, onde o fio condutor é “Deus acima de todos” no alto de cada página.

O que pensa de fato Messias Bolsonaro sobre economia continua sendo uma incógnita. Sempre foi intervencionista, mas hoje diz que viu a luz do liberalismo. O mercado segue em seu autoengano fingindo acreditar que sua conversão é genuína, apesar de suas inúmeras declarações contraditórias. As divergências com seu assessor são muitas. E nem o Posto Ipiranga consegue apresentar um plano de econômico que pare em pé. Como Paulo Guedes não vai a debates, as críticas não são respondidas.

O programa do PT traz a pregação de sempre. A receita para sair da crise é repetir tudo que deu errado para ver se dessa vez dá certo. Do controle social da mídia ao desfazimento das reformas de Temer, o programa lembra o PT radical dos anos 80. Feito para recuperar a militância, sem acenos ao mercado. A crise fiscal é completamente ignorada. Como de resto é ignorada a passagem de Dilma, a escolhida de Lula por duas vezes para ser sua representante. Muito conveniente fingir que a recessão e o desemprego não são heranças do Lulopetismo.

Bolsonaro não sobe nas pesquisas pelo seu programa econômico, mas por sua visão conservadora, militarista e armamentista. Não conheço exemplos de governos militares liberais.

Assim, como o mercado quer acreditar na conversão de Bolsonaro, uma elite intelectual apavorada, e com razão, com a possibilidade de vitória de um fã de Brilhante Ustra, tenta se convencer que Haddad deixará Lula e o extremismo do PT de lado e será convertido ao centro. Mas é bom lembrar que o PT que muitos querem acreditar que possa ser revivido agora, aquele do pré-mensalão, foi apenas um curto período de sua trajetória, não é o padrão normal do partido.

E Haddad radicalizou o seu discurso para se legitimar no partido e apagar a imagem de “tucano” do PT. Para isso abriu mão de sua própria persona fazendo o papel de boneco de ventríloquo. O voto em Haddad é voto em Lula.

Ao terminar de ler os programas me deu uma sensação de perda de tempo e não consegui sair do voto nulo. Os dois são populistas, nacionalistas tacanhos e intervencionistas. São um estranho caso de paralelas que se encontram na vocação latino-americana para o caudilhismo.

O descrédito da população nas instituições é enorme e o voto vem carregado de raiva, medo e frustração. As pesquisas parecem refletir isso. Os dois lideram a corrida por motivos que vão muito além do programa econômico e pensei “não é a economia, estúpida”.